A arte de cuidar do jardim em meio ao caos

Cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin.

Voltaire. Candide

Setenta e duas horas em que sucessivos terremotos sacudiram o já chacolhado Brasil. Da hora em que ecoou a música do plantão da Globo anunciando o presidente grampeado até este exato momento, o país convulsiona em mais uma crise de proporções titânicas que se reinventa a cada hora. E as emoções dos brasileiros são como folhas arrastadas pela tempestade da política. Somos marionetes. A cada notícia, o coração dispara e aumenta a sensação de que o fundo do poço ainda está longe. Desesperança em toda parte.

O vazamento da delação de Joesley Batista mergulhou o País em nova e profunda crise moral. Com tristeza observo que de imediato surgem teorias da conspiração, uma histeria coletiva e, claro, as propostas precipitadas de sempre. E quase todas desrespeitam a Constituição Federal.

Há hoje no Brasil pessoas muito ingênuas, algumas bem inexperientes em política, que juram saber perfeitamente o que é melhor para a Nação. Suas ideias – se fossem levadas a sério – jogariam o Brasil no caos institucional. E ai de quem discordar de tais propostas estapafúrdias sobre golpes militares, derrubada do Congresso ou partir para a distópica destruição de qualquer traço do atual sistema político. Alternativa sólida ao modelo vigente? Não apresentam, pois as propostas rasas não se estendem aos dias seguintes à execução da idéia genial. Acham que tudo se resolve por mágica.

Os mesmos que gritavam ontem que “impeachment é golpe” hoje o defendem. Sem falar na ala cujo pensamento dúbio propõe que Temer não receba o mesmo tratamento que sua antecessora: um processo regular de impeachment, no qual poderá se defender. Estes acham que “impeachment demora muito”. E o que se vai fazer? Arrancar Temer do Planalto e guilhotiná-lo? Outros querem eleições diretas agora, ao arrepio do que diz a Constituição. Não se dão conta que servem a grupos diversos, interessados em surfar na onda da nova crise e  antecipar o pleito de 2018.

Irresponsabilidade, oportunismo e imaturidade tomam conta das redes sociais. Os jornalistas se tornam militantes e raramente checam as informações. Ou as distorcem deliberadamente. É um cenário de guerra, onde surgem denúncias gravíssimas – que podem derrubar o presidente da República – baseadas em provas não periciadas, delações homologadas em tempo recorde e um criminoso sendo liberado pela Procuradoria Geral da República para tomar champanhe em Nova York. Uma batalha campal de versões, reviravoltas e histórias mal contadas. Tempos em que crimes de lesa pátria são tratados à base de piadas e deboches.

Às primeiras notícias de que Temer “havia sido apanhado em um grampo”, minha reação imediata foi pensar que na véspera a economia havia dado os primeiros sinais positivos e que as reformas previdenciária e trabalhista estariam agora praticamente inviabilizadas. Uma pena: as reformas são parte importante para solucionar a crise. Aliás, no atual cenário brasileiro, só um presidente impopular e sem chance de concorrer à reeleição poderia fazê-las. Em geral, os políticos andam sitiados pela passionalidade que caracteriza o eleitorado nacional.

Sim, o ideal seria que todos os políticos indiciados pela Lava Jato deixassem a vida pública. Temer, Lula, Dilma, Aécio, Serra, Jucá, Renan e toda a longuíssima lista de suspeitos de corrupção. Sem exceção.  Os eleitos fariam um grande favor à Nação se renunciassem aos seus mandatos e os não eleitos se se mantivessem recolhidos. Após os respectivos julgamentos, se inocentados, poderiam pensar em retornar. Mas não estamos falando de Japão e sim de Brasil, onde criminosos juram inocência e são celebrados como super stars, com direito a torcida organizada. O ideal seria que uma simples suspeita de improbidade fosse suficiente para que os homens públicos se recolhessem, envergonhados.  Sinceramente, esperei que Temer tivesse um gesto de grandeza e renunciasse. Não aconteceu. Diante da realidade, quando prevalece o comportamento de “vou sangrar (e o país junto comigo) até o último segundo” resta-nos a nós, cidadãos que ainda cultivam a ética, defendermos o respeito às leis do país. O contrário é barbárie e sangue derramado.

