Diário da Crise 16/04/2016

bosch
Hieronymus Bosch.

Purgatório é uma casa de penhores, que empresta

sobre todas as virtudes, a juro alto e prazo curto.
Machado de Assis.

No fim da Idade Média, na França, eram comuns as bassin des âmes (bacias das almas)irmandades que angariavam fundos para financiar missas e ofertas em favor das almas do purgatório. Acreditava-se que era peculiar a situação dos que estavam no purgatório: contemplavam as delícias do céu, mas estavam submetidos às torturas do Inferno. Queriam ser alçados ao paraíso, mas, como já não viviam na Terra, não podiam fazer penitências ou oferendas que lhes expiassem os pecados. Só lhes restava a caridade dos vivos. Se estes fizessem ofertas, pagassem missas e fizessem sacrifícios em favor das almas do purgatório, ajudavam a elas e também a si mesmos, pois sua “piedade” seria levada em consideração após a morte. Em resumo, uma troca de favores. 

Bem verdade que todos sabiam que as almas do purgatório haviam sido relapsas enquanto viviam na Terra. Tivessem oferecido orações, jejuns e missas, teriam evitado a punição. Estavam em gravíssima situação e absolutamente dependentes da caridade alheia. O que se desse a esses mendigos espirituais, era recebido com gratidão . Por outro lado, quando o doador vislumbrava a possibilidade de morrer em breve e já não havia tempo para fazer jejuns e sacrifícios demorados, a solução era fazer caridade aos sofridos do purgatório. Por isso, a tradição popular consagrou a expressão bacia das almas como algo que se compra ou vende barato. Recorrer à bacia das almas passou a ser sinônimo de lançar mão de uma solução dramática, um último recurso, já que as melhores chances foram perdidas.

Estamos todos assistindo à moderna reedição da bacia das almas. Um governo – que perdeu oportunidades seguidas de fazer a interlocução com o Congresso, de administrar as finanças com sobriedade, de combater os malfeitos – lança-se sôfrego à bacia das almas dos deputados que desejam o Paraíso dos ministérios e demais cargos públicos. A morte política está próxima, as sombras já chegam e só lhe resta fazer a caridade interesseira, com o único objetivo de salvar-se do inferno da perda do poder. Então despe-se de tudo, inclusive do pejo, fazendo promessas, doando fartas moedas, distribuindo cargos e ajoelhando-se perante os que avidamente coletam suas oferendas de última hora.

Do outro lado do balcão deste grande comércio de consciências, as almas do Congresso se vendem por muito pouco. Não são espíritos acostumados a paradisíacas delícias – o alto clero parlamentar que, representado pelos grandes partidos, sempre teve cargos e recursos à farta. São almas de purgatório, desesperadas e tacanhas. Sempre contemplaram ao longe o paraíso das grandes pastas de ricas verbas e dos cargos destacados. Agora, pela primeira vez, são convidadas ao lauto banquete que as pode salvar das torturas dos orçamentos minguados e do poder decisório (um inferno para os políticos). Irresistível.

O que escapa ao moribundo governo federal é que, entre os que vivem no purgatório de Brasília há muitos que já alcançaram a sua cota para adentrar no Paraíso. Até porque o vice-presidente (acusado do pecado da conspiração) também tem doações significativas. Para essas almas desesperadas, o doador com mais recursos (votos) será o escolhido. E tal disposição pode ser traduzida com outra metáfora de morte, esta proferida por uma alma que está no paraíso desde o fim do período militar, um experiente peemedebista que domina o jogo duplo: “Iremos com a presidente até a porta do cemitério. Para o túmulo, ela vai sozinha”. Traduzindo para o dialeto da política, significa que, na votação de amanhã, tão logo se perceba que há votos suficientes para aprovar a admissibilidade da denúncia contra a presidente Dilma, haverá uma debandada de almas ansiosas pelas oferendas de Michel Temer.

Por outro lado, se o impeachment não for aprovado e o doador de recursos governamental escapar da morte, terá de sobreviver acoplado às almas pequenas que conquistou. Com essa minoria fisiológica compartilhará a festa de uma vitória de Pirro, conquistada a altíssimo custo. De qualquer forma, não haverá muito a celebrar.

Gloria victis. Glória aos derrotados.

