Panem et circenses

Jean-leon-Gerome-Circus-Maximus
Jean-Léon Gérôme. Circus Maximus.

O pior analfabeto é o analfabeto político. Bertolt Brecht.

Os romanos, que antes eram tão poderosos, tornaram-se
escravos de prazeres corruptores e só precisam de pão e circo. Juvenal.

 

Governos moribundos costumam deixar um travo amargo na boca da coletividade – seja dos protagonistas, dos antagonistas ou da população que a tudo assiste. Não é diferente agora, no Brasil. A longa agonia do governo Dilma minou as almas, espalhando cansaço e uma sensação de ressaca moral após os longos embates, com manobras, sustos diários, reviravoltas espetaculares, decepções e vitórias. Mas, embutida no traumático processo, surgiu pelo menos uma boa notícia: a consciência de que é chegada a hora da população brasileira conhecer e participar mais ativamente da vida política.
O mais recente capítulo da saga brasileira – a votação do impeachment na Câmara – já pode ser chamado de O Grande Dia do Abatimento. As redes sociais ferveram, entre agressões, desinformação, piadas constrangidas e uma indisfarçável surpresa perante a realidade do Congresso desnudado. Quem haveria de contar com tal demonstração de hipocrisia, demagogia, agressões, cinismo e despreparo?
Oh,  ingenuidade! Se você é um desses perplexos, seja bem vindo à realidade do seu país. Mas não culpe os deputados. Faça o  necessário mea culpa. Admita que este estado de coisas é fruto única e exclusivamente de dois fatores: do voto dos brasileiros e de seu desinteresse pelo que acontece em Brasília nos quatro anos seguintes às eleições. Vamos lá, coragem: nada de apelar para soluções fáceis e responsabilizar apenas os “tolos que votam com a barriga”. Busque pela memória e responda a série de perguntas a seguir: em quem você votou para deputado federal nas últimas eleições? Por que escolheu tal candidato? Informou-se sobre suas ideias? Acompanha sua carreira política? Quantas vezes você entrou no site da Câmara dos Deputados para checar o que anda fazendo aquele que você colocou no Congresso para lhe representar? Repito aqui a pergunta que elegeu Tiririca: você tem alguma ideia do que faz um deputado federal? Tem noção de como funciona o Congresso Nacional ou quais os papéis da Câmara e do Senado? Acompanhou alguma votação? Conhece pelo menos algumas das matérias que tramitam e que afetarão diretamente a sua vida?
Apesar da sua surpresa, nada disso é novo. Quer uma prova de que as coisas pouco mudaram desde o impeachment de Fernando Collor? Assista aqui ao vídeo dos últimos seis votos quando a Câmara autorizou a abertura de processo contra Collor. Há 24 anos já havia gente citando a família e a cidade natal, com direito a festança no Plenário.
Sim, agora você está entendendo a razão do susto. A maioria dos milhões de eleitores entregou um cheque em branco nas mãos de 513 pessoas e em seguida esqueceu o assunto. Quem apareceu depois para conferir como o cheque foi preenchido?  Vou além: muitos entregaram os tais cheques em branco a pessoas que sequer conheciam. O resultado só poderia ser o que assistimos no domingo.
Os deputados folclóricos, despreparados, patéticos, que berram como harpias e estouram bombas de confete no plenário não chegaram por acaso a Brasília. São os mesmos que, durante o horário eleitoral gratuito, geraram gargalhadas e fizeram a festa nas redes sociais. Ali, eles já se mostraram como são, mas alguém os elegeu. A troco de quê? De supostos votos de protesto? De notas de R$ 50,00 grampeadas em “santinhos” de campanha? Promessas de emprego? Óculos? Ou porque são famosos/engraçados/falastrões? A resposta a essas perguntas retrata com precisão uma Nação que se acostumou às superficialidades e a um total descompromisso consigo mesma.

