Diário da Crise 21/04/2016

despedida tarsa 220
Túmulo de Maria Antonieta e Louis XVI. Basílica de Saint-Denis. Paris. Arquivo Sonia Zaghetto.

Sentada estava a Rainha, sentada, a olhar a cidade.

Quando fora, tudo aquilo? Em que lugar? Em que idade?

Vassalos, mas de que reino? Reino de que Majestade?

Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência

 

A presidente Dilma Rousseff a cada dia mais se aproxima daqueles personagens trágicos, vítimas de si mesmos, impermeáveis aos conselhos dos assessores mais prudentes, fechados em suas opiniões e inflexíveis na fidelidade à sua estreita visão de mundo.

Não percebe que sua atitude – que ela supõe desafiadora mas que soa como arrogante – ajuda a alimentar o ódio que se espalha sem controle pelo país a cada vez que pronuncia a palavra “golpe”.

Da mesma forma, não compreendeu a sugestão para que apresentasse sua renúncia. Os jornais e revistas estrangeiros que sugeriram o ato à presidente pensavam em termos do chefe de Estado consciente, que se sacrifica no âmbito pessoal a fim de fazer um bem ao seu País. Dilma não captou a mensagem. Seja porque imagina que seu governo é melhor para o Brasil – apesar do esfacelamento da economia e de sua popularidade baixíssima – seja porque só consegue perceber o gesto de renúncia como covardia e não como o que realmente é, nesse caso: grandeza, já que evitaria o prolongamento do desgaste a que está submetida a Nação.

É claríssimo ao bom observador que Dilma se vitimiza e interpreta a realidade de acordo com suas convicções. Ao se contrapor às acusações que lhe são feitas, utiliza-se de chavões e técnicas diversionistas. Não se concentra em apresentar argumentos que refutem as denúncias de violações à Constituição e à lei de responsabilidade fiscal. Defende-se até do que não foi acusada, em franca tentativa de confundir uma parte da população. Da mesma forma, ao criticar a postura dos adversários, demonstra amnésia seletiva sobre as deslavadas ofertas de cargos no governo em troca de votos contra o impeachment. Também oculta, convenientemente, que o mesmo Eduardo Cunha, acusado de achacador  e vingativo, esteve bem próximo de negociar com o governo quando iniciou o processo contra ele no Conselho de Ética. A ideia, na ocasião, era livrar Cunha da cassação em troca do engavetamento do pedido de afastamento da presidente, protocolado por Miguel Reale, Hélio Bicudo e Janaína Paschoal.

A insistência em rotular de golpe o processo de impeachment só funciona a quem se submete voluntariamente ao pensamento emanado do Palácio do Planalto. Nesse contexto, a ideia de viajar a Nova York, a fim de estender essa visão aos líderes mundiais presentes à Conferência do Clima na Organização das Nações Unidas (ONU), pode ter consequências imprevisíveis. A principal delas é submeter o País a um constrangimento desnecessário e a um desgaste internacional. Por essa razão, os ministros do Supremo Tribunal Federal reagiram tão duramente ao destempero presidencial. E lembraram enfaticamente a Dilma que seu processo de afastamento está ocorrendo até agora de acordo com o previsto na Constituição Federal e obedece ao rito determinado pelo próprio STF. A presidente corre sério risco de ser mal interpretada ao utilizar argumentos passionais perante chefes de Estado altamente informados por seus embaixadores. Também será difícil explicar por que viajou ao exterior deixando o comando do País a cargo do vice-presidente, acusado por ela de ser conspirador e golpista.

Chefes de Estado que teimam em negar a realidade costumam pagar alto preço. A própria rainha Elizabeth II – que hoje completa 90 anos – precisou se reinventar e deixar de lado suas convicções advindas do estoicismo vitoriano, que pregava sofrer em silêncio e recolhimento, e vir a público para consolar seu povo que chorava a morte da princesa Diana, em 1997. A rainha aprendeu a falar a linguagem adequada aos novos tempos e adotou nova postura diante da população. Salvou a monarquia britânica.

Conviria a Dilma algum estoicismo vitoriano nessa ida à ONU.  

Leia as principais notícias do dia:

Três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) refutaram duramente ontem (20) a tese da presidente Dilma Rousseff de que o processo de impeachment aprovado na Câmara dos Deputados é um “golpe”. Os ministros Celso de Mello, o mais antigo da Corte, Gilmar Mendes e Dias Toffoli disseram que o processo seguiu a Constituição e as regras definidas pelo próprio STF.  Celso de Mello chegou a dizer que é um “gravíssimo equívoco” falar em golpe e que será “estranho” se a presidente for ao exterior defender esse argumento. Leia aqui sobre as declarações dos ministros.

