Diário da Crise 24/04/2016

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Ricardo II da Inglaterra.

Inspirada em um artigo do ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, sobre Shakespeare e o Impeachment, inicio este Diário da Crise com uma das falas mais emblemáticas da tragédia que narra o destino do rei  Ricardo II, da Inglaterra. O bardo inglês colocou na boca de um jardineiro a razão pela qual o infeliz monarca seria deposto.

Que pena o rei não ter cultivado o país como o fazemos com o jardim. Na estação apropriada fazemos uma incisão na casca – a pele das nossas árvores frutíferas – por medo de que o excesso de seiva e sangue as deixe muito orgulhosas, vindo a se destruírem por causa da própria riqueza. Se ele houvesse feito assim com as pessoas ambiciosas e de influência, elas teriam vivido  bastante para produzir os frutos do dever e ele para prová-los. Suprimimos os ramos parasitas para que os produtivos possam viver. Tivesse ele feito isso, não teria perdido o cetro.

Ricardo II. William Shakespeare.

Como bem lembrou Franco, a atual cena brasileira parece repetir o drama de Ricardo II: as contas públicas estão devastadas, os impostos são altíssimos, a administração sofrível. O rei tem péssimo temperamento, não consegue dizer coisas inteligíveis, age com imaturidade e dá ouvidos apenas ao séquito de bajuladores que o mantém afastado da realidade. Acaba destronado por seus pares. É sucedido por Bolinbroke, que mesmo sendo tecnicamente um usurpador, recebe o apoio geral para pôr ordem ao caos generalizado que tomou o reino.

Na nossa peça revivida, encenada diariamente perante os nossos olhos espantados, todas as atenções se voltam para Michel Temer, que se movimenta para compor um possível futuro governo. As articulações que faz e os apoios que a cada dia recebe são o principal tema de hoje.

  1. O Ministério da Justiça deve ser rebatizado e reestruturado se Temer assumir . Ele passará a se chamar Ministério da Justiça e da Cidadania, assumindo as funções das secretarias das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. No governo Fernando Henrique Cardoso, a Secretaria dos Direitos Humanos funcionava na pasta da Justiça. Saiba mais.
  2. Temer também deve divulgar nos próximos dias um documento programático, voltado para a área social, nos mesmos moldes do “Ponte para o Futuro”, que mostrou sua carta de intenções para a economia. O conteúdo teve forte contribuição do economista Ricardo Paes de Barros, um dos principais especialistas em desigualdade social e idealizador do Bolsa Família. A manutenção do programa estará entre os principais pontos, mas com a preocupação de ser criar “portas de saída”, segundo interlocutores do vice-presidente.
  3. O vice-presidente não fez qualquer convite a Henrique Meirelles na conversa que tiveram no Palácio do Jaburu neste sábado. Mas ouviu do ex-presidente do Banco Central que a situação da economia é grave, mas pode ser revertida caso sejam feitas as reformas corretas, em curto espaço de tempo.
  4. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, se reuniu hoje com Temer, no Palácio do Jaburu. Apresentou ao vice propostas da Fiesp para um ajuste fiscal feito sem aumento de impostos. A redução do tamanho da máquina governamental está entre as sugestões. Leia mais sobre esse assunto.
  5. Se assumir, Temer terá que enfrentar a situação caótica das contas públicas dos estados. Leia aqui. O vice também deverá enfrentar a oposição ferrenha do PT, que já prepara obstrução no Congresso. Os petistas não reconhecem legitimidade de possível governo Temer e se preparam para reeditar tática usada contra FHC (leia).
  6. Temer discordaria de aumento de impostos, disse Paulo Skaf. Após encontro em Brasília, presidente da Fiesp condicionou apoio a um eventual governo do PMDB à não recriação da CPMF. Saiba mais.
  7. Eliane Cantanhêde analisa a postura do PSDB perante o governo Temer. Leia aqui.
  8. O Instituto Mises publicou artigo explicando as pedaladas fiscais: por que são crime e por que prejudicaram exatamente os mais pobres. Leia aqui.

Lava Jato

Em depoimento a procuradores federais de Brasília para tentar fechar um acordo de delação premiada, Monica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, disse que o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci e o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto teriam desempenhado o mesmo papel nas últimas campanhas presidenciais. Os dois teriam indicado a ela executivos de empresas para contribuir em dinheiro. São recursos que não passaram por contas oficiais do PT, sem serem declarados à Justiça Eleitoral. Saiba mais.

Benedito de Oliveira Neto, o Bené, operador de Fernando Pimentel, preso pela Operação Acrônimo, decidiu fazer delação premiada. Quem tem a tremer na bases é não só Pimentel, mas a presidente Dilma. Benedito atuou em sua campanha a presidente em 2010. Na coluna de Lauro Jardim.

Cobrança de propina pelo PT é relatada por mais executivos. Leia aqui.

Relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, o ministro Teori Zavascki determinou que a Procuradoria Geral da República (PGR) faça uma investigação preliminar sobre a lista de pagamentos da Odebrecht encontrada na 23ª fase da operação que apura desvio de dinheiro da Petrobras. As planilhas, que estavam na casa de Benedicto Barbosa Silva Júnior, executivo da Odebrecht Infraestrutura, trazem o nome de mais de 200 políticos ao lado de valores. Depois da análise, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, poderá pedir a abertura de inquérito contra os citados na relação com os supostos repasses. Leia aqui.

A Receita Federal já aplicou multas de R$ 39,2 milhões a envolvidos nos desvios de recursos da Petrobras, desvendados pela Operação Lava-Jato. Saiba mais.

Eduardo Cunha

A revista Veja traz matéria de capa sobre Eduardo Cunha, com o título “Fera, odiado e do mal” . O presidente da Câmara é descrito como “unanimidade nacional” quando se trata de votação na categoria “político mais odiado”. Leia aqui.

Lula

Lula: O mito estraçalhado é o artigo assinado por um dos fundadores do PT, Francisco Weffort. No artigo, o professor de Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo e ex-ministro da Cultura (de 1995 a 2002, no governo Fernando Henrique Cardoso) analisa que a trajetória do ex-presidente Lula o levou da posição de “sindicalista combativo”, por meio da qual se projetou no país, a lobista das grandes empreiteiras. “Um fim melancólico para quem, no passado, representou uma esperança de grande parte do povo brasileiro”, escreve Weffort. Leia aqui.

Dilma

Em acordo de delação premiada, o executivo da Engevix José Antunes Sobrinho revela ter pago R$ 239 mil a um intermediário para que o apresentasse a Carlos Araújo, que foi casado com a presidente Dilma Rousseff. Leia a matéria completa na revista Época.

Com votação do impeachment próxima, popularidade de Dilma despenca. Leia aqui.

Renan Calheiros

Renan, o Cunha do Senado é o título da reportagem da revista IstoÉ sobre o presidente do Senado. Afirma que, pelo apego ao poder e o currículo cheio de acusações, o homem que comandará o novo ato do impeachment possui incrível semelhança com o que liderou o seu encaminhamento na Câmara. Leia aqui.

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