 

Leia, abaixo, as principais notícias do dia, incluindo a grande negociação das almas:

A Bacia das almas 
1. O governo publicou ontem à noite uma edição extra do ‘Diário Oficial’ para nomear e exonerar mais de uma centena de cargos de comissão do governo federal em 18 ministérios. Saiba aqui quem foi nomeado ou exonerado.
2. Partidos de oposição apresentaram queixa-crime à Polícia Federal contra a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e governadores, que estão atuando para angariar votos favoráveis ao governo. PPS, DEM, PTB, PSDB e PSC acusam o governo de praticar corrupção ativa, corrupção passiva e desvio de finalidade. A denúncia será apresentada à PF porque a Procuradoria-Geral da República (PGR) não tem plantão no fim de semana. Leia aqui.
3. O vice-presidente Michel Temer voltou para Brasília, na véspera do julgamento do impeachment da presidente Dilma Rousseff. A decisão foi tomada ontem à noite , depois de o governo comemorar os resultados da ofensiva empreendida para tentar barrar o impedimento da petista. Às 12h deste sábado, Temer realiza uma reunião de trabalho no Palácio do Jaburu, residência oficial da vice-presidência, com o comando do PMDB e líderes dos aliados pelo impeachment. Leia mais.
4. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou hoje que deve continuar negociando com governadores e deputados neste sábado para conseguir votos contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Conquistar votos é uma guerra, parece a Bolsa de Valores, sobe e desce toda hora, então temos que ficar negociando o tempo todo”, explicou Lula. Saiba mais.
5. Na véspera da votação do impeachment no plenário da Câmara dos Deputados, a presidente Dilma Rousseff decidiu focar a ofensiva do governo federal para barrar o seu afastamento em deputados federais do Norte do Nordeste. Saiba mais.
6. A deputada federal Clarissa Garotinho (PR-RJ), que defende o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) e já havia declarado voto pelo impeachment, licenciou-se do cargo por 120 dias. Grávida de 35 semanas, apresentou atestado médico com pedido de licença maternidade a contar do último 12. Na prática, a decisão favorece o governo, já que o período de ausência por quatro meses não abre vaga para o suplente, que seria um parlamentar do DEM. Leia.
7. O vice-presidente da República, Michel Temer, afirmou por meio do Twitter ser “mentira rasteira” a acusação de que acabaria com o programa Bolsa Família. Ele fez ainda elogios à Operação Lava-Jato e defendeu a unificação e pacificação (Leia aqui). As mensagens de Temer foram divulgadas um dia depois da divulgação de vídeos da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em que denunciam usurpação de poder e classificam o impeachment como “aventura golpista” Leia aqui.
 8. O líder do PSDB, Antonio Imbassahy, emitiu uma nota sobre a abertura de créditos suplementares por Dilma Rousseff, no valor de 76,4 milhōes de reais, noticiada pelo blog O Antagonista. O dinheiro foi transferido da Segurança Pública e do IBGE para a propaganda da Presidência da República.
9. PT negocia apoio nas eleições municipais em troca de voto contra impeachment. Leia.
Votação do impeachment 
1. O Placar do Impeachment do Estadão registra 347 votos a favor do afastamento da presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados. Pela manhã, o número chegou a cair para 343. Há, ainda, 133 contrários, 10 indecisos e 21 que não quiseram responder.
2. Eduardo Cunha descarta adiar votação do impeachment. Leia aqui.

O dia seguinte

1. O PT e o governo planejam fazer uma grande campanha nacional de coleta de assinaturas em apoio a uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) caso o Congresso aprove o impeachment da presidente Dilma Rousseff. A ideia, que até agora era cogitada apenas em conversas reservadas, passou a ser defendida abertamente pelos estrategistas próximos a Dilma. Leia.

2. João Pedro Stédile, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra fez um duro discurso contra o processo de impeachment e propôs uma greve geral no País antes de o impeachment ser votado no Senado, caso ele passe pela Câmara no próximo domingo. Leia.

3. José Padilha vai gravar série sobre investigações da Lava Jato para o Netflix. A empresa americana anunciou início das gravações no Brasil do novo seriado, ainda sem nome, que tratará da corrupção no país. Leia aqui.

Eduardo Cunha
1. Em delação premiada à Procuradoria-Geral da República, na Operação Lava Jato, o empresário Ricardo Pernambuco Júnior, da Carioca Engenharia, entregou aos investigadores uma tabela que aponta 22 depósitos somando US$ 4.680.297,05 em propinas supostamente pagas ao presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) entre 10 de agosto de 2011 e 19 de setembro de 2014.Em depoimento à Procuradoria-Geral da República, na Operação Lava Jato, o empresário Ricardo Pernambuco Junior, um dos delatores da Operação Lava Jato, contou à força-tarefa da Operação Lava Jato, que o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), reclamou de atraso no pagamento de propina. Pernambuco Júnior apontou pagamento de US$ 4,6 milhões ao deputado entre 2011 e 2014, sob contratos de obras relacionadas ao Porto Maravilha, no Rio. Leia.

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