Diário de Montreal – Via Crucis

Na Semana Santa eu me dediquei a observar de perto a movimentação em Montreal. A província do Quebec tem uma relação dificílima com a religião católica. Como um relacionamento familiar profundamente desgastado entre pais e filhos muito ressentidos, grande parte da província hoje rejeita a Igreja em vários aspectos, mas a influência católica sobrevive no DNA deste lugar tão singular. Ainda está lá, silenciosa, nas grandes catedrais e na tradição que se imiscui nas datas festivas, reiventando-se a cada dia.

Comecemos por um pouco de história. Um fato determinante no Quebec é a chamada Revolução Tranquila (La Révolution Tranquille), que ocorreu em meados dos anos 60 e se estendeu pela década seguinte. O nome se deve ao fato de que foi uma mudança extremamente rápida na sociedade québécoise.

A partir desse movimento, tudo mudou no Quebec e moldou o que hoje se vê em Montreal e no restante da província. Em apenas uma década a população tomou nas mãos as regras da própria vida. Sem que se tornasse uma luta fratricida que encharcasse a província com o sangue canadense.

Até então, os moradores do Quebec eram chamados de  cidadãos franco-canadenses e viviam em uma sociedade fortemente controlada pela Igreja Católica. Esta, muito politizada, dominava todas as instituições, particularmente escolas e hospitais. Determinava que livros poderiam ser lidos e quais os proibidos (via Index Librorum Prohibitorum), comandava o processo de decisão política, a economia, a educação, a saúde e a postura dentro e fora de casa. Os padres controlavam a vida familiar em seus mínimos detalhes, incluindo “visitas de inspeção”. As mulheres eram cobradas para ter um filho por ano, o que resultava em famílias numerosas, com mais de 15 filhos. Do sexo feminino se exigia submissão completa ao marido. Essa onipresença católica pode ser traduzida nas mais de 400 igrejas que existem em Montreal.

Na política, os padres apoiavam o então primeiro ministro do Quebec, o ultra conservador Maurice Duplessis, e espalhavam o lema “Le ciel est bleu, l’enfer est rouge (O “céu é azul, o inferno é vermelho) em referência à cor azul do Partido da União Nacional, apoiado pela Igreja, e seu adversário que usava a cor vermelha, o Partido Liberal.

Enquanto o restante do Canadá se industrializava e desenvolvia, o Quebec permanecia atrasado. Seus habitantes, carentes de instrução, eram discriminados e considerados cidadãos de segunda classe. A Igreja liderava a rejeição aos esforços de industrialização e se opunha à iniciativa privada. Com isso, a maioria da população da Província era de trabalhadores rurais cuja formação deficiente resultava em salários e rendimentos menores que os do restante do país. Assim, migravam para outras partes do território canadense.

O histórico da Igreja no Quebec deixou sequelas emocionais. Um dos mais graves escândalos foi o dos Órfãos Duplessis (saiba mais clicando aqui), o caso de 20 mil crianças órfãs canadenses, vítimas de um esquema em que foram falsamente rotuladas como doentes mentais e confinadas em instituições psiquiátricas. Várias receberam tratamento de choque ou foram lobotomizadas. Algumas foram utilizadas em experiências científicas e muitas sofreram abusos sexuais. Até hoje não se sabe ao certo quantos  morreram. Durante as décadas de 1940 a 1960, Maurice Duplessis criou um esquema de financiamento federal para os conventos que recebiam as crianças que haviam sido retiradas à força de suas mães, por serem filhas de mulheres solteiras. As crianças consideradas deficientes valiam o dobro. A cobiça se encarregou do resto.

Após a morte de Duplessis, em 1959, o rio de mágoas do Quebec desaguou na Revolução Tranquila. Um ano após a morte dele, o Partido Liberal do Quebec foi eleito e as mudanças se processaram em grande velocidade. Os motes eram agora Maîtres chez nous (Mestres em nossa casa) e Il faut que ça change (É preciso mudar). O povo passou a se denominar québécois e a identidade local se fortaleceu. O Canadá passou a ser oficialmente bilíngue, a educação saiu do domínio da Igreja e passou a ser laica e pública, sob a responsabilidade do recém-criado Ministério da Educação. A economia floresceu, com investimentos em energia e produção industrial.

Mulheres, aborto, eutanásia, casamento

Não admira que, após tudo iss,o o Quebec – e particularmente Montreal – tenham abraçado fortemente as lutas pelos direitos das mulheres e combatido incessantemente todas as formas de preconceito e violência. Os pais da atual geração de adultos quebecoises foram, eles mesmos, imigrantes dentro do Canadá. Também enfrentaram preconceito e desconfiança. Sabem na pele o que é ser visto como um estranho que busca melhorar de vida.

