Túlio e a árvore de bordo

Outras vezes ouço passar o vento. E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. (Caeiro)

Diante de minha janela há uma árvore de bordo. Durante o inverno, seus galhos secos e gelados estavam cobertos de neve. Pareciam mortos. Eu a vi renascer na primavera. Primeiro uns brotos verde-claros, seguidos de mini flores amarelas, folhas de cor púrpura e agora verdes. Está linda, no auge de sua vida. O tronco tem casca grossa, com ranhuras em verde e marrom. Dentro dele corre uma seiva grossa e doce. Fecho os olhos e passo os dedos nas folhas. Parecem mãos, com veias finas iguais às de minha mãe. Daqui a três meses virá o outono e elas se tornarão vermelhas. Cairão. De novo o inverno cobrirá de aparente morte a árvore de bordo. Na próxima primavera, quando o ciclo se renovar, já não estarei aqui. E a vida – do mundo e da árvore – vai seguir sem interrupções ou sobressaltos. Eu não sou importante, já diria Alberto Caeiro. Que bom!

A árvore  da janela – a maple tree típica do Canadá, cuja folha está na bandeira do país – canaliza minhas escolhas filosóficas: simplificar a existência ao máximo, não me julgar importante a ponto de achar que minha opinião é superior à dos outros; e ser grata por  qualquer migalha de vida que, se olhada bem de perto, se revela milagre e deslumbramento.

Esta semana, enquanto olhava para a árvore, o universo me sorriu uma vez mais. Dennys e Bárbara, via Facebook, apresentaram aos meus olhos curiosos um novo personagem: Túlio Mendhes. Inteligência rara, ironia fina, bom humor imbatível, Túlio é a materialização de minhas reflexões filosóficas.

Aos 29 anos, deficiente físico, Túlio Mendhes é portador de Síndrome de Fanconi (distúrbio eletrolítico) e Osteogênese Imperfeita (ossos de vidro). Tem uma deficiência metabólica com dor crônica, neuropática, e depende de oxigenoterapia 24 horas por dia. Atualmente está internado em sua casa, acompanhado por uma equipe multidisciplinar. Ou seja: pacote completo para mergulhar no vitimismo e na depressão. Não o Túlio, que a essa altura da vida já é graduado em administração de empresas, estuda Direito, trabalha como analista de recursos humanos, é colunista do G1 (o blog é o Mão na Roda)e tem vida social muito ativa. 

“Talento e paixão transbordantes? Praticamente um Toulouse-Lautrec”, decretei internamente. Percebi que ia amar o Tulio do mesmo jeitinho que amo o Lautrec: por ser alguém que não deixa o amargor prevalecer, por continuar a produzir (essa é a coluna dele no G1), mesmo que a vida seja árdua e as lutas imensas. Amei de imediato o Tulio porque recusa o papel de coitado e administra suas muitas dores sem que elas se tornem maiores que a diversão no Moulin Rouge da vida.

Juro que eu poderia aqui ficar contando mil posts engraçados ou reflexivos do Túlio, mas acho melhor mostrar 2 postagens dele (os títulos são meus). A primeira é engraçada, embora diga muito sobre a arte de viver. A última é uma bomba certeira que explode no colo de quem adora achar razões para reclamar dos milagres cotidianos. Ladies and gentlemen, Monsieur Tuliô de Toulouse-Lautrec y Alcântara-Mendhes:

POST 1: Não tenho culpa se você pensa pequeno

Meus amigos não me compreendem, mas são os melhores!

– Túlio, “cê” tem vontade de viajar pra fora?

– Queridão, se eu puder ir ali em Araguari comer a coxinha do bar Apolo, me considero realizado. Deixo alguns países pra o futuro.

– Cara… “cê” é ridículo! Até falando sério seu assunto é comida! Credo!

– Você que pensou em comida. Eu pensei um carro, janela aberta, som tocando “My Way” com Frank Sinatra, eu mascando um chiclete de canela e o velocímetro marcando no máximo 80km pra eu curtir o caminho. Ou seja, o faminto é você que visualizou só a melhor coxinha de Minas Gerais.

– Ah cara, vai morrer!

POST 2: Toma tento na vida, filho. 

Essa semana ouvi gente dizendo que odeia trabalhar, outro reclamou que detesta ir pra academia, a nora “rasgou” o verbo por ter que ir jantar na sogra, e agora acabei de aconselhar um querido amigo pra valorizar sua saúde, pois encontra-se no hospital por ter bebido absurdamente e está numa ressaca do cão e desidratado.

Pra alguns amigos eu tive a oportunidade de ser o “chato” e dar uns puxões de orelha. Pois quem odeia ir pra o trabalho, não imagina o quanto eu e milhares de pessoas sentimos saudades dos nossos empregos, nossas mesas, da cara feia do chefe, de reclamar que os quinze minutos de café não dá pra nada, das risadas, choros e estresse que nossas funções proporcionam. Sentimos saudades, pois estamos afastados por motivo de doença.

Meu amigo “frango” que reclama de ir pra academia, não para pra imaginar quantas pessoas que estão acamadas nesse minuto, desejando fazer uma caminhada ao ar livre, mesmo que a última.

As noras e genros que odeiam “reuniõezinhas” de família, precisam valorizar esses momentos, pois as UTI’s estão cheias de sogros, filhos, cunhados, primos, tios… cheias de um membro de uma família que deseja mais que tudo olhar pra cada parente de primeiro ou centésimo grau e dizer “obrigado por fazer parte da minha vida”.

Pra o meu amigo que acabou de falar comigo sobre o estado e o porquê ele está dentro de um pronto-atendimento, eu o mandei criar vergonha na cara e vir passar um dia aqui comigo, enclausurado dentro de casa por estar internado em domicílio, chamei ele pra observar o máximo de cuidado que preciso tomar simplesmente pra conseguir sentar por alguns minutos sem fraturar mais vértebras da coluna, quero que ele venha assistir os profissionais que trabalham comigo me dando banho de uma hora, pois cada movimento deve ter o máximo de cautela pra não me machucar.

Eu decidi escrever isso aqui, pra te pedir que valorize o que você tem. Seja grato, aproveite cada minuto do seu trabalho, ao lado de sua família “chata”, mas a melhor que você tem. Não posso te impedir de parar de beber, mas posso te pedir pra beber moderadamente, cuide de seu fígado, pulmões, zele cada movimento que seu corpo consegue fazer na academia ou fora dela. Pare de ser um “pé no saco” e ame sua vida, faça o seu melhor, reclame menos, faça mais.

Sim, eu estou bravo, principalmente porque o Fluminense está jogando nesse minuto e já começou fazendo caga#$%.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *