No limite entre a ordem e o caos

You got me in between the devil and the deep blue sea.

George Harrison

O dia surge carregado de nuvens cinzas. Uma chuva fina me impede de sair de casa. Ligo o computador e uma chusma de notícias pesadas invade meus olhos com histórias de corrupção, prisões e escândalos. Leio-as. É osso do ofício me manter informada. Seleciono poucas manchetes e fico apenas o mínimo necessário nas leituras chocantes.

Do outro lado do minúsculo apartamento em que vivemos, sinto que Tchekhov me chama. Olho para o livro e releio um de meus contos favoritos: “Um dia no campo (cenazinha)”. Há tanto amor ali e uma delicadeza capaz de renovar mundos.

Decido trabalhar no livro. Mergulho em cartas de meu avô, de onde emerge uma honradez inabalável, uma responsabilidade com a coisa pública e uma preocupação real em ser ativo participante na construção de um Brasil exemplar.

Nos intervalos de descanso, mensagens chegam e vão no WhatsApp e no Messenger. “Te amo, memus”, “Amiga, estou tão assustada com os rumos do Brasil”, “Saudade de você, meu bichinho”, “Mãe, estou estudando para a prova”.

Pausa para o café. Mais notícias escandalosas.

Às 18h, Beethoven. Um professor de música da Universidade McGill faz uma palestra antes do concerto e desvenda um pouco mais os segredos do genial Ludwig. Quatro jovens musicistas laureados tocam dois quartetos de cordas como se estivessem perseguidos por todas as fúrias do mundo . Há tal paixão na performance que o público aplaude de pé, hipnotizado.  Estamos na primeira fila e ouço quando o violinista respira alto, orientando os demais. A moça, fundadora do grupo, parece uma das musas gregas, imersa no mundo da música sublime. A viola rouca dialoga com os dois violinos e o violoncelo. Beethoven caminha no limite entre a ordem e o caos, sem jamais se perder. Um fio da corda do violino se rompe em meio à performance. Com um movimento rápido, num intervalo de segundos, o violinista a arranca. O último número é a Grande Fuga (assista aqui ao ensaio). Alexandre nem respira, vendo seu sonho se materializar.

Voltamos para casa correndo debaixo da chuva e fechamos a porta rindo da indecisa primavera canadense com temperatura de nove graus.

Vem o sábado, alguns breves momentos de Facebook e leitura dos jornais me mostram a repetição do caos: corrupção, prisões, escândalos, brigas, fanatismo, a orquestra sinfônica brasileira mendigando. Ok, já estou informada. No quintal, a vizinha canadense esnoba o frio, enfeita a cerca com pequenas lâmpadas e prepara tudo para um churrasco. “O verão está chegando!”, escuto os vizinhos comemorarem. Rio dos esquilos que fazem cabriolas pelas árvores.

Saímos. Assisto ao filme da Mulher Maravilha, perambulo por uma livraria e compro outros dois livros de Tchekhov.

Checo o celular e me deparo com mais um atentado em Londres. Meu coração se encolhe. Leio os jornais ingleses, os franceses, os brasileiros. Repercussão, ódio, comentários, caos.

Com a mão de ferro me comprimindo o peito, entro na sala Wilfrid-Pelletier, na Place des Arts. Ali, Mozart abre devagar as portas do paraíso na terra. “Amadeus”, o filme de Milos Forman, será exibido em uma tela gigante na sala de concertos cuja acústica é mais que perfeita. Enquanto o filme se desenvolve, as músicas são executadas ao vivo por uma orquestra e um coral magnífico. Não sei quem teve essa idéia, mas que sua memória seja bendita pelos séculos.

Amadeus é uma ficção, mas quem liga? É uma obra de arte dedicada a honrar a música de Wolfgang Mozart.  Indescritível ouvir Salieri comentando a Serenade for winds (ouça aqui) enquanto se vê e ouve os músicos ao vivo executando a peça. Alex aperta a minha mão durante os trechos das Bodas de Fígaro, minha ópera favorita. Aperto a mão dele quando Papageno surge na tela, pois A Flauta Mágica é a ópera favorita de meu marido. Sinto que estão gravadas para sempre as cenas finais, quando Mozart compõe o Requiem. O ator enumera os detalhes da composição ao mesmo tempo que o coral entoa os trechos do Rex Tremendae Majestatis e do Confutatis. Mozart é sepultado com a orquestra e o coral entoando a Lacrimosa numa performance memorável.

Os créditos sobem com o Concerto número 20. Impossível não entregar o coração à paz.

Acordei ouvindo pássaros cantando do lado de fora neste domingo radioso. Sol dourado, céu azul, as lembranças da véspera gravadas na memória.

Minha vida parece a música de Beethoven: flertando perigosamente com o caos, mas contida por mão segura. É preciso manter os pés na área em que, apesar da intensa paixão, ainda há ordem.

Um comentário em “No limite entre a ordem e o caos

  • junho 4, 2017 em 10:36 am
    Permalink

    Quanto a nós, país sul americano mergulhado em caos e incertezas sua expressão “a repetição do caos” é perfeita.
    Quanto à vida, essa dos esquilos, da maravilhosa sucessão de estações, das nuvens cinza e da chuva abençoada, dos pássaros acordando pela manhã, ah! O sol nasceu de novo. Bendita seja, maravilhosa vida.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *