Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte. E isso dá à cidade um ar acolhedor e antigo. A esta altura, churrasqueiras já estão prontas para uso, ombrelones e mesas foram instalados nos quintais e quase todo mundo plantou pequenos canteiros. A cidade aguarda o verão com ansiedade. Meus vizinhos já receberam os amigos em pelo menos três ocasiões. As risadas entraram pela minha janela durante um longo tempo. Não sei como conseguem evitar os danos da ventania onipresente.

O vento de Montreal é um caso à parte. No auge do inverno ele agride mais que o frio, do qual é possível se proteger com roupas adequadas. Agora, na primavera, continua, indiferente à chegada dos tempos de amenidade. Faz um barulho surdo quando passa pelos galhos pelados das grandes árvores. Ruge o vento e eu paro para contemplar seus efeitos. Adoro vê-lo bulir com as árvores, curvá-las, revolver-lhes os galhos. E lá se vão os jornais sendo arrancados das mãos dos velhos, os guardanapos de papel voando pelos ares e as sacolas plásticas enroscando-se nos galhos mais altos.

Ballet, Zaz, planetário

Na seção de lazer, novidades. Eu e Alexandre assistimos ao Ballet Nacional da Ucrânia apresentar As Bodas de Fígaro. Com música de Mozart e, assim como a ópera homônima, inspirada no livro de Beaumarchais. Uma delícia! Divertidíssima. As músicas incluíram alguns trechos da ópera de Mozart-Lorenzo da Ponte, mas também outras peças do gênio austríaco, como a Sinfonia número 25. Os cenários e figurinos pareciam uma janela aberta para o século XVIII. Assistimos à performance com a prima ballerina Kateryna Kukhar (Susanna), Alexandr Stoianov (Fígaro), Igor Bulychev (Conde de Almaviva), Oksana Guliaieva (Condessa), Marat Ragimov (Cherubino), Sergii Lytvynenko (Bartolo) e Vladislav Ivashchenko (Don Basilio).

Esse ballet é uma comédia – o que não significa que a coreografia e as performances abram mão da altíssima qualidade que marca o trabalho da companhia ucraniana. Muito ao contrário, foi uma oportunidade para os bailarinos demonstrarem, além da habitual perfeição na dança, os seus dotes de interpretação e suas habilidades em acrobacias de tirar o fôlego. O personagem Marcelina concentrava as cenas de comédia. Foi interpretado por um bailarino, Vitalii Netrunenko. Ao final, quando o grupo agradecia os aplausos, ele finge que tropeça e cai “de cara” bem próximo à platéia. E é lógico que deixou cair a peruca que usava. Veja aqui, na página da bailarina Kateryna Kukhar, fotos da Companhia e um vídeo com os bailarinos agradecendo os aplausos.

Foi a segunda vez que assistimos ao prestigiado Ballet Nacional da Ucrânia. A primeira com O Lago dos Cisnes. Recomendo a todos, se houver oportunidade. Um nível de excelência, perfeição técnica e profissionalismo que é difícil superar.

No sábado, fomos assistir ao show da cantora francesa Zaz. Impecável é o adjetivo certo para definir a produção caprichadíssima. Mas o que nos surpreendeu mesmo foram as condições do local do show, o Centre Bell. Sei como soa presunçoso comprar outros países com o Brasil, mas foi um tanto inescapável. Ainda mais porque já vinha com a experiência acumulada de ter ido ver Paul McCartney num estádio em Goiânia (no qual apenas UMA entrada estava funcionando) e assistir ao bis para uma platéia esvaziada no show do Pearl Jam em Brasília, entre outros momentos lamentáveis de grandes turnês no Brasil. E em todos as filas para comprar refrigerantes eram quilométricas, os banheiros  muito sujos, a má educação brasileira mostrou sua face e nem sempre a acústica do lugar fez jus ao músico, como foi o caso de todas as apresentações do Dream Theater em Brasília. Em Montreal – localizada num país com a mesma idade do nosso – a acústica permitia ouvir cada nota, a entrada era fácil, as cadeiras acolchoadas e o público educadíssimo (muitos cabelos brancos na plateia, além de crianças e famílias inteiras). Para pedir comida, serviço rápido: em menos de 5 minutos fomos atendidos (pedimos nachos quentinhos, capuccino e refrigerantes), recebemos tudo e pagamos. Quando Alex precisou deixar a sala por alguns minutos, todas as pessoas da nossa fila levantaram-se gentilmente, para facilitar a passagem. Na volta, ele passou direto pelo grupo, que imediatamente acenou alegremente para ele, informando o lugar certo.

Importante dizer: ao final de todos os eventos – Ballets, óperas, concertos e shows pops – os que compraram o ingresso recebem um email pedindo para avaliar a recepção, acomodações, serviços e até a performance dos artistas.

No domingo fomos ao Planetário de Montreal. Um lugar especial, com experiências interativas, locais de aprendizado e equipamentos fascinantes, como o projetor optomecânico Zeiss.

Construído na Alemanha pela empresa Carl Zeiss, o instrumento é composto por mais de 150 projetores fixos e móveis, que podem ser operados individualmente ou em grupos. Espécie de simulador astronômico, reproduz muito fielmente o céu estrelado como é visto a partir da terra. O projetor é igualmente uma “máquina do tempo”, já que simula a aceleração dos principais movimentos dos corpos celestes (como as fases da lua, o movimento diurno do céu e os movimentos anuais do sol e dos planetas do sistema solar) e também mostra o aspecto do céu em qualquer momento do passado, do presente ou do futuro.

Nos dois anfiteatros assistimos a filmes ultra realistas produzidos pela NatGeo sobre constelações, meteoritos e as missões exploratórias a Marte. Dentro de uma sala em forma de abóbada, a projeção é de 360 graus. Deitados em poltronas que deixam o corpo quase na horizontal, é possível se sentir ao ar livre contemplando o céu estrelado. Além da informação científica, são oferecidas às crianças e adultos, em todo o complexo, uma série de opções de jogos, quizz, aulas com projeções holográficas de astrônomos e produtos voltados a estimular o amor à ciência.

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