Todos os azuis da Florida

Chegamos à Florida no dia 21 de fevereiro, para buscar os últimos documentos e fotografias históricas que minha tia Celia havia guardado durante muitos anos. Viúva, aos 78 anos, Celia vai viver em uma casa de repouso para idosos na qual poderá receber os cuidados que sua saúde delicadíssima requer. Foi uma escolha dela. Acredito que é um último ato de independência de uma mulher que jamais se curvou a imposições ou tornou suas as escolhas alheias.  Vivendo há 41 anos nos Estados Unidos, ela incorporou o jeito americano de viver.

Diante do diagnóstico de uma doença degenerativa, visitou várias clínicas na cidade em que vive uma de suas irmãs. Escolheu a que mais lhe agradou e, esta semana, entrega o espaçoso apartamento num adorável condomínio em estilo mediterrâneo, com uma fonte que por alguma razão me lembra Ponce de Leon, prédios amarelo-claros e jardins cheios de palmeiras e lagoas. Quando chegar ao pequeno apartamento na clínica em Indianapolis, terá deixado para trás o lugar em que viveu com o marido Paul, as cartas, fotos e lembranças da vida inteira. Um dos mais notáveis exercícios de desapego que já testemunhei.

O Paraíso dos aposentados

Punta Gorda é uma pequena cidade da Florida, permeada de canais, ruas largas e casas bonitas. Na cidade, que praticamente foi reconstruída após a destruição produzida pelo furacão Charley em 2004, os prédios são novos e seguros. E uma série de medidas tornou a cidade inteiramente preparada para facilitar a vida dos idosos.  Em  todo o território americano há uma verdadeira indústria voltada para a terceira idade, mas Punta Gorda leva isso a extremos.

Nessa época do ano, os aposentados americanos e canadenses costumam tomar a cidade, fugindo da neve e do frio. São chamados snow birds. Estão em toda parte, muito bronzeados, pilotando conversíveis caríssimos e barcos enormes, vestindo bermudas cáqui e camisas de estampas tropicais. Fazem piqueniques, pescam, dançam, andam de bicicleta, passeiam e se divertem.

Dois serviços para idosos me chamaram a atenção: as revistas especializadas, com reportagens sobre saúde, pacotes turísticos, lançamentos de produtos destinados a aumentar a qualidade de vida e entrevistas com atores de sucesso (todos com mais de 60 anos). Excelente diagramação, belas fotos e matérias interessantes e informativas. A segunda fonte de admiração veio dos computadores adaptados para idosos. Teclado com caracteres maiores e assistência técnica 24 horas, remota, online e imediata (“Nada de indianos dando informações ao telefone“, comentou tia Celia). O sistema não permite que o usuário faça downloads. Se desejar instalar um programa, basta telefonar para os administradores e eles o fazem, além de ensinarem a usar o novo software. Só esse procedimento – pensei comigo – já evita metade dos problemas e vírus.

Nas ruas impecáveis de Punta Gorda, muita movimentação, assim como nas praias localizadas nas cidades vizinhas. A água ainda está um pouco fria, mas o cenário é de tirar o fôlego. Um mar azul turquesa, areia branca e cheia de conchinhas. Limpíssima e com total segurança. É possível pegar um belo bronzeado e fazer ótimos programas nos parques vizinhos, com excursões à região de Everglades, roteiros por santuários animais e passeios de barco. Sem falar nos diversos restaurantes indianos, japoneses, caribenhos, italianos e o que mais sua imaginação quiser. Os mais abastados costumam estacionar os barcos nos restaurantes localizados ao longo dos canais que desaguam no Peace River. Nesses locais, as paredes de vidro permitem almoçar contemplando paisagens espetaculares.

Achei um site que conta tudo sobre Punta Gorda. Leia aqui. 

Giving  back to the community

A quase totalidade das pessoas que conheci em Punta Gorda faz algum tipo de trabalho voluntário. Meu tio Eugene – aposentado da Marinha americana – trabalha três vezes por semana no Departamento de Polícia, no Museu Militar e em um centro de apoio educacional a famílias carentes, o New Operation Cooper Street.  Há treze anos tia Celia também é voluntária no centro, onde se dá aulas de reforço, leitura e auxílio ao dever de casa para crianças e adolescentes muito pobres. O lugar é relativamente modesto para os padrões americanos, mas está acima da média de muitas escolas públicas brasileiras. Tudo muito limpo e organizado.

Na sala em que minha tia trabalha, umas vinte crianças na faixa de 5 a 7 anos, estudam sob a orientação de quatro voluntárias,  que se revezam. Uma delas, de cabelos muito brancos e lindos olhos azuis, orgulha-se dos progressos de um garotinho vietnamita:  “Ethan tem um cérebro privilegiado. Vai muito longe! Já lê como um garoto de dez anos, embora só tenha seis.” A poucos metros dela, Barbara, uma bela negra de 54 anos esforça-se para ensinar uma garotinha a ler, e Nancy, ex-professora com ar de rainha bondosa, é a encarregada de contar as histórias para os estudantes.

