A ressurreição do Brasil Colônia

Este é um post para você, estudante da Universidade de Brasília que luta por um Brasil melhor e frequenta os bares da capital do País. Mas também serve para todos os jovens guerreiros da justiça social que proliferam nas cidades brasileiras e adotam postura semelhante. Leia até o final, pois o último parágrafo é a azeitona dessa empada que lhe oferto.

Desculpe o mau humor, mas é que hoje abri o Facebook e me deparei com posts de amigos do RJ, de SP e de Belém reclamando de sujeira nas ruas, feitas por jovens estudantes cuja noção de cidadania se restringe a “lacrações”, atos espetaculares, frases de efeito, memes e outros quetais. Foi inevitável: ao ler os posts lembrei imediatamente da minha quadra em Brasília, a 408 Norte, aquela que todas as quintas-feiras à noite recebe centenas de estudantes: você e seus amigos.

Para piorar minhas tristes lembranças, hoje moro em Montreal. No meu bairro há muitos barezinhos que colocam mesas e cadeiras nas calçadas. Mas no final do dia, veja que interessante, dá para caminhar entre canteiros floridos, ruas impecáveis e nenhum pedaço de papel, copo plástico ou cheiro de urina. Qual seria o grande mistério? Uma nave espacial desce na madrugada e desintegra o lixo? Não, a solução é prosaica. Já lhe conto.

Para os moradores da Quadra 408 Norte, a quinze minutos da Praça dos Três Poderes, a atuação de vocês, estudantes da UnB, é devastadora. Acordamos na sexta-feira com os gramados cheirando a banheiro de rodoviária. Copos plásticos, guardanapos, preservativos, garrafas, sapatos e toda sorte de lixo são jogados nas nossas ruas. A nossa quadra é o mictório e o depósito de lixo de pessoas que juram que são as grandes reservas morais do país, guerreiras de um futuro grandioso e defensoras perpétuas dos direitos do cidadão.

Deixe-me dizer-lhe, amiguinho, que a corrupção na política é a face mais grave de um Brasil acostumado a uma postura colonialista. Mas você também tem sua parcela de contribuição no panorama cada vez mais feio de nosso país.

Não lhe parece contraditório que as mesmas pessoas que defendem os direitos dos mais pobres sejam justamente os que sobrecarregam homens e mulheres (garis, varredores de ruas, brasileiros humildes) das camadas sociais menos abonadas da população? Que nome se dá a quem multiplica desnecessariamente a carga de trabalho dessas pessoas, obrigando-as a recolher seu lixo na manhã que se segue a uma noite de comilança e bebedeira?

E nem se iluda, dizendo a si mesmo que a sua sujeira garante o trabalho do gari. Em outros países – nos quais não há o péssimo hábito de transformar as ruas em banheiro público ou depósito de lixo – os trabalhadores da limpeza urbana continuam a ter empregos: eles recolhem as latas de lixo diariamente, varrem e lavam as ruas e recolhem as folhas das árvores.

Sim, amigo estudante que adora deixar para trás o seu lixo para alguém vir recolher: você está repetindo exatamente os mesmos comportamentos dos donos de escravos que tanto lhe horrorizam. Observe bem essa gravura de Debret retratando o nosso Brasil colônia. Não lhe parece familiar? Solucionado o mistério de Montreal: as pessoas aqui já superaram a fase de achar que vivem na Casa Grande (para usar uma expressão que você tanto gosta).

Para ser coerente consigo mesmo, comece por carregar um saco plástico na mochila a fim de recolher seu lixo. O saco plástico é a sua Lei Áurea, sua chance de começar a revolução! O passo seguinte é corrigir uma outra prática primitiva: passe a usar banheiros em vez de árvores.

Vá, você consegue. Tenho fé em você e nesse seu coração tão preocupado com as questões sociais.

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