Congresso e governo têm sua legitimidade baseada na Constituição brasileira. Se ninguém respeitar a Carta, é o definitivo mergulho na anarquia. Estaremos, então, na mesmíssima posição daqueles a quem criticamos: burlando a lei. E pensar que todo esse caos se resolveria com uma atitude e um gesto. A atitude: amar o país mais do que se ama a este ou aquele político. O gesto: o voto que expurga da vida pública todos os suspeitos de participação em crimes.

O Jardim

Após todas essas reflexões, a leitura dos jornais e as mensagens angustiadas dos amigos, um grande cansaço toma conta de mim. Faço como meu amigo Ricardo e abraço a frase final de Candide ao Dr. Pangloss, no “Cândido”, de Voltaire: “Bem observado, mas vamos cultivar nosso jardim”.

No momento, meu jardim de Montreal está florido. Aqui é primavera. Calma e risos enchem a cidade. Alexandre e eu pegamos nossos livros e caminhamos até o Parque Molson. Um vento gelado agita as árvores carregadas de folhas verdes, amarelas e cor-de-rosa. Pelo caminho, vejo tulipas e margaridas brotando da terra, gerânios nas janelas.

Ficamos ao sol como dois gatos preguiçosos. Eu lendo Neil Gaiman; ele, uma biografia de Virginia Woolf. As famílias chegam com cestas de picnic e guloseimas, crianças fazem bolhas de sabão e as moças estendem toalhas na grama para tomar sol. Um velhinho magrelo joga bocha sozinho. Camisa de gola alta, todo vestido de preto, atira as bolinhas pra lá e pra cá. Sorrio para ele, que nos convida a jogar. Estou com preguiça, mas Alex vai. Passa uma hora e meia jogando bocha. O velhinho, que se chama Marcel, sorri deliciado. Ensina a Alex a posição correta das mãos. Quando meu marido pega o jeito e começa a fazer pontos, Marcel exibe toda a sua habilidade: faz jogadas espetaculares, vira o jogo, exibe-se para mim e para os demais que estão no parque.

No banco, as crianças me elegem como parceira de brincadeiras. Uma loirinha de uns 4 anos, Sophie, faz bolhas de sabão que eu persigo perto do coreto e debaixo das árvores. Rimos. Ela resolve beber a água de sabão: digo que não pode. Ela ri alto e seus olhos muito azuis brilham, travessos. A mãe lhe dá suco e ela logo vai almoçar.

Volto ao Neil Gaiman, mas sinto um bafo à esquerda. Um cão enorme, marrom, está bem junto de mim, abanando a cauda. “Bonjour, Monsieur. Comment allez-vous?“. O dono vem correndo, mas relaxa ao me ver acariciando o canzarrão. Logo um garotinho quer subir no banco e brincar comigo. Usa um boné azul royal, que combina com seus olhos e com um sabre de luz a la Star Wars. Elogio seu “chapéu”. Ele corrige: é boné. Os pais chegam em seguida e pedem desculpas. Sorrio e digo que está tudo bem. Eles levam embora o pequeno Benoit. O boné tem a aba tão grande que ele tem de levantar muito a cabeça para enxergar o caminho. Acho isso engraçado.

Voltamos para casa, observando no caminho as pessoas que bebem café nas mesinhas instaladas em calçadas de bares e cafeterias. Colocamos as espreguiçadeiras na varanda, abrimos os livros de novo. Alex traz chá preto para nós e nos divertimos em contar quantas flores estreladas e claras nosso novo pé de jasmim produziu. Ou como é bela a luz do sol atravessando as folhas de bordo – o símbolo do Canadá. Há uma árvore de bordo bem na frente de nossa casa e suas folhas invadem a sacada alegremente.

Com os olhos postos na rua silenciosa, penso que o cenário atual brasileiro exige calma e reflexão. Uma mente asserenada para entender tudo o que está em jogo, quais os grandes interesses envolvidos, a que servem determinadas propostas. Montar o quebra-cabeças, enxergar além da neblina das emoções requer algo que não combina com o imediatismo, a pressa e a solução mágica. Sem mencionar a angústia tremenda que o quadro provoca e nos rouba as horas em família, a leveza dos dias e a tranquilidade de espírito. Cuidar do próprio jardim é preservar a alma dos embates externos, dos quais só vemos fragmentos.

Olho para o céu claro e me sinto imensamente feliz por apenas cuidar do meu jardim.