No caso das mulheres, a libertação das amarras mantidas por tão longo tempo resultou em uma sociedade onde a carreira delas é altamente estimulada e o respeito às decisões femininas é sagrado.  Paquera nos bares? Só se elas derem sinais claríssimos de que estão interessadas. A ativa participação paterna na criação dos filhos é visível em toda parte.

Nada surpreendente se considerarmos que apenas em 1964 veio a primeira vitória para as quebecoises. Naquele ano entrou em vigor o estatuto jurídico das mulheres casadas. Até então, o casamento as incluía na lista dos incapazes, junto com as crianças e os loucos. O marido administrava tudo, inclusive os bens pessoais da esposa. O Código Civil determinava que a mulher deveria obedecer ao marido. Este poderia até mesmo negar à sua mulher o direito de trabalhar. Também era proibido ter uma profissão diferente da do marido. A primazia do sexo masculino, sob o título de “poder paternal” só viria a desaparecer 13 anos mais tarde, em 1977.

Outro sinal de que as feridas foram profundas demais: mal a Igreja perdeu poder no Quebec houve uma queda na quantidade de casamentos. De 92% de casais formais em 1961, a estatística encolheu para menos de 50% nos dias de hoje. São cada vez mais raros os casais canadenses que formalizam a união de imediato. Em um movimento claramente de reação a tudo o que havia anteriormente, aborto, divórcio, união de pessoas do mesmo sexo e eutanásia foram legalizados no país.

E o que fazer com as mais de 400 igrejas que se espalham pela cidade? São catedrais belíssimas, patrimônio histórico e com arquitetura de tirar o fôlego.  Com o número de fiéis reduzido à metade, em cinquenta anos várias igrejas encerraram suas atividades. As que permaneceram têm uma abordagem inteiramente de acordo com o novo Quebec. São lugares onde há esforços intensos para acolher todos os fiéis. O foco é nos serviços voluntários e na postura profundamente fraternal. Assim, os antigos párias – como homossexuais e famílias de não casados – hoje são bem-vindos. É um catolicismo que investe em reconciliação, perdão e postura afetuosa. A interação com outras religiões também é recorrente. E em quase todas as igrejas atuais há apresentações de música clássica todas as semanas.

Quanto às igrejas – não só as católicas romanas, mas também as presbiterianas – que foram fechadas, várias foram vendidas e ultimamente vêm se convertendo em lugar de outras atividades. Custaria uma fortuna ao Estado mantê-las – várias estavam muito deterioradas e a cidade debateu o assunto com a Igreja antes de tomar a decisão de vendê-las. Algumas tornaram-se condomínios, outras foram transformadas em teatros, museus, centros comunitários e bibliotecas. O próprio museu de Belas-Artes de Montreal incorporou uma parte de uma igreja aos seus domínios. Clique aqui e veja algumas das igrejas de Montreal que foram direcionadas para outras atividades culturais.

Sexta-Feira da Paixão e Páscoa

Por fim chegamos à Semana Santa e me perguntei como Montreal, com todo esse passado ainda tão recente, lida com a festa religiosa. Fui ao Oratoire de Saint-Joseph no Domingo de Ramos. Muitas pessoas com os raminhos nas mãos, orações, incenso perfumado e um clima de serenidade. Há uma calma profunda na Basílica de São José. Com o segundo maior domo do mundo – atrás, apenas, da cúpula do Vaticano -, ela se ergue, monumental, do alto de um monte. Lá de cima se vê Montreal e o rio Saint-Laurent. A cidade parece tranquila.

O som do imenso órgão alemão preencheu os recantos da catedral com música barroca e, mais uma vez, comprovei como a arte sublime é capaz de pacificar. A música de Bach espalhava bálsamos e aplacava, por alguns breves instantes, um tantinho da dor que emana das chagas ainda abertas. Elas sangram, especialmente entre os sobreviventes: órfãos torturados e as crianças dos povos nativos retiradas de suas famílias no duro processo de colonização. O tempo, a capacidade de reconhecer e reparar erros do passado farão o restante. Torço para que esse tempo não tarde.

Mozart 

Foto: Tam Lan Truong

Na sexta-feira da Paixão fui a uma catedral presbiteriana de raízes britânicas. Não tenho religião, mas a vida me ensinou a não criticar a opção alheia e a extrair a beleza que subsiste nas coisas. Jamais me poupo de aprender, observar, experienciar. Decidi, assim, ouvir os grandes corais e orquestras que vão tocar em Montreal durante as vigílias, missas e serviços da Semana Santa.

