Marat

If you want to be like the folks on the hill

A working class hero is something to be

Lennon, John

Reflexão artístico-filosófica-histórica do dia sobre A morte de Marat, quadro de Jacques Louis David que está no Museu do Louvre. Jean-Paul Marat nasceu há 274 anos, no dia 24 de maio de 1743. Foi ele quem popularizou a expressão “inimigo do povo”, sucesso de público e crítica até hoje. Médico e jornalista radical, em seu jornal L ‘Ami du peuple (“O Amigo do Povo” – que outro nome poderia ter?) costumava defender a execução dos “inimigos do povo”, publicando-lhes os nomes para facilitar o justiçamento. Junto com Danton e Robespierre constituiu o triângulo “de ouro” da Revolução Francesa. 

Sob o calor da revolução e tendo Robespierre, o “incorruptível”, à frente, 17 mil pessoas foram guilhotinadas, outras 25 mil assassinadas sem julgamento, sem contar os mais de 100 mil mortos nas próprias casas e nos massacres e batalhas diversas. Um banho de sangue encharcou o solo da França. Liberté, Egalité, Fraternité só valiam para quem pensava igual aos revolucionários. Mas só por algum tempo. Logo veio a autofagia: Robespierre executou o moderado Danton, tocou o Terror (literalmente) e ele próprio terminou guilhotinado, quando ninguém mais aguentava tantas mortes.

O assassinato de Marat – esfaqueado numa banheira por Charlotte Corday – causou comoção na França. Jacques-Louis David organizou um funeral-ostentação e imortalizou o falecido neste belo quadro, dando uma boa retocada, já que Marat era bem feioso e tinha um problema dermatológico que só piorava o que a natureza havia feito. Seu coração foi embalsamado e posto numa urna no teto do Cordeliers. Os restos mortais foram transferidos para o Panthéon de Paris, ele foi declarado imortal e ganhou estátuas e bustos por toda a França. Cidades e ruas receberam seu nome. Até uma elegia, na qual era comparado a Jesus Cristo, confirmava seu papel de herói e mártir do povo: “Como Jesus, Marat amava ardentemente o povo e apenas ele. Como Jesus, Marat odiava reis, nobres, sacerdotes e vilões e, como Jesus, ele nunca parou de combater estas pestes da sociedade” (Comme Jésus, Marat aima ardemment le peuple et n’aima que lui. Comme Jésus, Marat détesta les rois, les nobles, les prêtres, les riches, les fripons et comme Jésus, il ne cessa de combattre ces pestes de la société).

Passados alguns anos, as estátuas foram destruídas (uma delas atirada no esgoto: “Eis aí teu pantheón”) e os restos mortais foram retirados do Pantheón, onde, aliás, permanecem cientistas, filósofos e artistas como Voltaire, Zola, Pierre e Marie Curie, Diderot, Victor Hugo, Fenelon e Descartes. O túmulo de Marat passou a ser no cemitério de Santa Genoveva e hoje está desaparecido, provavelmente coberto pelos edifícios da vizinhança.

Olho para esse quadro e penso muitas coisas. Eis quatro delas, sendo duas até bastante batidas:
1) passado o calor das paixões, a gente descobre que alguns heróis do povo são feios e apenas foram embelezados por algum talentoso (seja Jacques Louis David ou um marqueteiro moderno);
2) há razão no provérbio que nos alerta que se pode enganar todo mundo durante algum tempo e alguns durante muito tempo, mas não se pode enganar todo mundo durante todo o tempo;
3) de boas intenções, o inferno está cheio (isso considerando que as intenções são reais e não disfarces para interesses subterrâneos);
4) A estratégia do “nós contra eles” sempre termina igual às tragédias de Shakespeare, com quase todo mundo morto no final.

Dito isto, vou cuidar do meu jardim.

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