Diário de Montreal: Mozart, neve, poesia

April, April, der weiß nicht was er will. 
Mal Regen und mal Sonnenschein,
Dann schneit’s auch wieder zwischendrein.
April, April, der weiß nicht was er will

Nun seht, nun seht, wie es wieder stürmt und weht.
Und jetzt, oh weh, oh weh,
Da fällt auch dicker Schnee.
April, April, der weiß nicht was er will.”*

Abril chegou em Montreal. Com ele veio a primavera encharcada de chuva e, por vezes, plena de sol. Entre estes – como dizem os versos infantis alemães – há neve.

Há algo de profundamente poético na neve que cai. Começa com uns flocos finos, quase uma chuva branca, que o vento carrega e deposita, com mãozinhas invisíveis, na ponta dos galhos das árvores. Eles ficam lá, equilibrados nas ramagens, como pequeninos sorvetes, balouçando.

Olho pela janela e sinto a calma do dia. Para pessoas que gostam de contemplar a natureza, a neve é um convite à reflexão. Quando ela chega, a serenidade recai sobre a terra. Os bichos se recolhem, o silêncio se instala. Os flocos aumentam de tamanho e cobrem um pouco mais o chão. De vez em quando, um vento inesperado faz desabar pedaços gelados lá do alto. Tudo dorme, sossega e se pacifica. Como no Inverno de Vivaldi,  nos quadros invernais de Monet ou nas memórias de Turgueniev.

Há quem reclame, mas os homens reclamam de tudo. Eu – amante da poesia que vive nas coisas pequeninas do cotidiano – delicio-me com a intensa claridade, com as camadas brancas que aderem aos troncos marrons das enormes árvores. Centenárias árvores – quem as terá plantado? Quantas neves já suportaram? E de repente me descubro amando essas árvores imensas, cujos galhos são desenhos a carvão bem delineados na grande tela do céu. São fortes e – imagino – pacientes, pois sabem aguardar o fim do inverno para renovar-se no ciclo da vida. Isso vale para quase todas as as que vejo, exceto os pinheiros, que simplesmente ignoram o frio e permanecem com os grossos troncos nutridos de seiva e suas folhas verde-escuras – como um velho mujique que, indiferente às circunstâncias adversas, toca a existência sem alterações aparentes. E quando a neve espessa se acumula neles, vou espiar de pertinho as pontas dos seus galhos, que me parecem mãos de gigantes que ficaram congeladas. Ah, o inverno canadense, que me faz filosofar, imaginar coisas e criar mundos só meus.

Nas noites que antecedem as nevascas, o céu ganha uma estranha beleza. Tão branco que é possível dormir com as cortinas abertas e ver os galhos pelados das árvores desenhando-se contra a imensidão opaca. Uma luz feérica inunda tudo e enche de mistérios a madrugada. Sempre penso que algo sagrado está acontecendo em torno de mim. E está.

 

* Tradução da cantiga tradicional alemã:

Abril, abril, ele não sabe o que quer.
Às vezes chuva, às vezes raio de sol
E também neva entre um e outro.
Abril, abril, ele não sabe o que quer.

Agora vejam, agora vejam como cai a tempestade e venta.
E agora, ai ai,
Então cai uma neve espessa.
Abril, abril, ele não sabe o que quer.

Mozart

Em abril, Les Grands Ballets de Montreal apresentarão As Bodas de Fígaro (fotos e vídeos aqui). Não é a ópera de Mozart, que aliás é a minha favorita. É a música da ópera, executada pela Orquestra dos Grands Ballets, coreografada e dançada pelo Ballet Nacional da Ucrânia.

Bem, amo apaixonadamente Mozart (escrevi esse texto todo ouvindo Le Nozze di Figaro, parando para fechar os olhos e beijar, na minha imaginação, o adorado Wolfie) e também anseio por ver em cena o Ballet da Ucrânia, que é um dos melhores e mais tradicionais do mundo, criado em 1867. Assim, é claro que assistiremos, neste abril de neves e chuvas, à versão ballet inspirada no livro de Beaumarchais e coreografada pelo renomado Aniko Rekhviashvili.

Comidinhas

Descobri vários novos favoritos alimentares. O primeiro deles é um chai de baunilha, chá preto e soja que é simplesmente a bebida perfeita. Veja, sou uma tea lady e sei fazer chai indiano, mas não considerei a bebida como uma heresia. De alguma forma ela mantém o “espírito” do chai original, com uma inovação delicada. Apaixonei.

Um país com muitos imigrantes tem, obrigatoriamente, uma oferta de comidas e restaurantes estrangeiros acima da média. Em Montreal, os restaurantes chineses, vietnamitas, tailandeses, indianos, portugueses, italianos e japoneses mantém aquele vínculo estreito com a terra original. Sem excessos de liberdade criativa, se bem me entendem.

Melhor que isso é encontrar em qualquer supermercado os produtos necessários para fazer qualquer comida. E os pratos prontos? Comida indiana, por exemplo, está disponível numa variedade incrível: pratos do sul da Índia, tradicionais do Rajastão ou de Bengala, vegetarianos, frango, camarão, etc. Eu poderia morar aqui, sabem?

Deixei por último a descoberta mais próxima do coração: a pastelaria/pâtisserie Bela Vista (veja aqui o site deles), bem próximo de minha casa. É uma casa portuguesa com certeza (desculpem, foi irresistível!) e já entrei lá dando bom dia para testar os atendentes. Passaram no teste: todos falam muito bem, com sotaque lusitano, é claro. O pastel de nata é perfeito, assim como o pãozinho tradicional, o bolinho de bacalhau, os croissants (ooops, uma concessão à nova terra) e o café. Uma delícia!

Com o Sr. João Carlos Cunha, o simpático proprietário, falei de política, geografia e literatura. Entre um pedido e outro, chamamos para a conversa Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Camões, Florbela Espanca, Camilo Castelo Branco e Saramago. Prometi voltar para escrever alguns dos capítulos de meu livro lá. Pretendo cumprir essa promessa ainda esta semana.

 

 

 

 

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