As aventuras de Artemísio Mangabeira no País da Roda-Viva

Meu amigo Artemísio Mangabeira, passista da Vila Isabel, foi às compras. Dado à leitura de Machado de Assis, ultimamente deu de falar como o Bruxo do Cosme Velho.
 
– O senhor me faça o obséquio de me embalar para viagem um quilo de bom senso?
 
– Tá em falta. Respondeu Otávio Tupiassu, 82 anos de idade e há mais de 40 dirigindo um sebo de livros na avenida Passos. Na sua mocidade era normal usar obséquio, rapé e bom senso.
 
– Ando sem sorte. Praga de algum mangueirense. Já procurei pela cidade toda. Ritinha, a minha filha, sugeriu uma tal feira do rolo. Vou tentar.
 
– Sei não, heim? Acho difícil achar bom senso na feira do rolo. É como diz a D. Claudia Brasil, dama da melhor sociedade candanga: bom senso é artigo vintage no Brasil de 2017. Vá a um antiquário.
 
– Tem razão. Falei com D. Claudia no mês passado. Veio de Brasília para comprar bom senso aqui no Rio. Parece que o estoque da capital acabou há algum tempo e ela queria presentear uns ministros e parlamentares. Falei que a situação aqui estava ainda pior. Coitada: cortou um dobrado. Procurou no país todo, sem sucesso. Acabou tendo que importar da Noruega.
 
– Já tentou nas universidades?
 
– Já. Lugarezinhos perigosos, não? Na última quase fui linchado só por comentar que não achei um traço de bom senso no local. Gritaram tanto comigo que acabei engolindo uns perdigotos. Mas, parece-me de bom alvitre  que voltemos ao assunto principal: pensei que aqui, numa livraria antiga, eu encontraria algum bom senso.
 
Tupiassu soprou a poeira de um dos exemplares d’A Comédia Humana e encolheu os ombros.
– Você sabe como funciona: alguns livros estimulam a produção de bom senso, mas o sujeito tem de colaborar. E também depende do livro. O pessoal anda lendo youtubers e outros quetais. O organismo não reage.
 
O livreiro ajeitou os óculos que haviam escorregado para a ponta do nariz, limpou a garganta e indagou:
.
– O amigo me perdoe, mas para que o senhor quer um quilo de bom senso?
Mangabeira ficou vermelho. Num arroubo, pôs os pés sobre uma pilha de livros de Paulo Coelho e bradou exaltado: 
– Caridade, espírito cidadão, patriotismo, amor ao próximo, sentimento de mártir, sentido de missão. Sou esse tipo de gente altruísta, vocacionada para salvar os outros de si mesmos. Em 2018 vai ter eleição. Quero distribuir bom senso a uns conhecidos. De graça! Dois ou três gramas para cada um me parece o suficiente.
 
Tupiassu olhou para o fio de suor que escorria da testa do amigo e temeu uma cena capaz de ser ouvida na Praça Tiradentes. Discretamente, pôs um exemplar de Schopenhauer sobre a pilha de Cinquenta Tons de Cinza.
– Francamente, acho difícil. Já não se cultiva bom senso há algum tempo. Não só no Brasil. No mundo inteiro anda em falta. E agora, com esses predadores novos, está ainda mais difícil.
 
– Predadores?
 
– Sim, um tal de tuíter e seus similares, o feicebuqui e o zap-zap. Drogas novas, americanas. Viciam num piscar de olhos e são deliciosas. Pena que comeram o que restava de bom senso no planeta. Você sabia que… Mangabeira,  Mangabeira, meu Deus do céu! E essa agora! D. Rúbiaaaa, largue esse zap-zap e chame o Souza para me ajudar a carregar o Mangabeira. Diabos, essa gente tão letrada não consegue lidar com a falta de bom senso.
 
ATENÇÃO. O Ministério da Saúde adverte: se limitar suas leituras a 280 caracteres, seu cérebro terá sérias dificuldades para entender Platão.
Ilustração: Doctor Syntax, with the Bookseller, de William Combe.

Um comentário em “As aventuras de Artemísio Mangabeira no País da Roda-Viva

  • novembro 4, 2017 em 11:38 am
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    Impecável, divertida, sensacional, explêndida, inimitável, adorável, incomparável !! … UFA ! … me faltam adjetivos para exprimir tamanha admiração por seus textos, crônicas e escritas, Sonia Zaghetto !
    Você não é apenas “UM ponto fora da linha”, tão em moda atualmente; você simplesmente é TODOS os pontos, quer na linha ou não. ( Adorando sua verve humorística/histórica/geopolítica. )
    Beijos, Rick

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