Pandora

Pandora. Por John William Waterhouse

Às seis da manhã, em Montreal, ligo o computador para ver as notícias do Brasil. A primeira delas me afronta. Uma faixa carregada por torcedores proclama a extensão de nossa miséria: “Somos todos Bruno”. Refere-se ao goleiro acusado de matar e mandar atirar aos cães o corpo de Eliza Samudio. As demais notícias dão conta da monstruosa teia de corrupção que enreda o país.

Ponho a chaleira no fogo, vejo a neve que derrete lá fora e algo como uma dor lancinante vai tomando conta deste meu coração saudoso. Sinto que a aparentemente infinita caixa de tragédias ainda não se esgotou. Continua a expelir seu arsenal de males. A feiúra desse conteúdo tenta sufocar minha titubeante esperança. Abraço-me aos filósofos, peço socorro a Karl Popper para não ceder ao pessimismo e, assim, contribuir para o cenário geral de desalento.

Contra os fios frágeis de meu otimismo lutam as redes sociais, os sites de notícias, as mensagens desencantadas dos amigos e tudo a que assisto de longe. Eles me narram com extraordinária clareza o cenário de caos, onde a adesão à corrupção prolifera, a violência campeia e os linchamentos – reais e virtuais – vão se tornando cada vez mais frequentes. Noto o quanto é fácil ceder ao populismo, lamento ver o debate dando lugar ao argumento raso ou à agressão. E espanto-me ao constatar com que facilidade valentões, boçais e gente grosseira seduzem os incautos e também os que militam (a palavra é essa mesmo) na Academia.

Faço o chá preto – forte como o de George Orwell – enquanto continuo a ler as postagens dos amigos no Facebook. Reflexão, leitura e bom senso vagueiam, perdidos, entre modismos e atos teatrais. O espetáculo fascina, as hashtags e palavras da moda idem. Todo mundo é militante e está coberto de razão, além de ocupadíssimo salvando o mundo. Já não há espaço para os Luther Kings nos dias de hoje. Tem de ser de Malcom X em diante. A raiva ruge. É preciso ir à guerra. Moderação não serve para destruir o establishment (onde foi mesmo que vi isso antes?). A coisa tem que ser na base de destruição atômica, napalm e empalamento. E tome generalização tosca. Às favas toda lógica. Assim, seguimos babando ódio nos teclados, acreditando que vulgaridade é sinônimo de opinião forte ou simplesmente confundindo sinceridade com rispidez.

Já não basta a crítica severa: é necessário purpurina nas palavras ocas, o brilho falso de um mundo de pós-verdades. É de fato um universo peculiar esse em que vivo agora. Nele, imprensa golpista ou fake news são quase sempre o que desagrada a quem se vale dessas expressões. Examino, perplexa, gente defendendo abusos, reinventando a realidade, negando o óbvio e abraçando o sofisma.

Enquanto isso, Odebrechts e assemelhados expõem com naturalidade o longo saque à pátria.

Volto à notícia do goleiro Bruno e me sirvo de mais uma xícara de chá preto para ajudar a superar o nó na garganta. Há coisas que minha mente acanhada demora a aceitar, embora eu compreenda que são fenômenos mundiais e recorrentes. Uma delas é a atração doentia que alguns nutrem por sociopatas criminosos. Estejam eles na política, na cadeia, na televisão ou nos campos de futebol, uma nuvem de gente fanática os segue, mesmerizada, apoiando a loucura e os horrores que derivam de seus atos.  Muitos, é claro, caminham com eles mantendo abertas as boquinhas famintas, à espera que migalhas de poder, fama, dinheiro fácil ou gols lhes caiam goela abaixo. Outros não conseguem lidar com a idéia de que seus ídolos os enganaram. Diante da possibilidade de olhar para si mesmo e reconhecer a má escolha do passado, é preferível recriar o pretérito perfeito.

Desvio os olhos da tela por um instante. Aguardo ansiosa que a rudeza da expressão ceda espaço para o bom debate e que seja restaurada a polidez na defesa das certezas que cada um carrega. Lá vem o Popper de novo a me lembrar o perigo das certezas substituírem a verdade. As certezas são abusadas: instalam-se sem cerimônia e dispensam  investigação, checagem e reflexão. No nosso mundinho de surdos, nem como exercício filosófico se cogita estar equivocado. Errar já não é mais humano, meu caro Voltaire.

É inescapável pensar que a passionalidade e o comportamento agressivo aos poucos força os limites da civilidade. Os comentários de sites de notícias e redes sociais já saltaram para a vida real, tornando nosso país um local onde boas maneiras vão aos poucos escasseando. As certezas são “esfregadas na cara”. Palavrões, xingamentos e comportamentos abusivos são recebidos entre aplausos. E, paradoxalmente, tudo isso num país que fica de olhos marejados quando elogia a cortesia que impera em outras partes do mundo.

