Diário da Crise – 18/04/2016

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Futebol em Brodósqui. Cândido Portinari.

Neste momento, o mundo todo está de olho no fabuloso escrete brasileiro. A toda hora e em toda a parte, há quem chegue e rosne ao nosso ouvido: — “Ofereceram tanto por fulano, tanto por cicrano, tanto por beltrano!”

Nelson Rodrigues. O escrete é nosso.

 

Somos de fato o país do futebol. Se havia alguma dúvida sobre isso, dissipou-se ontem – um  dos dias mais importantes de nossa história recente – quando o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de  impeachment da presidente Dilma RousseffA votação da matéria, cuja análise agora cabe ao Senado e pode levar à saída da presidente, me fez evocar Nelson Rodrigues em várias ocasiões. A primeira delas e inspiradora dessa crônica é “Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro“. Sim, Nelson, nem a gravidade da situação e a solenidade da ocasião impediram que a nossa inegável vocação futebolística se impusesse. No futuro isso será estudado entre o espanto e a perplexidade – estou certa disso.

Com esse espírito rodrigueano, sigamos na história.

Precedida por negociações que leiloaram a Esplanada dos Ministérios e os principais postos das estatais, a sessão da Câmara dos Deputados fez jus aos melhores momentos do futebol: tumultuada, marcada por discursos nonsense, palavrões, nervos à flor da pele, traições de presumidos aliados (leia), acusações, blefes e malandragens.

A população – supostamente a maior interessada – foi mantida à distância profilática. Andava agitada e oferecia perigo à segurança dos jogadores, já que o clima de rivalidade havia sido cuidadosamente insuflado e nutrido pelos clubes e pelas torcidas organizadas. Em plena efervescência do jogo (perdão, da sessão), os melhores lugares da arquibancada foram vetados: o espelho d’água e o gramado do Congresso, assim como a Praça dos Três Poderes, estavam vazios, ocos de gente, silenciosos como cemitérios. Mantidos ao longe por grades e forte esquema policial, os manifestantes contra e a favor do governo se revezavam entre cantorias, bandeiras e palavras de ordem. Separados entre si por um emblemático muro de metal, sequer se enxergavam ou ouviam, na mais evidente prova de que somos um país despreparado para o exercício da democracia que os dois lados acreditavam defender; e que ainda não assimilou a atitude básica de ouvir a opinião alheia sem recorrer ao tacape. Distraídos pelos imensos telões, camisas coloridas, balões e clima de festa, os brasileiros comemoravam cada voto como gol. Torcida fanática e uniformizada, com hinos de guerra. Ao final, confirmaram outra definição de Nelson Rodrigues: a pátria em chuteiras. Os “derrotados”  saíram cabisbaixos, carregando suas bandeiras e enxugando as lágrimas. Do outro lado do muro, havia choro de pura alegria, danças e festas de final de campeonato.

De cada lado do estádio, a sessão era acompanhada separadamente pela presidente Dilma e pelo vice-presidente Michel Temer e conduzida com gélida calma pelo árbitro da partida, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Este, acusado de ser parcial e corrupto, sofreu duros ataques e prometeu recorrer aos tribunais.

A surpresa do jogo foi a sessão de votação ter exposto ao País as mazelas do Parlamento Nacional: jamais a torcida esperara  100% de elegância da equipe parlamentar, mas na hora do jogo descobriu que uma esmagadora parte do time fora encontrada em cavernas pré-colombianas e era mais adequada à terceira divisão. Entre cusparadas, tentativas de homicídio da flor do Lácio e inimagináveis defesas de gente que deveria ser esquecida pela história, os jogadores abusaram de gritos estridentes e gestos destemperados, surpreendendo até os torcedores mais experimentados no vale-tudo dos estádios. Felizmente, não foi a totalidade do time que se comportou assim. Ou talvez a torcida desistisse de vez.

A sessão da Câmara foi além: deu aulas de como se dividem as forças dentro da Câmara Federal. Aprenderam os torcedores que a votação a favor do impeachment de Dilma foi reforçada pela chamada “bancada BBB”: do boi, da Bíblia e da bala, que reúne membros dos blocos ruralista, evangélico e da segurança pública e cuja força supera a de muitos partidos (Leia); e que quando um partido “fecha questão” sobre um assunto, os parlamentares que desobedecerem estão sujeitos a punições, como acontece com o PP, que começou hoje mesmo a punir os parlamentares que contrariaram a decisão pró-impeachment (leia mais) e o PDT, que não esperou a poeira baixar e já iniciou o processo de expulsão de deputados que votaram pelo afastamento (leia). Sim, caros torcedores: há regras, mesmo que tudo pareça futebol de várzea.