Mal entramos, e a festa se instalou. As crianças cantaram uma canção ensinada e coreografada por tia Celia e que consiste em dar boas vindas em cinco línguas: inglês, francês, espanhol, português e suahili (uma língua africana). “Quando alguém faz aniversário, cantamos também em vários idiomas, inclusive português e italiano”, orgulha-se a tia, que me conta o quanto o trabalho voluntário deu sentido à sua vida. Por anos e anos ela costurou fantasias e produziu peças de teatro, musicais e desfiles para as festas de Halloween, Ano Novo Chinês, Natal, Viagem de Cristóvão Colombo e – é claro – o Brazilian Carnaval.

Diante de nós, as crianças pulavam e cantavam. Quest, Jayden, Deborah, Malia  e os outros nos crivaram de perguntas. Onde fica o Brasil? Em que cidade vocês moram? Vocês tem filhos? Alex, um loirinho de uns cinco anos, levantou a mão. “Gostei da sua camisa”, disse para Alexandre. “Oh, obrigado. Na verdade, é uma camisa americana. Do Homem de Ferro”. Alguns minutos depois estavam todos brincando juntos, pendurados no pescoço de Alexandre e rindo alto. E eu recebendo os cumprimentos de um pequeno projeto de galanteador com a mais bela cabeleira afro que já pude ver. “Você é bonita, mas Mrs. Celia é linda! Todas as pessoas de 70 anos têm rugas, exceto Mrs. Celia, é claro!”.

Para finalizar, as crianças se prepararam para interpretar uma última canção. Para nossa surpresa, os americaninhos cantaram a plenos pulmões e dançaram a coreografia de… “Bate forte o tambor, eu quero é tic tic tic tac”. Dançamos juntos e foi uma delícia.

No pequeno museu militar de Fishermen’s Village, vários generais e outros oficiais aposentados trabalham na instituição. Vários deles doaram uniformes e condecorações para o acervo do Museu. Gene nos explicou sobre uma família afro-americana que se destacou por várias gerações na Marinha. Ao narrar a morte de um deles, ficou profundamente emocionado, com a voz embargada e os olhos marejados. E no Peace River Wildlife Center – uma instituição voltada para a proteção de animais e educação da população – um dos voluntários, Mac, explica sobre pelicanos e outros pássaros. Com mais de 80 anos de idade, Mac esteve na sala de controle da Nasa em momentos importantes da conquista espacial.

Essa cultura de devolver à comunidade o que ela doou a cada cidadão talvez seja uma das mais intensas forças culturais da sociedade americana. É uma forma profunda de amor pelo país. Em toda parte em que se vá percebe-se o esforço para cultivar a polidez, doar tempo e dinheiro para projetos educativos ou para as universidades em que se estudou e demonstrar cuidado com o ambiente coletivo. Faz parte desse conjunto a tendência a respeitar os regulamentos que visam o bem comum e o compartilhamento do espaço público. Não há almoço grátis – as boas coisas dos Estados Unidos decorrem também da adesão geral não só às leis, mas também às normas de conduta e às pequenas regras cotidianas.

Isso está nos pequenos gestos que se observa a cada instante. Está na atitude dos militares americanos – mesmo os aposentados – que ficam de pé no bar de karaokê ao ouvirem os primeiros acordes de canções populares sobre os soldados que morreram nas guerras.  Está no orgulho que se estampa em cada face dos que visitam ou trabalham como voluntários em Edison & Ford Winter Estates – a propriedade que Thomas Edison e Henry Ford compartilhavam na Florida e onde há atualmente um museu, laboratórios de pesquisa, jardim botânico e uma árvore banyan (a figueira da Índia) que domina praticamente toda a entrada do sítio histórico de 8,5 hectares em Fort Myers. Está na expressão de espanto de nossa sobrinha Sara, de 19 anos, quando contamos que, no Brasil, não adianta muito chamar a polícia para resolver problemas como barulho excessivo madrugada adentro, pois o ruído recomeçará tão logo os policiais deixarem o local.

Na volta para casa, contando as centenas de bandeiras americanas em frente a casas, prédios públicos e empresas, passei alguns minutos pensando que o maior tesouro dos Estados Unidos é o amor incondicional e o inamovível respeito que o povo dedica ao seu país. Se há algo que pode derrubar qualquer presidente americano, certamente é tornar a América objeto de escárnio mundial ou desrespeitar essa longamente construída emoção em torno da Nação e suas instituições – tanto as concretas como as intangíveis.

À noite fomos a um karaokê, a convite de Gene. Ok, guys, há duas espécies de karaokê no mundo: os normais e aqueles frequentados por Gene. E isso merece uma crônica no próximo post.

Galeria de fotos

 

Um comentário em “Todos os azuis da Florida

  • março 27, 2017 em 9:37 am
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    Lindo texto! Me emociono com este jeito de viver, anseio por viver assim!

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