Ballet de borboletas

Elas estavam pousadas nos caules longos cobertos de flores. Eram muito atraentes, com suas asinhas pintadas de laranja, preto, branco e amarelo. Irresistíveis mesmo. Olhei-as bem de perto e aproximei a câmera. O gesto as assustou e elas levantaram voo todas juntas. Pela primeira vez na vida eu me vi em uma cena de filme: cercada por uma nuvem esvoaçante de borboletas coloridas. Por alguns segundos fui Titania, a rainha das fadas de Shakespeare, e em torno de mim bailavam pequenos seres alados.

O redemoinho de cores que voavam logo encontrou um roseiral e o encanto se quebrou. Voltei a ser mortal. As Painted Ladies (Damas Pintadas) encontraram outras distrações. As borboletas migrantes parecem muito com as famosas Monarcas, mas não percorrem caminhos tão longos. A nuvem era tão grande que foi detectada pelo serviço de radar dos Estados Unidos. Considerei um presente extra de Gaia a chegada delas a Denver coincidir com a minha estada na cidade.

Meu sonho de uma tarde de outono, entretanto, prosseguiu com outras cores e deslumbramentos. O Jardim Botânico de Denver, no estado americano do Colorado é um dos dez mais belos da América do Norte. Tem lagos de ninféias em homenagem a Claude Monet, jardins japoneses tradicionais, com pontes arqueadas, espaço zen, casa para a cerimônia do chá, fontes e lanternas de pedra. Projetado pelo renomado Koichi Kawana, o shofu-en (jardim de pinheiros e vento) é um convite à contemplação e à serenidade. Ele e seus irmãos, espalhados pelos Estados Unidos, representam a reconciliação entre japoneses e americanos após a Segunda Guerra Mundial.

Alguns metros depois se vê um caminho de abelhas e pássaros, jardim alpino, estufas com orquídeas, roseirais como os de Maria Antonieta em Versalhes, perfumados espaços de ervas e especiarias e um típico jardim inglês do período vitoriano. Tudo entremeado por delicadas casas de vidro, cascatas murmurantes, escadas de madeira que terminam em mini lagos habitados por carpas vermelhas e bancos sob a sombra das árvores. Nos espaços de leitura e meditação há cadeiras de ferro, gazebos e lugarezinhos acolhedores onde se pode namorar um livro ou apenas ouvir os coelhos e esquilos correrem, enquanto pássaros piam preguiçosamente.

Esse oásis cravado no meio da cidade foi apenas uma das surpresas que me aguardavam em Denver. E contrastou com tudo o que vi antes. A cidade tem ruas muito largas, viadutos gigantescos e prédios idem, que nos dão a impressão que somos muito pequenos. Talvez, inconscientemente, os autores dessas construções imensas tenham tentado reproduzir em concreto a imagem que, de longe espia a cidade:  as Rocky Mountains, montanhas rochosas, a cordinheira que se estende por 4.800 km, desde o Canadá até o Novo México.

À distância, a cadeia de montanhas domina a paisagem de Denver. Com seus picos eternamente cobertos de neve, é uma visão da qual não se consegue afastar o olhar. Seja das janelas dos trens, dos jardins do Museu de Ciência e Natureza ou da sacada de um hotel, lá estão elas, silenciosas testemunhas da ocupação da terra, gigantes indomáveis que azulam no horizonte (sim, lembrei de José de Alencar).

Caminhei bastante por downtown. As ruas do centro comercial tem grifes famosas, rua exclusiva para pedestres e um ônibus gratuito que leva os turistas da estação de trens Union Station até os locais onde “a panela ferve”. Vi uma carruagem original da Wells Fargo, uma escultura de cowboy feita por Herb Mignery, a torre do relógio, o icônico Brown Palace Hotel, o café Paramount e a Trinity Methodist Church. No Museu de Ciências aprendi muito sobre astronomia e no Museu de Arte de Denver, além de uma coleção espetacular de arte oriental, encontrei alguns velhos amigos que jamais canso de apreciar: Bouguereau, Monet, Renoir, Sisley e Berthe Morissot.

Experimentei a polidez do povo de Denver em todas as ocasiões: cada pedido de informação foi recebido com sorriso e gentileza ímpares. Teve gente que escreveu o roteiro que eu deveria percorrer, que explicou em detalhes o que eu precisava saber, que me tratou como se fosse uma antiga conhecida. Ainda trago gravada a imagem da moça na estação de Bellevue, a quem perguntei qual a direção do trem para o centro da cidade. Ela retirou os fones de ouvido, abriu um sorriso largo e me deu a informação com tanta alegria que até agora me arrependo de não ter lhe perguntado o nome.

Nada é perfeito. Estranhei os sem-teto e os usuários de drogas caídos, em pleno dia, no chão da principal praça da cidade, quase em frente ao prédio da Suprema Corte do Colorado e ao capitólio estadual, uma construção impactante, com sua cúpula dourada. Sem querer caí em um trecho perigoso da Colfax, com tráfico à luz do sol e uma atmosfera inquietante. Fui salva por uma avó que me guiou até uma parada de ônibus segura. Ah, e depois de cinco dias à base de comida mexicana, já me apanhei sonhando com um arroz branco ou um pho vietnamita. E olha que eu nunca falo mal de comida. No meu decálogo particular, é pecado reclamar de barriga cheia.

Nada disso abalou a imagem linda que carrego comigo agora, a cada vez que penso no Colorado. Escolho focar no que alimentou minha alma nesses breves dias: as obras de arte, os aprendizados em ciência, a visão das montanhas rochosas, a gentileza das pessoas e o ballet das borboletas no jardim dos sonhos.

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