Eu disse “elogia”? Desculpe, tempo verbal errado. Leia “elogiava”. São cada vez mais raros os brasileiros que apreciam as delicadezas e os avanços civilizatórios. Bonito é vomitar na face alheia, sambar na cara da sociedade, apoiar quem “fala mesmo”, ser rude e usar uma enorme quantidade de rótulos desqualificadores para encerrar um debate sem precisar ter razão. Qualquer coisa que fuja a isso e o autor ganha um rótulo na testa: isentão. Quem inventou esse termo e o associou aos moderados deveria ganhar camarote no oitavo círculo do inferno de Dante, oitava bolgia. Tudo muito schopenhaueriano. Somos todos Bruno? Certamente não. E espero que nunca sejamos. Mas a bofetada matinal em forma de faixa ainda está ardendo – como recordação dolorosa de que algo muito grave está ocorrendo neste exato momento. Algo obscuro e pútrido.

Enquanto bebo o último gole de chá, o velho Aristóteles espia sobre o meu ombro e vê algumas outras ideias vergonhosas sendo alegremente compartilhadas no Facebook. Sua simples lembrança me inspira a interferir, escolher a retórica, desmontar o argumento torto e buscar a persuasão. Suspiro de novo. Ah, velho grego, você sabe que para isso é necessário que o outro não esteja encerrado na muralha das próprias certezas.  Derrubar o paredão demanda tempo, educação (no sentido pleno) e artimanhas socráticas – que não domino, aliás. E eu tenho um livro para terminar.

Lá no fundo da caixa, a esperança luta bravamente para sair. Mas tenho um palpite que, antes que ela escape da prisão, muitas novas mazelas virão à luz. Será assim até que o dolorido cansaço nos vença ou até que a maturidade nos aponte um outro caminho? Mistério.

8 comentários em “Pandora

  • abril 22, 2017 em 11:45 am
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    Uffa !
    … sem mais, um reconfortante e cúmplice abraço, cara Sonia Zaghetto.
    Ricardo Daiha

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  • abril 22, 2017 em 12:51 pm
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    Soniazaghetto,entendo esta dor ,você descreveu o que me vai na alma: tristeza diante de tudo isto!😥😥😥. Cheguei a sua página pela Renata Barreto,me encantei,texto simplesmente maravilhoso! Um 💋no♥️

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    • abril 22, 2017 em 9:17 pm
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      Ah, a Renatinha é tão querida. Muito mesmo. Muito obrigada pelas palavras gentis, Lauricena. Um grande beijo!

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  • abril 22, 2017 em 8:10 pm
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    Excellent como sempre o faz! Adoro ler seus textos. Busco neles a esperança que está quase indo embora.
    Nnao vejo os jovens em ação para ajudar o Brasil. Se ele não fazem isto é aí onde acaba a minha fé no futuro do Brasil.
    Não nos abandone Sonia, você ee uma pessoa de muito valôr, e escreve muito bem!
    Obrigado sempre! Leda Maria

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  • abril 22, 2017 em 8:14 pm
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    Excellent como sempre o faz! Adoro ler seus textos. Busco neles a esperança que está quase indo embora.
    Não vejo os jovens em ação para ajudar o Brasil. Se eles não fazem isto é aí onde acaba a minha fé no futuro do Brasil.
    Não nos abandone Sonia, você é uma pessoa de muito valôr, e escreve muito bem!
    Obrigado sempre! Leda Maria

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  • abril 23, 2017 em 8:14 am
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    Maravilha iniciar o dia com uma sofisticação literária que realmente expressa meus sentimentos de brasileira estupefata diante deste horrível cenário no qual se encontra o Brasil.

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  • abril 23, 2017 em 9:32 am
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    Eu a invejo, e ao mesmo tempo, não. Queria estar aí fora, fora do alcance de tudo isto. Mas vejo que mesmo aí, a alma verde-amarela chora. Seu fiozinho de esperança – me empresta???
    Os meus estão triturados, recuperando-se na UTI.
    Tenho vontade de agir mas sinto-me como um bebê, que sabe o que precisa e onde quer chegar – porém não tem a mínima ideia de como começar. Aqui, somos unidos no futebol, no carnaval, nos postos de saúde e nas megamanifestações (“festivas”). Preciso saber onde está a chave para formar massa crítica e dar um primeiro passo, mas… não é só política. Nem só corrupção. É uma questão mental, cultural, psicológica nacional. Para sobreviver, tenho períodos de devorar as notícias e outros de alheamento. E, às vezes, mesmo, eu me pergunto: onde será que me insiro nisso tudo? Até onde irá meu entendimento, e meu envolvimento, mesmo que involuntário, nessa situação caótica? Mas ainda assim, a alma que amarela ainda é verde e persevera, azulando-se com os refrescos de singelos exemplos de bons cidadãos do bem aqui e ali, com a pujança natural do nosso país e com esse amor que reluta mas não quer desapegar.

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  • julho 20, 2017 em 6:10 pm
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    muito bom que hoje em dia haja uma obra literária boa como de antigamente, porque hoje em dia muitas obras esta depravadas.

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