Não é raro que uma boa parte da população escolha seus representantes às vésperas da eleição, por indicação de amigos ou parentes, sem mencionar as trocas espúrias. Por isso, a qualquer um acostumado à rotina da Câmara, não causou qualquer surpresa o que ocorreu neste domingo. Os parlamentares agem da mesma forma diariamente. Representam perfeitamente o eleitorado, que deles costuma cobrar não a postura ética e o trabalho, mas a retribuição do voto sob a forma de favores, como indicações para cargos públicos, dinheiro, passagens aéreas e benefícios outros.

E o que dizer de nosso quase absoluto desconhecimento diante do atual sistema político-eleitoral? Um mecanismo draconiano e injusto, que torna os partidos praticamente donos do mandato dos deputados, inclusive permitindo a expulsão da legenda se o parlamentar contrariar aspectos específicos do credo partidário e votar de acordo com a sua consciência. E que tal ser informado de que apenas 36 deputados foram eleitos por seus próprios votos e os demais “devem” a vaga às respectivas coligações e partidos, embora muitos tenham obtido votações expressivas? Sim,  é que entre o eleitor e o resultado final há os quocientes eleitoral e partidário, que dão grande peso à soma dos votos obtidos pelos partidos e coligações, ao mesmo tempo que fazem com que os campeões de voto arrastem para a Câmara um grupo de deputados com desempenho eleitoral medíocre, enquanto deixam de fora alguns candidatos com quantidade de votos bem superior.  As consequências desse flagrante desrespeito à vontade do eleitor são duas: a primeira é a ascensão ao Parlamento de algumas pessoas que não teriam sido eleitas se o sistema fosse outro. A segunda é que isso faz com que os mandatos de 477 dos 513 deputados brasileiros, na verdade, pertençam aos partidos e não aos parlamentares, o que limita o livre arbítrio na hora da votação. Somando-se isto à questão da fidelidade partidária, forma-se um quadro em que tanto o deputado como seu eleitor – que teoricamente deveria ser o dono do mandato e o concedeu, via voto, ao parlamentar – são prejudicados em seus interesses. Evidência recente de tal situação foi o constrangimento manifestado por alguns deputados, obrigados a obedecer à orientação dos respectivos partidos na votação do impeachment de Dilma.

Há 2.400 anos, Aristóteles definiu que o homem é um animal político na medida em que se realiza em plenitude no âmbito da pólis – sua cidade ou comunidade. Transpondo a ideia para os dias atuais – nos quais todos os cidadãos tem direitos iguais e amplo acesso aos meios de comunicação – deveríamos estar cada vez mais envolvidos com as grandes questões da República. Mas, ao contrário, constatamos no País a mais profunda ignorância sobre aspectos básicos da política nacional.

