Máscaras, karmas e estratégias

A data de 5 de setembro de 2017 deveria ser batizada como “O dia das máscaras caídas”. Além de Joesley Batista, que se revelou em toda a extensão de sua miséria moral, os acontecimentos serviram para mostrar que o procurador geral da República manchou a própria biografia com as trapalhadas que envolveram a delação de Batista. O dia terminou com uma denúncia que finalmente expôs os monumentais prejuízos causados pelo grupo petista liderado por Lula e Dilma.

Sobre Joesley, há pouco a acrescentar: ele mesmo se revelou nas gravações que fez. Suas palavras de lama e sua pobreza de caráter estão explícitas em cada sílaba que pronunciou. Não é difícil adivinhar como tal mediocridade alcançou o status de bilionário no Brasil.

Quanto a Rodrigo Janot, mostrou-se triplamente indigno. Em uma análise condescendente, pode-se dizer que lhe faltou prudência e zelo na condução das tratativas da delação de Joesley. Sobraram vaidade, descuido e precipitação.
Dos áudios emerge a incômoda suspeita de que Janot sabia – via conversas de banheiro (literalmente) – que o procurador Marcelo Miller fazia jogo duplo. Pior, afirma-se que, no futuro, o próprio Janot faria parte do mesmo escritório que acolheu Miller. Rodrigo Janot deve uma explicação sobre isso.

Para completar as trapalhadas em série, Janot veio a público na segunda-feira para informar que Joesley havia omitido áudios e informações. Foi sua última chance de agir à altura do cargo que ocupa: ali deveria anunciar que os fatos mais graves atingiam a própria PGR, pois apontavam que seu auxiliar, Marcelo Miller, ainda como procurador, assessorava Joesley Batista para produzir uma delação claudicante contra o presidente da República e garantir um acordo indecentemente favorável.

A espada pendia sobre sua própria cabeça, mas o procurador nitidamente tentou compartilhar com o STF o desgaste que viria. Em uma fala dúbia, disse que quatro ministros eram mencionados e acrescentou que os novos áudios eram gravíssimos. Afastou de si os holofotes apelando para a leviandade. As declarações sobre o STF acabaram por não se confirmar quando os áudios foram divulgados.

O certo é que as informações dadas por Joesley não produziram provas substanciais contra Michel Temer. O STF deu mais dois meses de prazo para que fossem juntadas novas provas. Por isso Joesley entregou as mais de 40 horas de áudios que supostamente havia apagado do gravador. E o fez unicamente porque estava encurralado: a perícia da Polícia Federal estava começando a resgatar as gravações deletadas, Só restava ao dono da JBS demonstrar “boa vontade” a fim de preservar algo de seu acordo.

No fim do dia, em uma tentativa de salvar o que lhe restava de reputação, finalmente Janot denunciou os ex-presidentes Lula e Dilma pelo prejuízo de R$ 6,5 bilhões que o grupo petista causou à Petrobras (Leia aqui a peça completa). Na denúncia de 209 páginas, baseada em quase um milhão de documentos obtidos pela Lava-Jato, Lula é apontado como líder da organização criminosa e teria levado R$ 230 milhões ilegais. A propina para Dilma seria de 170 milhões.

E antes que alguém esqueça: foi ontem, ainda, que o Brasil comprovou que a corrupção foi a maior vitoriosa nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, e que o ex-ministro de Lula e Temer, Geddel Vieira Lima, escondia uma quantidade de dinheiro equivalente a uma mega sena acumulada: R$ 51 milhões.

As máscaras caíram e o karma – esse danadinho – bateu à porta de muita gente no histórico 5 de setembro.

3 comentários em “Máscaras, karmas e estratégias

  • setembro 6, 2017 em 11:21 am
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    São textos épicos, verdadeiras reportagens históricas, retratando, com a maestria irretocável de Sonia Zaghetto ( sua “assinatura” ), os tempos conturbados, desonestos e incrivelmente despudorados em que vivemos, sempre com seu olhar patriótico, imparcial mas crítico quando necessário, e com a verve, carisma e uma boa dose de esperança e otimismo que lhe é peculiar.
    Obrigado Sonia Zaghetto, só nos resta agradecer e nos informarmos, aplaudir e deliciarmos com sua escrita.
    Infelizmente para o País, o conteúdo é deplorável, constante e lamentavelmente preocupante.
    Ricardo José Daiha Vieira – Rick

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  • setembro 6, 2017 em 7:06 pm
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    Sempre ponderada, crítica sem ser ácida, dura sem ser injusta, exata e sensível, em uma linguagem diferenciada e deliciosamente perfeita! Obrigado por um jornalismo isento e preocupado com a lisura e procedência das informações e por seu texto brilhante e sensível, Sônia Zaghetto.

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