Diário da Crise 26/04/2016

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Peter Paul Rubens. A Queda de Féton. 1604

O poeta romano Ovídio narra, em suas Metamorfoses, a história de Faeton, filho de Hélio, que implorou ao pai para conduzir a carruagem do sol no céu. Sem força e experiência para controlar o carro, Faeton assiste, aterrorizado, aos cavalos se soltando e queimando tudo em seu caminho. Com a terra em vias de ser destruída, Zeus intervém e lança um raio que desintegra o carro. É o fim de Faeton.

A intervenção extrema que interrompe a trajetória do carro desgovernado, a espalhar destruição graças à inabilidade de quem o conduz, é a perfeita metáfora do inábil governo que agoniza. Aplica-se também a outra figuras da República que são vítimas de si mesmos, como é o caso do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que hoje viu o cerco se fechar ainda mais em torno dele.

Depois de 50 senadores já haverem declarado seu voto a favor do impeachment da presidente Dilma (são necessários 41), Brasília vê sinais inequívocos de que o mundo político e social já se articula em torno do sucessor, Michel Temer. Hoje, dois dias após o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, entregar ao vice uma lista de proposições, foi a vez dos movimentos sindicais apresentarem suas reivindicações. O beija-mão já iniciou.

Costurando uma equipe de peso, Temer demonstra que tem de sobra o que faltou a Dilma: habilidade para conquistar aliados sem necessariamente se expor ao toma-lá-dá-cá no que a prática tem de mais torpe; compor uma ampla base aliada; e alocar em cargos estratégicos figuras capazes de neutralizar críticas. Ao escolher Henrique Meireles para o Ministério da Fazenda, por exemplo, Temer silencia Lula, já que Meirelles foi presidente do Banco Central no governo Lula e estava cotado para assumir a Fazenda se Lula tivesse conseguido ser nomeado ministro da Casa Civil. Outra escolha cuidadosamente pensada é a do senador Romero Jucá para o Ministério do Planejamento. Experiente e com larga vivência no Legislativo, Jucá tem o perfil exato para fazer a interlocução com o Congresso Nacional, particularmente em um dos quesitos fundamentais para os parlamentares: a liberação das emendas.

Temer demonstra que não pretende repetir o mito de Féton. Nem os equívocos de Dilma.

Eis as principais notícias do dia:

O lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, afirmou em depoimento ao Conselho de Ética nesta terça-feira (26) que esteve pessoalmente com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, “mais de dez vezes”, incluindo em seu gabinete no Congresso, em sua casa, no Rio de Janeiro, e no escritório político no Rio. Leia. Ele declarou ter repassado mais de R$ 4 milhões a Cunha.

O ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de mais dois inquéritos sobre o o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Os pedidos para investigar o deputado foram feitos pela Procuradoria Geral da República (PGR), mas tramitam em segredo de Justiça. Leia aqui.

A organização internacional Avaaz entregou nesta terça-feira, 26, ao Conselho de Ética da Câmara um documento simbólico com 1,3 milhão de assinaturas pedindo a cassação do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Leia.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou, na semana passada, que a Corte poderá analisar se o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deverá ser retirado da linha sucessória da presidência da República caso Dilma Rousseff sofra impeachment.  Segundo na linha sucessória presidencial, o parlamentar é réu na Lava Jato, o que o impede de assumir o cargo máximo do Poder Executivo. Saiba mais.

Impeachment

O presidente da Comissão Especial do Impeachment no Senado, Raimundo Lira, confirmou que o parecer a ser apresentado pelo relator Antonio Anastasia será votado no dia 6 de maio. Segundo ele, a decisão é uma solução alternativa entre os prazos de dias corridos ou úteis e foi acordada com senadores de diferentes partidos. Lira e Anastasia foram eleitos durante sessão nesta terça-feira, 26. A Câmara aprovou no dia 17 o prosseguimento do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Leia.

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) realizaram marchas, nesta terça-feira, 26, em seis Estados para cumprir uma agenda de manifestações contra o impeachment da presidente Dilma e que terá seu ponto alto no feriado de 1º de maio. Também estão previstos bloqueios de rodovias e invasões de terras. Durante a madrugada, cerca de 300 integrantes invadiram uma fazenda de 600 hectares em Eldorado do Sul, região da Grande Porto Alegre (RS). Leia.

A presidente Dilma Rousseff recebeu nesta segunda-feira, 25, representantes de movimentos sociais que lideram a manifestação contra o impeachment e ouviu pedidos para que nomeasse integrantes dos movimentos para preencher vagas deixadas por partidos que abandonaram o governo. Leia.

A Advocacia-Geral da União (AGU) enviou à Câmara dos Deputados uma petição em que pede a anulação da sessão do plenário da Casa que aprovou a continuidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, no último dia 17. A AGU quer que a denúncia, em tramitação no Senado, retorne à Câmara para nova votação. Saiba mais.