Lava Jato
1. Mulher de marqueteiro do PT diz que o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, intermediou caixa 2. Em delação, Monica Moura conta que recebeu recursos não declarados da campanha de Dilma em 2014: pelo menos R$ 10 milhões teriam sido pagos a ela e a João Santana fora da contabilidade oficial. Ela também afirma que pagamentos via caixa 2 não teriam sido prática exclusiva da última eleição: ocorreram nas campanhas presidenciais pela eleição de Dilma (2010), e pela reeleição de Lula (2006), além das campanhas municipais de Fernando Haddad (2012), Marta Suplicy (2008) e Gleisi Hoffmann (2008). Leia mais. Mantega nega as acusações (leia aqui).
2. Lava Jato descobre que a estatal Sete Brasil foi criada para ajudar na corrupção. Nova denúncia do MPF afirma que objetivo da empresa era ser uma filial do petrolão, o esquema de corrupção que desviou bilhões da Petrobras. Saiba mais.
3. A revista IstoÉ noticia que há uma nova delação que compromete Dilma: em depoimento, a dona da empresa Pepper, Danielle Fonteles, afirma que recebeu recursos “por fora” num total de R$ 58 milhões, para abastecer as campanhas de 2010 e 2014. Quem a orientou no esquema foi o braço direito da presidente, Giles Azevedo. Saiba mais.
4. A Procuradoria Geral da República denunciará Lula ao Supremo, afirma a revista Época. Baseada na delação do assessor do senador Delcídio do Amaral, a PGR já vê indícios de crime na conduta do ex-presidente, que, segundo as evidências, tentou comprar o silêncio de Nestor Cerveró. Leia aqui.
5. STF inclui menções a Dilma, Temer e Lula em inquérito da Lava-Jato. Inclusão de trechos da delação do senador Delcídio Amaral foi autorizada pelo ministro Teori Zavascki. Leia mais.

Michel Temer

1. Aliados do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já têm a receita para pressionar o vice-presidente Michel Temer a cumprir compromissos firmados para a aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Eles pretendem manter a ameaça de apoiar a abertura de um pedido de afastamento contra o vice. Leia.

2. Helder Barbalho deixou a Secretaria de Portos  e sua saída reforça a percepção de que o clã Barbalho aderiu ao grupo de Michel Temer oficialmente. No domingo, a mãe de Helder, Elcione, e a deputada Simone Morgado (casada com o pai do ministro, senador Jader Barbalho) votaram contra a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma. Em sua carta de despedida,  Helder fez um agradecimento à presidente Dilma pela oportunidade de dirigir o órgão. Em um dos trechos, justificou sua saída. “A posição política por mim assumida é, acima de tudo, de respeito à Democracia e a mim mesmo”. Barbalho permaneceu apenas seis meses no Posto. Leia. 

3. Cerca de 80 manifestantes do movimento Levante Popular da Juventude fizeram um ato hoje  em frente à residência, em São Paulo, do vice-presidente Michel Temer. Observados por cerca de 25 seguranças da Vice-Presidência e 10 policiais militares, eles picharam “QG do Golpe” no chão em frente à casa; espalharam cópias coloridas da capa da Constituição Federal, fotos do vice com a inscrição “Golpista” e cópias de notas de 100 dólares estampadas com a imagem do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (leia aqui). Após os protestos, Temer decidiu deixar sua casa em São Paulo e seguiu para Brasília. As pichações foram apagadas no fim da tarde

4. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) diz que “não deixará em paz” um eventual governo Michel Temer  e pedirá sua saída em caso de impedimento definitivo da presidente Dilma Rousseff. Leia.

Repercussão no exterior

1. Organizadores da Olimpíada e membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) destacaram a crise no Brasil durante a cerimônia de acendimento da tocha olímpica nesta quinta-feira, 21, na histórica cidade grega de Olímpia, no Templo de Hera, que foi o berço dos Jogos da Antiguidade e fica a aproximadamente 300 quilômetros de Atenas. Leia aqui.

2. A presidente Dilma Rousseff “decepcionou o Brasil”, diz a revista britânica “The Economist”, em reportagem de capa de sua edição latino-americana. O texto, intitulado “A Grande Traição”, afirma, também, que toda a classe política brasileira fez o mesmo. Saiba mais.

Um comentário em “Diário da Crise 21/04/2016

  • abril 22, 2016 em 3:40 am
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    Não me surpreende q o Brasil esteja , literalmente, no fundo do poço. Com todos o dinheiro gasto em transações ilícitas , áreas como saúde e educação levarão muito tempo P sair do ” buraco negro” onde se encontram .Parabens , Sonia!

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