Ponte binacional: sucessão de vexames

Após 6 anos de sua conclusão, a ponte binacional sobre o rio Oiapoque – ligação terrestre entre os territórios brasileiro e francês – foi semi-inaugurada neste sábado, 18 de março. Foi mais um capítulo melancólico na história de um projeto que se arrasta há 20 anos, custou 70 milhões aos dois países e cujo atraso frustra quem conhece seu potencial para incrementar a economia de uma região historicamente carente de investimentos em saneamento básico, transporte, saúde, educação e segurança pública e de fronteiras.
A ministra francesa do Meio Ambiente, Ségolène Royal, até tinha confirmado presença na inauguração, mas não compareceu. Nenhum ministro brasileiro também prestigiou a inauguração da ponte anunciada em 1997 pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jacques Chirac, e que teve a pedra fundamental lançada por Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy em 2008.
O governo brasileiro resistiu nos últimos meses à pressão francesa e, ignorando a própria responsabilidade pelo atraso de seis anos, desejava inaugurar a ponte com a estrutura administrativa completa, incluindo postos de inspeção sanitária e alfândega definitiva, em vez de uma salinha improvisada. A França não aceitou mais prorrogações. A expectativa agora é que, ainda este ano, quando e se a burocracia brasileira colaborar, a chamada “Ponte da Amizade” tenha uma segunda inauguração, desta vez com as presenças presidenciais de Michel Temer e do sucessor de François Hollande. 
Para isso, lançou-se mão de mais um estratagema, típico do jeitinho brasileiro: a semi-inauguração. Funciona assim: os governadores do Amapá, Waldez Góes, e da Guiana Francesa, Martin Jaeger,  cortam a fita e fazem a festa, mas a ponte só está aberta a veículos de passeio. Posteriormente, Temer e o futuro presidente da França deverão fazer a grande inauguração, com pompa e circunstância, permitindo o tráfego de todos os veículos, incluindo ônibus e caminhões de carga. Ou seja, inaugurou, mas não inaugurou tudo, entende?
Tudo indica que o governo brasileiro se ressentiu da pressão dos franceses para concluir os prédios do lado de cá. E quem há de julgar a França? Sim, é óbvio que Ségolène Royal está de olho nas próximas eleições e queria capitalizar a obra, mas não se pode negar que o Brasil ultrapassou todos os limites protelatórios. As construções francesas, sem uso, começaram a se deteriorar. A opinião pública francesa cobrava o dinheiro aplicado na ponte que liga “o nada a alugar nenhum”.
Desde 2011, quando a ponte binacional ficou pronta, foram igualmente concluídas todas as estruturas francesas, bem como a pavimentação da estrada de 200 quilômetros que liga Saint-Georges de l’Oyapock à capital da Guiana, Cayenne. No Brasil, apenas uma semana antes da semi-inauguração é que a presidente do Ibama, Suely Araújo, assinou a licença ambiental da obra, mas com uma extensa lista de condições a serem cumpridas. A estrutura aduaneira não está concluída e a rodovia BR-156, que liga o Oiapoque a Macapá, a capital do Amapá, ainda permanece com pontes de madeira alquebradas e mais de 100 km sem pavimentação. Se no verão o incômodo é “apenas” a poeira vermelha, no inverno amazônico de grandes chuvas os atoleiros praticamente inviabilizam o tráfego, isolam povoados e fazem os veículos atolados ter de ser puxados por tratores.  No total,a  rodovia tem 595 km.
A conta da viúva
Até hoje, a travessia entre a cidade brasileira de Oiapoque (AP) e a francesa Saint-Georges era feita exclusivamente por pequenos barcos chamados catraias. Hoje os catraieiros protestaram contra a ponte, mas sabem que é pirotecnia. Eles contam mesmo é com a aprovação de um projeto do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) para que o Estado brasileiro lhes dê uma compensação pelos possíveis futuros prejuízos. A indenização teria como objetivo ajudá-los “a fazer a transição para uma nova atividade” (leia aqui a proposição). 
Nós, imigrantes indesejados?
A bela ponte estaiada de 378 metros funcionará diariamente, das 8h às 18h. É necessário apresentar visto para entrar na Guiana e os brasileiros são obrigados a pagar um seguro para os veículos (de 250 a 450 euros, de acordo com o modelo do carro). Você acha desnecessário o visto? Então ponha-se na pele de um francês que paga, literalmente, com desconto no contracheque, os muitos auxílios (escola, saúde, habitação) que a França dá às centenas de brasileiros e demais imigrantes que aportam diariamente no país. Não sem razão alguns franceses da Guiana “saudaram” a inauguração com um “Bienvenue aux immigrants!” (Bem-vindos, imigrantes!). O medo é que o caminho por terra facilite a vinda de mais brasileiros para sobrecarregar o sistema social francês.
Uma terra esquecida pelo Brasil
Desde que o governo brasileiro enviou os primeiros colonos para ocupar a fronteira com a Guiana Francesa, o Oiapoque luta para sobreviver com dignidade. Em vão. São décadas de abandono, agravadas pela corrida do ouro na década de 80, que trouxe a reboque todos os males dos garimpos: tráfico de drogas, prostituição, violência, superpopulação.
Hoje, a cidade tem um aspecto de degradação. Ruas sujas, calçadas quebradas, coleta de lixo sofrível, ausência de saneamento básico. Seu maior tesouro, o rio Oiapoque, está assoreado pela ação das balsas que peneiravam a areia dourada em busca de minério. As águas contaminadas já não são transparentes. A pesca predatória ameaça a rica fauna aquática e o lixo da cidade – a céu aberto e onde são descartadas carcaças de gado – é despejado diretamente no rio Pontanarry, que deságua nas águas do Oiapoque. Os resíduos seguem direto para a cidade francesa de Saint-Georges, onde, diga-se de passagem, o esgoto das residências recebe tratamento e não é despejado nas águas internacionais.
Diante desse quadro geral e do episódio constrangedor da semi-inauguração da ponte, é com um sentimento de frustração que a população local relembra as palavras encantatórias do ex-presidente francês Jacques Chirac sobre a ponte binacional, no dia 12 de março de 1997, no Congresso Nacional brasileiro: “A França compartilha com este grande país (o Brasil) sua mais longa fronteira terrestre com um país estrangeiro. Vamos, como vizinhos, desenvolver estes territórios limítrofes, preservar sua riqueza, suas tradições, trabalhar pelo bem-estar de todos aqueles que vivem na natureza bela e difícil da bacia amazônica. Nossa cooperação deve promover a aproximação das nossas economias”.
Veja, abaixo, imagens da ponte e da BR-156. As fotos são de Manoel Neto.

2 comentários em “Ponte binacional: sucessão de vexames

  • março 19, 2017 em 7:49 pm
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    Já que o Brasil não tem condições de cuidar de Oiapoque deveria presentear os franceses com todas as terras oiapoquenses.

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  • março 20, 2017 em 7:21 am
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    Gostaria de saber se posso entrar a pé usando ponte binacional?

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