E não foi só a torcida auriverde que foi surpreendida pelos parlamentares. O experiente ex-presidente Lula – treinador informal dos Governistas – ficou boquiaberto ao tomar um drible de um novato que pela primeira vez usava o microfone do plenário da Câmara: Tiririca. Com a frase “Senhor presidente, pelo meu país, meu voto é sim”, o humorista e deputado fez Lula saltar da cadeira em que assistia à sessão numa das salas de reunião do Palácio da Alvorada. Voltou-se para a presidente Dilma e declarou, incrédulo, que havia recebido Tiririca na manhã de domingo, no quarto do hotel Golden Tulip, em Brasília: “Ele ia votar com a gente!”, repetiu Lula (leia aqui). Dilma balançou a cabeça, conformada com o gol. Sim, Lula, o futebol é mesmo uma caixinha de surpresas.

Após a decisão dos deputados – comemorada pelos jogadores com o herói do 342º gol sendo carregado em triunfo antes mesmo que a partida acabasse -, o governo reagiu por intermédio do advogado geral da União, José Eduardo Cardozo, que desdenhou a decisão da Câmara, classificando-a de “meramente política” (leia aqui). Tarde demais, as habilidades de Michel Temer como técnico e cartola superaram as da equipe do governo. Cardozo anda inclinado a apelar no tapetão.

A próxima partida é no Senado

O presidente do Senado, Renan Calheiros, recebeu hoje o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, autorizado pela Câmara. A papelada do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff chegou, na tarde dessa segunda-feira ao Senado Federal.  Trazidas por um carrinho, as quase 30 pastas de documentos reúnem as informações de toda a tramitação do processo na Câmara. Saiba mais.

As regras do jogo

O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Senado vão elaborar, em conjunto, um roteiro para a tramitação do processo do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff a partir de agora, no Senado. Leia mais.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, ressaltou que é preciso ter “cautela” e que o trâmite do processo de impeachment na Casa deve seguir estritamente o que prevê o regimento para se evitar a judicialização por parte do governo. A previsão dos senadores, colocada na ponta do lápis na reunião, é de que a votação do processo de impeachment, no plenário do Senado, ocorra apenas no dia 21 de setembro. Leia aqui.

Choro dos vencidos e estratégias futuras

Deputados aliados da presidente Dilma Rousseff disseram hoje que o governo conta com a pressão popular para o Senado barrar o processo de impedimento e que a instabilidade política do país irá continuar. Os parlamentares estiveram com a presidente no Palácio do Planalto e relataram que Dilma está firme e “animada”. Saiba mais.

A presidente Dilma deu entrevista hoje à tarde, dizendo-se injustiçada (Leia). Ela passou a manhã em seu gabinete no Palácio do Planalto ao lado de auxiliares diretos como os ministros Jaques Wagner e Ricardo Berzoini, avaliando os resultados da votação de domingo e definindo estratégias para tentar reverter o quadro no Senado. O sentimento de decepção e repúdio às traições permaneciam e foram a maior queixa em relação ao PMDB que deu apenas seis votos contra o impeachment da presidente Dilma. Este resultado considerado “inacreditável” deixou claro para o núcleo do Planalto que cometeu um “erro grave” de manter o PMDB nos ministérios e concentrar energias na negociação com o partido, que já havia debandado. Aqui.

Outros times

Integrantes da força-tarefa da Lava Jato minimizaram o risco da provável substituição da presidente Dilma Rousseff pelo vice Michel Temer possa prejudicar as investigações em curso. Leia.

Marina Silva divulgou uma nota defendendo a aprovação da admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff pela Câmara. Ela também criticou o vice-presidente, Michel Temer e disse aguardar o julgamento do TSE que pode anular a chapa vencedora na eleição de 2014. Assim, Temer não assumiria o cargo e seriam convocadas novas eleições. Leia aqui.

O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, disse que não se constrange com os ataques que recebeu na sessão de domingo da Câmara dos Deputados, mas avisou que analisa apresentar queixa-crime contra aqueles que se excederam e o atacaram. Leia.

Laudo mostra pagamento a Lula lançado em contabilidade usada pela Andrade Gutierrez para dar propina. Aqui.

Campeonato 2017

Temer reúne-se com ex-aliados do Planalto. Leia aqui.

A bancada do PSDB do Senado pretende apresentar a Michel Temer um conjunto de “princípios e medidas” que o partido considera essencial para dar apoio no Congresso a um possível governo do peemedebista. O texto não trata da possibilidade de o PSDB ter cargos no futuro governo, mas dá indicação das condições impostas para dar governabilidade ao hoje vice-presidente. Entre elas estão a garantia de continuidade das investigações da Operação Lava Jato, a manutenção dos programas sociais (especificamente o Bolsa Família), a diminuição do número de ministérios e o ajuste na Previdência pública. O documento sugere que, tão logo assuma a Presidência, Temer apresente, “em até 30 dias, um conjunto de medidas para recuperar o equilíbrio das contas publicas” e trabalhe para simplificar o sistema tributário, “unificando tributos e promovendo uma distribuição mais justa da carga tributária”. Os tucanos também falam da defesa da reforma política, da revisão de “subsídios fiscais para fomentar o crescimento”, do “combate rigoroso à inflação” para “preservar o poder de compra dos mais pobres” e da maior integração do Brasil com o mundo. Saiba mais na Folha de São Paulo.

Sim, Nelson Rodrigues, o brasileiro é um feriado.

 

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