O dragão na garagem do sebastianismo

O ser humano é, antes de tudo, um carente. E o brasileiro não escapa à sina planetária. Quinhentos anos em busca de líder, guru, salvador, pai dos pobres, herói da nação. Imploramos constantemente por um super homem que nos salve das garras dos homens maus. Pode ser humorista, cangaceiro, macunaíma ou máquina de perpetrar sandices – o que importa é convencer a turba ignara de que é a salvação da lavoura. Às favas com a realidade: queremos mesmo é ilusão.

 Na vizinha Venezuela a fome grassa, o desabastecimento campeia, não há remédios e a população é assassinada sem piedade nas manifestações que tomam as ruas. Mas nada disso importa para os que insistem em defender o governo de Nicolás Maduro. Repetem o apoio outrora dado a Mao, Stalin, Castro, Vargas, Peron e outros que souberam enredar as almas sensíveis ao populismo. Um nível de alienação não muito distante do que vimos ontem, quando as redes sociais e as ruas foram tomadas pelo apoio cego a um ex-presidente acusado de crimes em cinco inquéritos e que iria simplesmente depor perante um juiz.

O que dizer dos que usaram o teclado para atacar vorazmente Sergio Moro? Como classificar as ameaças explícitas ao juiz se este ousar prender “o herói da Pátria”? No dia seguinte, a militância enxergou Lula como um “gigante” perante Moro. O mito do herói-Lula renasceu forte no terreiro do sebastianismo. Sem ele o tecido social brasileiro se esgarça, a democracia está ameaçada, a cidadania sitiada. Ele é o perseguido, a vítima injustiçada – um papel que desempenha com maestria. Os petistas? Comparam-se aos judeus na segunda guerra. Os opositores? Acusados de nazistas, claro (o clichê já anda meio gasto, mas permanece em voga). E segue o bonde da história brasileira, lotado de adjetivos fáceis, que não exigem reflexão.

Pior do que os homens simples arrastados para o comício pós-depoimento de ontem são os supostos esclarecidos que oferecem em sacrifício a capacidade de pensar. Estes entregam o ceticismo numa bandeja, docilmente abrem mão da reflexão mais básica e engolem a versão rocambolesca com alegria. Ignoram as contradições e os depoimentos que incriminam o ex-presidente, e não se incomodam em vê-lo atribuir à recém-falecida esposa a responsabilidade por vários ilícitos de que é acusado. Nada disso importa diante de Lula santificado portando uma cornucópia de socorro aos desfavorecidos. Essa imagem hipnótica abate amizades e corroi o bom senso. Resta a fúria que ruge.

No Brasil, usar as palavrinhas mágicas num palanque é catapulta para se tornar herói e garantir certificado de ética. Basta algum carismático pronunciar as expressões “combate às desigualdades”, “preocupação com os pobres” ou… a melhor de todas “estou defendendo os seus DIREITOS” e já está semi canonizado. Ah, o fetiche do direito tem efeito narcótico neste nosso povo-criança. Quer apoio? Fale em lutar por “direitos” que serão “perdidos” (o debate sobre o FGTS não me deixa mentir). De imediato a turba se une, sem exame prévio da proposta, sem qualquer reflexão. E Lula é mestre em se apresentar como defensor perpétuo dos direitos do brasileiro sofrido. Junte-se o seu enorme carisma à carência de nosso povo-menino e voilá: cenas de fanatismo que impressionariam os deuses da publicidade.

Busco explicações para tal comportamento. Acho-a em Carl Sagan num texto famoso: o dragão na garagem. Começa com a frase “Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem”. Opa, oportunidade única de descobrir que dragões existem! Mostre-me! – diz o interlocutor. O dono do dragão o leva até a garagem. O amigo vê uma escada, latas de tinta vazias, um triciclo, mas nada de dragão. Onde está o dragão? Oh, está ali. Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível. A partir de então, todas as tentativas de provar a existência física do dragão esbarram em desculpas. Não se pode espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas porque o dragão flutua no ar. E usar um sensor infravermelho para detectar o fogo? Ah, o fogo invisível do dragão não gera calor… E borrifar o dragão com tinta para tomá-lo visível? Boa idéia, mas o dragão é incorpóreo e a tinta não vai aderir. E, assim por diante, o dono do dragão se opõe a todo teste que seu interlocutor propõe, valendo-se de uma explicação especial. O que se exige é que se acredite no dragão invisível, que não se questione sua existência. O dragão não faz parte das preocupações do pensamento lógico-racional. Ele existe por crença, fé desassombrada e inabalável.

De minha parte, mantenho a mentalidade cética e aberta. Não rejeito nenhum hipótese, por mais fantasiosa que pareça – seja a da existência do dragão ou da inocência de Lula. Mas aguardo por evidências substanciais antes de abraçar a versão que atualmente é apenas mágica.

Ah, a mágica. Como bem lembra o texto de Sagan, para ela funcionar requer cooperação tácita entre o público e o mágico. Ou seja, abre-se mão do ceticismo. Para compreender a mágica e expor o truque é necessário que a platéia pare de colaborar. A adesão voluntária à crença cega é que dá o tom nesse mundo de ilusões.

A imagem de Lula como herói é o dragão na garagem. O ex-presidente permanece como prestidigitador chefe de um reino mágico cuja platéia não quer parar de colaborar.

2 comentários em “O dragão na garagem do sebastianismo

  • maio 12, 2017 em 12:52 pm
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    Belíssimo texto, apesar do terrível cenário que descreve.
    Senti sua falta no Facebook… Ao menos, é bom poder continuar lendo seus textos por aqui. 🙂
    Um abraço.

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