 

13 comentários em “A arte de cuidar do jardim em meio ao caos

  • maio 21, 2017 em 10:11 am
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    Eu estou velha e já vi o país mergulhado no vinagre a azedar o povo a vida toda. Por mim podem explodir tudo, mas não é isso que quer meu espirito. As flores que plantei no jardim do Brasil precisam ser regadas e cuidadas aqui, meus netos.

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    • maio 21, 2017 em 8:37 pm
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      :
      Maria Ermelinda, supimpa !
      Suas flores ( netos ), serão, sim, regados com a honestidade, a sinceridade e a alma do bem de sua avó !
      E abençoado seja seu espírito !

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  • maio 21, 2017 em 10:32 am
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    Que texto maravilhoso, Sônia!! Obrigada por nos brindar com suas palavras lúcidas e ensatas e por compartilhar a serenidade do seu jardim. Adorei passear por ele.
    Vou cuidar do meu…
    Abraço apertado e florido!

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  • maio 21, 2017 em 11:05 am
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    Obrigada,por eu fazer parte dos amigos.Fico tão emocionada ao ler seus textos .me coloco no seu lugar.Me vejo no texto,sinto até os perfumes das flores,(que amo)queria fazer algo pelo meu país…Já passamos (eu e minha familia)por muitas crises,e sobrevivemos,à custa de muito suor..Hoje estou desesperançada,olho p meus filhos(genro,noras,netos)( considero todos como filhos)e penso.O que será de nós? Coloco DEUS ,à frente,mas temos que fazer a nossa parte,mas ñ sei o quê fazer.

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  • maio 21, 2017 em 11:35 am
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    Obrigada por este momento de pura calma em meio ao caos! Estava com saudades da tua perspicácia e gentileza com a vida. Beijos brasileiros.

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  • maio 21, 2017 em 11:36 am
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    Difícil , muito difícil é no meio do caos recorrer às redes e não ter a luz do seu trabalho em meio ao furacão.
    Obrigado por esse lindíssimo faixo de luz em forma de texto…

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  • maio 21, 2017 em 11:39 am
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    Lindo texto, primavera no Canadá é muito linda mesmo… Que sorte você estar aí e ter o privilégio de cuidar do seu jardim, da sua vida… Enquanto isso, nós aqui, hein? Não há flor que resista, nem fazendo ioga… Se todo brasileiro pudesse migrar pro Canadá, nao haveria crise aqui, nao é verdade? Bom chá…

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  • maio 21, 2017 em 2:07 pm
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    Meu jardim! Se cuida! Lindo texto! Sim, temos que ter muito cuidado! MAs está difícil!

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  • maio 21, 2017 em 4:54 pm
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    Obrigada pelo texto, Sônia . Será perfeito na minha aula de amanhã. Tenho a certeza de que meus alunos amarão sentir as mesmas sensações que você. Brilhante construção!

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  • maio 21, 2017 em 8:23 pm
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    Por alguns minutos eu me desliguei das notícias tóxicas e do menu indigesto a q temos sido submetidos nos últimos tempos. Consegui me transportar através de seu texto até Montreal. Regue suas plantas e cuide de seu jardim. Seu anjo de guarda estava de plantão qdo levou vcs p outro país. Bjs. Obrigada.

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  • maio 21, 2017 em 8:40 pm
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    Sonia Zaguetto, como sempre nos sensibilizando às lágrimas e retocando a consciência da Vida.
    Saudades de vocês aqui no Brasil.
    RicK

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  • maio 22, 2017 em 3:01 pm
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    Sonia,mais um texto maravilhoso! Ponderado,com a voz da razão e os pés no chão no trecho em que se refere à política e aos últimos acontecimentos no Brasil. E,com leveza e delicadeza,nos convida à reflexão no jardim onde a vida e a alegria fluem docemente. Aos poucos você nos conduz para um cenário ameno e a serenidade nos invade. Fiquei emocionada. Obrigada pelo texto. Vou cuidar do jardim em meio ao caos e apesar dele.Um beijo.

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  • maio 22, 2017 em 7:47 pm
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    Fico feliz que voce esteja com tempo de cuidar do jardim em tempo de chegada de primavera. Muitas saudades e continue enviando noticias para a gente apteciadora de cha, gatos e dr pangloss..bjs

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