Seria a nossa inequívoca vocação de pândegos que nos impede de levar a sério a política? Ou talvez a alma macunaímica que se instalou em nosso DNA e nos encharca de uma preguiça imobilizante? Ou quem sabe seja algo mais antigo, como panem et circenses (pão e circo), um clássico diversionista que na Antiguidade romana mantinha a plebe longe das decisões políticas, entretida com jogos sangrentos e uma pequena quantidade de trigo. A bem da verdade, hoje, os governos já nem precisam se preocupar com isso: escolhemos voluntariamente a ignorância. Quem se disporia a deixar séries de TV, Facebook, WhatsApp e páginas de amenidades a fim de gastar horas inteiras a ouvir sessões, ler as peças de acusação e defesa de um processo de impeachment e acompanhar reuniões do Supremo Tribunal Federal?
Ao longo da história não faltam teses a nos alertar sobre a nossa adesão espontânea ao pão e ao circo. Desde o século I, com romano Juvenal, em suas Sátiras, ao contemporâneo liberal Mário Vargas Llosa, com o seu recente livro A Civilização do Espetáculo, passando pelo francês Guy Debord, com a A Sociedade do Espetáculo, que se inspirou nos Manuscritos econômicos e filosóficos, de Karl Marx. Em todos estes autores, distanciados cronológica e ideologicamente, o ponto em comum é a alienação resultante da desmedida fixação por alguma mercadoria que, ao atingir status de grande importância na vida dos consumidores, substitui, como centro de interesse, qualquer outro assunto de ordem intelectual, política ou cultural.
Se há algo a comemorarmos nessa crise é que ela nos informa que deveríamos pôr um fim na nossa infância política. Assim como na economia e na vida, não há almoço grátis também na aquisição de consciência cidadã. É chegada a hora de partir para a vida adulta, que exige leitura (muita), reflexão e tempo dedicado ao aprendizado. É inadiável acompanhar (mesmo que uma vez por semana) o que acontece no Congresso, assistir aos telejornais, ler jornais variados, análises de especialistas, documentos e livros; comparar as diversas visões; e refletir sobre o conjunto recebido. Tudo isso vai agregar valor à sua visão política ao entrar no lugar daqueles memes engraçadinhos que seus amigos compartilham nas redes sociais e você toma como verdade absoluta. Aliás, cheque, também, as fontes do que compartilha: há gente que acredita na ressurreição de Ulysses Guimarães só porque leu isso em algum lugar nas catacumbas da Internet. Desconfiar, questionar e checar a origem e as intenções de quem publica informações na web é obrigatório: não acredite em algo simplesmente porque o governo ou a oposição afirmaram.
E já que falamos em tempos de maturidade, que tal ter alguma atenção à sua forma de manifestação? O brasileiro padece de carência de polidez. Esta, aliada à ignorância sobre o funcionamento das instituições, está na gênese do ódio que incendeia o País e choca a todos nós.  Ao emitir uma opinião sobre política, há uma grande parcela que opta por apelidos, palavrões e epítetos diversos – são reações próprias de crianças contrariadas que, na ausência de argumentos, apelam para o xingamento fácil. Outro forte indício de que sequer ultrapassamos os limites da puberdade, quando se trata de avaliação política, é a forma tradicional de desabafo que muitos eleitores se permitem quando se deparam com a realidade do Congresso: “Vamos explodir Brasília! Todos são ladrões!”.  A estes, vale a pena relembrar que o Congresso é o espelho de nossa sociedade. Temos uma deputada funkeira, vários delegados que receberam extraordinária votação, pastores evangélicos, esposas de pastores evangélicos, empresários riquíssimos e um palhaço. Também temos advogados constitucionalistas, economistas experientes, gente com mestrado e doutorado, além de alguns que se mantém longe dos holofotes mas parecem interessados na construção de um país melhor. Generalizar é perigoso. Repito: não foi a fada do dente que preencheu as 513 vagas da Câmara e as 81 do Senado. Fomos eu, você e toda a população votante do País, com a ajuda do sistema proporcional que rege as eleições.
Assim, se o deputado Zé das Couves lhe envergonhou, que isso lhe sirva de lição. Vote melhor nas eleições e siga de perto a pessoa que recebeu seu cheque em branco. E da próxima vez que surgir o tema Reforma Política na pauta do Congresso, pressione os deputados para que mudem vários itens do sistema atual.  Melhor: exija de seu candidato a deputado federal ou senador que ele se comprometa com essa mudança. Isso é participação política e constitui a essência da cidadania: use sem moderação.

 

 

 

2 comentários em “Panem et circenses

  • abril 20, 2016 em 3:47 pm
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    Excelente, mais uma vez, ! Para sairmos da inércia política e golpearmos de vez a preguiça mental, e hábitos ,de quem entrega a outros a tarefa de decisões tão importantes !

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  • abril 20, 2016 em 4:16 pm
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    Sonia Zaghetto, impecável artigo, um puxão de orelha em cada um de nós; a constatação envergonhada do já sabido e insistentemente oculto, acobertado pela omissão ( … prefiro acreditar nisso à total ignorancia política e descaso com a Pátria ) do já desacreditado povo, tão quanto dos nossos políticos.
    Urge a maturidade do nosso Povo.

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