Foi duríssimo escolher, dadas as belíssimas opções da programação.  Com Beethoven, Bach e Haendel no cardápio, optei por minha absoluta paixão musical: Wolfgang Mozart. Na Igreja de Saint-Andrew e Saint Paul, o serviço incluía o Réquiem (assista aqui) e a mais bela missa do gênio austríaco: a Grande Missa em Dó Menor (Große Messe em c-Moll, K. 427). Ambas as composições foram deixadas inacabadas e têm histórias emocionantes, ligadas à vida de Mozart.

A Grande Missa foi composta entre 1782 1783. Em uma carta a seu pai, Leopold, datada de 4 de janeiro de 1783, Mozart mencionou um voto que tinha feito: escreveria uma missa para quando trouxesse sua noiva Constanze a Salzburg. Nela, a própria Constanze cantaria para o pai e a irmã de Wolfgang. A composição serviria como apresentação dela à família. Mozart amava a voz de sua esposa e compôs para ela uma belíssima ária, de 8 minutos, “Et incarnatus est”, que Constanze cantou na primeira apresentação da Grande Missa, em 26 outubro de 1783 na Igreja da Abadia de São Pedro, em Salzburg.

Foto: Tam Lan Truong

Quanto ao Réquiem, todos sabemos, é a última composição de Mozart, uma Missa para os mortos que, ironicamente, ele intuía que seria seu próprio réquiem. Foi a peça escolhida por Chopin para o próprio funeral. Obra-prima de intensa beleza.

Na igreja, muitos britânicos – especialmente escoceses – de cabelos brancos e extrema polidez. Daquele tipo de gente cada vez mais rara nos dias de hoje. Nada de excesso de ouro nas paredes, como convém a uma igreja de inspiração calvinista. Somente luminárias, vitrais magníficos e as antigas bandeiras dos lendários Black Watch (Royal Highland Regiment) do Canadá. Nada mais era necessário.

O reverendo, Dr. Glenn Chestnutt, em duas ocasiões fez preleções falando de amor, tolerância, compreensão entre os povos.

E iniciou-se a Grande Missa, conduzida por Jean-Sébastien Vallée. Cantores e músicos extraordinários, instrumentos de época, acústica perfeita. Aos primeiros acordes do Kyrie, um arrepio coletivo. Impossível respirar diante de tal beleza. E a ária de Constanze me encontrou com os olhos inundados de lágrimas de amor e gratidão. Assista aqui à Grande Missa e entenda o que não posso traduzir. Mozart é um milagre.

Durante o Réquiem, pensei na figura pouco imitada de Jesus Cristo, cuja morte os cristãos lembravam naquele dia. E eu, que não creio, homenageei-o também com a música do divino Mozart, certa de que compartilhava as feridas da incompreensão e da tortura com as pequenas vítimas do Quebec.

Ovos de Páscoa

Numa cidade que foi nutrida na tradição católica, como escapar das festividades? Montreal não escapa. Reinventa-as. Na música majestosa das catedrais, em igrejas que adotam discursos fraternais e no aspecto doce e lúdico da Páscoa. Não vi aqui aquelas decorações que temos no Brasil, com os supermercados lotados de fileiras de ovos de chocolate, numa festa de consumo e gula. Mas vi delicadíssimas peças para celebrar a ocasião (confira aqui).

Os ovos de chocolate lembram pequenas obras de arte. Havia até alguns inspirados em Salvador Dali ou imitando colméias e elaboradas casas de passarinho. Muitos em forma de animais domésticos. Abelhas, galinhas , ovelhas e sapinhos, além dos coelhos tradicionais, estão em discreta exibição nas boulangeries e chocolaterias.

Toda a ambientação remete para a felicidade doméstica mais simples. Fala, ainda, de uma renovação que é espiritual mas que igualmente assinala a chegada de um tempo ameno, tanto no clima como nas vidas do povo daqui. A existência repete a Semana Santa: após a via crúcis, chega a Páscoa. A luz sucede às trevas, a dor é substituída pela esperança. Nos parques públicos, há atividades de caça aos ovinhos. Sob o céu azul-claríssimo, crianças e seus pais se divertirão juntos na manhã de um domingo de primavera. Aos poucos, o Quebec se recupera de suas dores.

Feliz Páscoa, Montreal. Seja sempre feliz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *