Diário de Montreal – The Black Watch

 

Sonia Zaghetto

Uma chuva gelada caía sobre Montreal e a temperatura estava abaixo de 4 graus. Um vento constante varria as ruas da cidade. Mas nada disso nos fez desistir de acordar cedo no domingo para assistir à parada dos Black Watch. O desfile do legendário Batalhão de Infantaria do Regimento Real Escocês (Royal Regiment of Scotland) no Canadá é um programa imperdível para quem se interessa pela história de outros países. Ao som das tradicionais gaitas de foles, usando kilts e o famoso gorro enfeitado com pompons de lã vermelha, eles atraem todos os olhares e evocam episódios emocionantes e trágicos da história canadense.

Tradicionalmente no primeiro domingo de maio, o batalhão canadense dos Black Watch sai de sua sede na Bleury Street e marcha, por mais ou menos dois quilômetros, ao longo da Sherbrooke, até a igreja presbiteriana de St. Andrew e St. Paul. O regimento histórico tem uma forte associação com essa igreja, que reúne a comunidade escocesa de Montreal. Muitos são membros da congregação e outros são lembrados entre os heróis que deram suas vidas em defesa da população canadense durante as duas guerras mundiais. Seus nomes estão inscritos nas paredes do templo e as gastas bandeiras do Regimento penduradas nas laterais do santuário para recordar seu sacrifício (leia mais sobre os Black Watch no final do texto).

Chegamos à igreja de St. Andrew e St. Paul e fomos recebidos com aquela polidez antiga. Muitos idosos de cabelos alvíssimos e olhos azuis já estavam no local. Parecia uma reunião de antigos membros do Parlamento britânico. Com muita amabilidade, eles nos forneceram informações e nos deram boas vindas. Observá-los é emocionante: as senhoras vestidas de forma impecável, com os cabelos cuidadosamente penteados. Os homens usavam ternos bem cortados e os antigos integrantes do Black Watch eram identificados pelas numerosas medalhas de bravura que traziam no peito. Tudo neles traduzia o passado militar: a espinha ereta, as mãos cruzadas às costas e um indisfarçável ar de orgulho por estar ali, naquele instante, cercado pelos companheiros e suas famílias. São os herdeiros dos famosos snipers (atiradores de elite) da Segunda Guerra e dos que perderam a vida nos campos de batalha de Europa, especialmente na primeira tentativa de desembarque aliado na Normandia.

Olhando-os, tão elegantes no trajar, lamentei por meus jeans e botas. Instintivamente tentei dar alguma dignidade ao meu coque desarranjado pela longa caminhada até a igreja. Logo o som das gaitas de foles se fez o ouvir e o Regimento chegou até a igreja. Foram recebidos à porta pelos antigos companheiros. Além dos militares da ativa, vinham os jovens recrutas desajeitados, os rapazes e moças de patentes intermediárias e os veteranos – de longe os mais compenetrados e garbosos – vestindo kilts de gala.

O grupo entrou pela porta esquerda e sentou-se nos primeiros bancos do mesmo lado da nave. O órgão monumental espalhava seu som de séculos passados pela igreja enfeitada de rosas vermelhas ofertadas pelas famílias dos antigos membros do Black Watch, já falecidos.

A cerimônia iniciou com a entrada solene do coro da igreja – um grupo de vozes celestiais que vi cantar, com rara beleza, o Réquiem e Grande Missa de Mozart. Logo depois, ao som do God Save the Queen, entraram os primeiros soldados e o capelão dos Black Watch. Traziam as bandeiras do regimento, da Escócia e do Canadá.

Russell “Sandy” Sanderson, sniper, falecido em 2016.

A parada anual dos Black Watch e a solenidade em St. Andrew e St. Paul são repletos de simbolismos. Os soldados entram na igreja e, em um gesto de humildade, depositam as bandeiras no altar. É um dos mais importantes momentos da solenidade. As bandeiras ontem consagradas foram um presente do príncipe de Gales, Charles, em novembro de 2009. As colours (bandeiras) dos Black Watch são a alma do Regimento, que tem como um de seus motes a frase “I serve under those Colours (the Colours of the Black Watch)”- Eu sirvo sob aquelas Cores (as Cores do Black Watch).

O Comandante do Regimento lê o trecho das Escrituras. Em outro momento emocionante, um solitário músico entra na igreja. O lamento da gaita de foles é o choro por aqueles que morreram para defender o país. O som é um lembrete para jamais esquecer os que perderam a vida, em particular perante a ameaça nazista. O sermão do Capelão do Regimento é construído em torno de honrar os que se sacrificam pelos outros. Durante toda a cerimônia, observei os veteranos, muito emocionados e mantendo a postura impecável. Para os novos recrutas, a data assinala representa o momento em que eles são chamados à responsabilidade de perpetuar as tradições e a história do Regimento, mantendo-as vivas em honra da memória dos soldados que o serviram e por ele morreram.

Quando o serviço termina, o regimento carrega as suas bandeiras enroladas enquanto deixa o santuário. Saem em primeiro lugar, seguidos pelo coro, pelo restante da congregação e pelos visitantes. Do lado de fora, o Regimento se prepara, as gaitas de foles soam à voz do comandante e o Black Watch faz o caminho de volta até sua sede.

Pelo caminho, centenas de turistas e canadenses acompanham o desfile. Celulares são sacados, sorrisos aparecem instantaneamente nos rostos e as crianças espicham os olhos, curiosas. Um grupo de chineses começa a dançar assim que ouve o som das gaitas de foles. Em dado momento, um grupo de antigos integrantes do Black Watch surge em uma calçada. São muito idosos, trazem o peito coberto de medalhas. O mais velho presta continência à passagem do batalhão. Os mais jovens marcham com os rostos virados em sua direção, cumprimentando-o também, os veteranos reconhecem o amigo e sorriem.

Meia hora depois, o batalhão entra na sua sede, construída em forma de castelo escocês. Do lado de fora, um mendigo carregado de mochilas, sacolas e colchões perfila-se. Bate continência e permanece, imóvel, até que o último soldado desaparece atrás do imenso portão.

The Black Watch

O nome do regimento (Guarda Negra, em português) é incerto, mas vários estudiosos o atribuem à cor do “kilt” que usavam e do trabalho de “guardar” as Highlands (Terras Altas), a zona montanhosa do norte da Escócia.

O lema original do regimento era Nemo me impune lacessit (Ninguém me ataca impunemente). Por designação da Coroa britânica, o “tartan” Real dos Stewart é vestido pelos gaiteiros e pelo tamborileiro do batalhão. O tartan, que originalmente significa “tecido de lã leve”, é um padrão quadriculado de estampas, composto de linhas diferentes e cores variadas. Há séculos ele indica os membros de cada um dos clãs escoceses.

No Canadá, o Black Watch é o mais antigo regimento highland. Voluntários têm servido desde o início do regimento em Montreal, em 31 de janeiro de 1862 como o 5º Batalhão. Tudo iniciou com a preocupação canadense em torno do aumento da força militar dos Estados Unidos durante a Guerra Civil norte-americana. O governo então autorizou a formação de regimentos de milícias civis.

Desde então, milhares de canadenses já serviram, como voluntários do Black Watch, em diversas ocasiões. Além de atuar como patrulheiros no serviço de segurança na fronteira canadense, lutaram na Guerra Boer, nas duas guerras mundiais e Guerra da Coréia. Também serviram nas operações da OTAN na Europa e entre as forças de paz da ONU em todo o mundo. Costumam, ainda, ser voluntários na ajuda a vítimas de desastres naturais no Canadá.

Russell “Sandy” Sanderson, sniper canadense

Durante a segunda guerra mundial, o Regimento se notabilizou pelos snipers cuja atuação foi decisiva nas vitórias aliadas. E perdeu vários de seus membros na malfadada batalha de Dieppe. No dia 19 de agosto de 1942, 6 mil soldados canadenses, ingleses e norte-americanos, desembarcaram no norte da França e foram dizimados pela aviação alemã. Seria o primeiro desembarque na Normandia. O fracasso militar custou a vida de 916 soldados canadenses.

Site The Black Watch Canada

Assista à gravação de um trecho do desfile de 7/5/2017 em Montreal 

Assista aqui ao vídeo da saída dos Black Watch da igreja de Saint-Andrew e Saint-Paul

Assista ao filme sobre os snipers do Black Watch Canadá na II Guerra Mundial

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