A boa fé do cidadão

Já dizia o bom e velho Aristóteles: a virtude é uma disposição interna para agir corretamente e que o cidadão aprimora pelo hábito. Demorou alguns séculos para que os gregos antigos aperfeiçoassem o conceito de areté, que traduzia a noção de excelência no cumprimento do papel que cada indivíduo ou coisa tinha na sociedade. Os filósofos participaram dessa evolução.

Faltam filósofos no Brasil. Não os tivemos jamais. Nos dias atuais, então, em que filósofo de verdade é artigo raro no planeta todo, no máximo caminham entre nós uns aspirantes a guru, arremedos de pensadores, incapazes de ocultar a vaidade e a sede de curtidas no Facebook. Alguém que viva e pregue a virtude como algo a que todos os cidadãos deveriam aspirar? Não temos. Na ausência deste personagem ideal, o jeito é assumirmos conjuntamente a tarefa de corrigir nossas mazelas. Ou nos valer dos filósofos antigos. Estes nos aconselhariam a lutar para mudar o ethos, o caráter moral de nossa gente. Substituir por nobreza, espírito de justiça, integridade, honradez, probidade e retidão o lugar que hoje é ocupado pelo jeitinho onipresente, pela desonestidade como meio de vida, pela malandragem entronizada como prática aceitável e pela tendência a levar vantagem indevidamente.

Iniciar uma nova era no país começa em nós – isso já foi dito tantas vezes. Todo o cenário atual é consequência do nosso caráter como povo – isso também é óbvio. Os políticos corruptos são espelho de nossa alma brasileira, capaz de trocar votos por dentaduras ou vender a consciência diante de malas recheadas de dinheiro. Não, a culpa não é só dos políticos, mas de quem os elegeu, reelegeu e continua a apoiá-los, mesmo quando praticam crimes e a justiça os alcança.

Hoje, uma larga parte da nossa gente, inculta e mal-educada, nutre-se de telenovelas e programas de auditório deploráveis, cultua youtubers, aplaude criminosos, permite-se fazer comentários tenebrosos nos sites de notícias e nas redes sociais. Em todas as classes sociais, os ídolos são atores e cantores medíocres, os interesses são rasos, a leitura capenga. As frases de efeito e memes alimentam a manada cujo discernimento se perde. Nas universidades, o cenário é igualmente patético, com uma geração cada vez menos afeita a sacrifícios na busca pelo conhecimento. Diálogo, respeito? São coisa de velho.

Moderação e autocontrole também se tornaram fora de moda. A tendência é dizer as “verdades” da forma mais grosseira possível. Se possível acompanhada de palavrões. Só um passo a mais em direção à barbárie que vem engolindo o país.

No meio desse caos, uma notícia passou despercebida: desde o dia 18 de julho passado, nenhum órgão público pode exigir dos cidadãos documentos autenticados, reconhecimento de firma  e cópia de um comprovante que já esteja na base de dados de outro órgão de governo (leia aqui a íntegra). Ou seja, no país agora vale o princípio da boa fé do cidadão brasileiro.

A nova regra determina que se um órgão exige, por exemplo, o comprovante da última votação, que está no TSE; uma certidão de quitação de tributos, que está na Receita Federal; ou cópia da Carteira de Habilitação  que está na base do Denatran e o cidadão não tem à mão o documento, basta fazer uma declaração de próprio punho no local e entregar. A obrigação de buscar o documento, caso realmente seja necessário, agora é obrigação do órgão solicitante.⁠

Se você comemorou a informação acima porque está aliviado pela desburocratização de processos e porque vai economizar dinheiro e tempo na fila, parabéns, mas perceba que você ainda está olhando para o próprio umbigo. O mais importante neste decreto praticamente ignorado pela imprensa nacional é a restauração da confiança no cidadão brasileiro.

Resta-nos abraçar a oportunidade e não sufocá-la, como temos feito com a maioria das boas coisas no nosso país. Coragem: a virtude é uma disposição interna para agir corretamente e que o cidadão aprimora pelo hábito.

2 comentários em “A boa fé do cidadão

  • agosto 2, 2017 em 7:02 am
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    Sonia, gostei muito, como de seus textos. Apenas arriscaria a dizer que a direção pode ser inversa, ou seja, o exemplo vem de cima. E uma outra observação: quando se permite aceitar a palavra do cidadão, é preciso uma punição pesado se não for respeitada a expectativa de confiança em seus atos e palavras. Há países em que o perjúrio é coisa séria.
    Abraço.
    Zeca

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