O poeta e a criminosa

Decidi começar uma vida de crimes. Já me vejo retratada por Gloria Perez em alguma novela futura, as redes sociais ardendo, psicólogos opinando, amigos envergonhados e William Bonner, com ar tão grave, a ler um editorial sobre o fim da inocência. Se apanhada, eu, criminosa não arrependida, direi que a culpa é dessa tal poesia que entra pelos olhos da gente, instala-se como vírus e nos faz amar os que estão mortos há tempos. Gente que se tornou estátua.

É que chutaram o rosto do poeta. Os óculos voaram longe e caíram ao lado do banco. O homem de camisa listrada os recolheu à sacola e saiu andando. Crime menor, diriam as autoridades da cidade das balas perdidas e dos fuzis-ostentação.

Com os óculos de bronze – arrancados na décima-primeira vandalização da estátua do poeta – caíram também minhas barreiras morais. Está decidido. Começa hoje minha carreira criminosa. Modalidade: sequestradora.

Tudo planejado.  Tenho apenas duas mãos, um furgão alugado e o sentimento do mundo. Nada me deterá.

Estacionarei o furgão às 3 da manhã no calçadão de Copacabana e recolherei o poeta. Ele não vai resistir ao rapto, pois não sou serafim. Além de que já andava cansado mesmo. Não aguentava mais aquela gente melosa, abraçando-o o dia todo. Logo ele, mineirinho tímido, sendo babado, lambido, fotografado. Ora, me deixem em paz! – teria pensado se estátua não fosse? Aí já não sei. Era polido, dado a quietices e sossegos.

Vou levá-lo a um esconderijo. Só não sei se no Flamengo, onde mora o Pedrão, ou no Méier, onde vive o Jailton.  Se tiver bastante combustível, talvez eu vá para a Barra, na casa da Paulinha e da Rê.

Nos primeiros dias ele vai querer escapar, disfarçado, para olhar o mar. Eu sei. Quem coloca um poeta de costas para o grande azul? “É que ficava bem melhor pro pessoal da foto”, ele me explicará, riso baixo, cara humilde. Passou um tempo enorme apenas ouvindo as ondas quebrarem na praia, sem ver auroras ou poentes. Isso não se faz com um homem de letras.

Eu e a estátua do poeta tomaremos café preto, falaremos mal do governo e discutiremos literatura. Vamos ficar de mal e eu lhe emprestarei meus óculos. Ele sorrirá das minhas tolices, Alexandre terá ciúmes e tentaremos aprender a sapatear como aqueles dançarinos de velhos musicais americanos. O poeta tem um quê de Fred Astaire (a magreza, acho). No fim do dia, assistiremos a uns filmes. Tentarei Faroeste, com Clint Eastwood ainda jovem.  Ele vetará: não quer ser poeta de mundo caduco.  Rirá. Riremos.

No meu covil de lobos mansos, ninguém chuta o rosto dos poetas.

 


Foto: Flavio Veloso. Link original aqui.

2 comentários em “O poeta e a criminosa

  • novembro 16, 2017 em 10:25 pm
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    fantástico!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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