Lava Jato

Por três votos a dois, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) negou hoje habeas corpus apresentado pela defesa de Marcelo Odebrecht, dono da Odebrecht, maior empreiteira do Brasil. Assim ele continuará preso no Paraná. Investigado na Operação Lava-Jato, que apura irregularidades em contratos da Petrobras, Odebrecht foi detido em junho do ano passado. Também nesta terça, a Segunda Turma autorizou que Rogério Santos de Araújo e Márcio Faria da Silva, ex-executivos da empresa, sejam transferidos para a prisão domiciliar. Leia mais. sobre esse assunto em

Um dos condutores da Operação Lava Jato, o procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima, evita fazer juízos definitivos, mas não esconde a convicção a que chegou a força-tarefa que investiga o esquema de corrupção que corroeu a Petrobras. “Há uma linha de investigação que aponta Lula na cadeia de comando”, afirmou em entrevista à revista ÉPOCA. Negociador-chefe dos acordos de delação premiada, Carlos Fernando não tem boas notícias para quem ainda busca esse entendimento: como já se sabe quase tudo sobre o caso, há cada vez menos espaço para novos delatores; quem quiser reduzir sua pena terá de contar algo muito valioso aos investigadores. “Precisamos punir as pessoas, não é possível fazer acordo com todo mundo”, diz Carlos Fernando. “Vai ter de trazer uma coisa muito extraordinária.”. Saiba mais.

O juiz federal Sérgio Moro determinou hoje a prorrogação por mais 15 dias do inquérito que investiga o ex-senador Gim Argello (PTB/DF), preso no último dia 12 de abril, na 28ª fase da Lava Jato. A Polícia Federal suspeita que o ex-parlamentar teria extorquido empreiteiras para evitar a convocação dos executivos das empresas nas CPIs da Petrobras no Senado e no Congresso, em 2014. Saiba mais.

Andrade Gutierrez pagou propina ao PT e ao PMDB em Angra 3. Dois ex-executivos do grupo afirmam à Justiça que o ex-presidente da Eletronuclear, almirante Othon Pinheiro, recolhia o dinheiro e recebeu até R$ 4 milhões. Leia.
Lava Jato apura elo de pivôs de ’empréstimo’ ao PT e produtora paga por João Santana. Leia.

Sérgio Moro participa na noite desta terça-feira (26) de uma homenagem da revista americana Time às cem pessoas citadas pela publicação como “as mais influentes do mundo”. Ao chegar à cerimônia de homenagem, em Nova York, Moro disse que ter seu nome na seleção “honra muito o trabalho institucional”. Ele também afirmou que “é reconhecimento também que o Brasil toma passos importantes na prevenção e no combate à corrupção”. Moro é o único brasileiro citado na relação deste ano, divulgada na quinta-feira (21). Ele está na categoria “Líderes”, ao lado de nomes como Barack Obama, François Hollande, Angela Merkel e Vladimir Putin. Leia aqui.

Temer

Após reunião com a bancada do PSDB na Câmara, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) afirmou hoje que a “tendência” da direção do partido é não se opor a que integrantes da legenda ocupem ministérios em um eventual governo de Michel Temer (PMDB). Ele disse, porém, que o PSDB não fará indicações para cargos, e destacou que Temer terá que procurar a direção da sigla, caso deseje nomear tucanos para o governo. Saiba mais.

O vice-presidente Michel Temer definiu uma das primeiras medidas que tomará se assumir o governo: auditoria nas contas dos bancos públicos. Os alvos serão as operações na Caixa Econômica, Banco do Brasil, BNDES, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia nos 13 anos da gestão petista. Leia.

Representantes de movimentos sindicais se reuniram, nesta terça-feira (26), com o vice-presidente da República, Michel Temer, para entregar um documento com reivindicações das categorias. No texto, eles destacam a necessidade da retomada do crescimento econômico e da preservação e ampliação dos direitos trabalhistas e das conquistas sociais. Leia aqui.
Sarney Filho, líder do PV na Câmara dos Deputados, é cotado para assumir o ministério do Meio Ambiente em um eventual governo Michel Temer. Sarney Filho já foi ministro do Meio Ambiente e centraliza sua ação parlamentar na área ambiental. Leia.

Dilma

Dilma e Lula demonstram que cogitam seriamente aderir à ideia de convocar novas eleições. Veja a movimentação:

Lideranças políticas de diferentes partidos devem se encontrar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta semana para pedir a ele que convença a presidente Dilma Rousseff a assumir enfaticamente a bandeira por novas eleições. Neste caso, a eleição seria apenas para os cargos de presidente e vice. Leia.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, conversou com o ex-presidente Lula nesta terça-feira (26) sobre a viabilidade de realizar novas eleições presidenciais no país. Os dois se reuniram por uma hora e meia na residência oficial da Presidência do Senado, em Brasília. O maior entrave para viabilizá-la é o fato de que, independente da forma como seja colocada, ela tem que ser aprovada pelo Congresso (leia aqui).

 

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