Diário da Crise 27/04/2016

 

calúnia
Sandro Botticelli. Calúnia.

Na Galleria degli Uffiziem Florença, há uma pintura de Sandro Botticelli – Calúnia. Datada de 1495, tenta recriar uma obra perdida da Antiguidade, de autoria do pintor Apeles.  No quadro, o rei, com orelhas de burro e de olhos baixos, sem ver o que está à sua frente, ouve as envenenadas palavras que a Ignorância e a Desconfiança lhe sussurram. De pé, um homem encapuzado, a Inveja, estende seu longo braço em direção ao rei. Ele segura a Calúnia pelo pulso e esta arrasta pelos cabelos o homem caluniado. Calúnia carrega uma tocha acesa, como se viesse trazer luz sobre o caso. A Malícia e a Fraude, suas companheiras, a adornam com flores e fitas, procurando disfarçar sua verdadeira natureza. Atrás do grupo, vê-se uma figura vestida de preto: é o Remorso, que contempla a Verdade.

O quadro versa sobre temas complexos e muito humanos. Vou me deter em apenas um deles: os maus assessores, que não perdem a oportunidade de destruir reputações de adversários e envenenar os ouvidos dos poderosos. Diante das crises, não falta aos governantes quem lhes dê maus conselhos e sugira caminhos de vingança e pequeneza.

Nos últimos dias do governo Dilma Rousseff, multiplicam-se as más sugestões à presidente. A Nação apreensiva aguarda da mandatária o gesto de dignidade perante a crise. Equilíbrio e sobriedade diante da adversidade seriam bem-vindos e bem vistos, em vez de intempestividade, reações emocionais e ameaças de retaliação. Não bastasse a adesão de Dilma a versões questionáveis sobre golpes de estado e ameaças à democracia, hoje os que apoiam a presidente perderam mais uma chance de dar alguma demonstração de apreço pelo País.

Diante da certeza de aprovação do impeachment no Senado, assessores diretos e parlamentares do partido da presidente tomaram uma série de decisões destinadas a deixar Michel Temer “à míngua”, sem quaisquer informações sobre a gestão do País. Na reunião desta quarta-feira – que contou com a presença de 45 dos 57 deputados petistas – decidiu-se que não haverá “transição” de governo, nem informes sobre o andamento de processos e projetos em ministérios e estatais. A justificativa: “Transição é quando há um governo eleito, com legitimidade. Não é o caso”. No Congresso, igualmente, a bancada petista repete à exaustão o mantra da ilegitimidade de um provável governo Temer e promete que não lhe dará trégua.

Dilma permanece sem conseguir enxergar o que está à sua frente. Os olhos baixos não veem a verdade; os ouvidos estão envenenados pelos sussurros da ignorância e da suspeita.  Está sozinha, sem uma viva alma que a advirta sobre a virtude de se retirar com grandeza e de olhos voltados para algo maior: o bem do País.

Precisa-se de uma voz que lhe diga: a terra arrasada, senhora Presidente, é a nossa terra. Os prejuízos que advierem da decisão de queimar pontes serão pagos não somente por Temer, mas por toda a Nação. Convém não esquecer.

A novela do PSDB

Entre as principais notícias do dia estão as tentativas de Temer de obter o apoio do PSDB. Este – autor de quatro ações que pedem ao Tribunal Superior Eleitoral a cassação da chapa Dilma-Temer – está visivelmente desconfortável e dividido. Igualmente pesa sobre o partido a decisão de haver participado ativamente do processo de impeachment.  Como explicar aos eleitores que a legenda não apoiará o PMDB, herdeiro do governo que o PSDB ajudou a abater? Por outro lado, os tucanos querem evitar a imagem de oportunistas que espreitam, ávidos, um naco de poder. Para piorar o quadro, há as pequenezas internas. Tanto Alckmin como Aécio temem que Serra, cotado para ser ministro num eventual governo Temer, venha a ganhar tal projeção que acabe eleito em 2018, repetindo a trajetória de FHC no governo Itamar Franco.

Pressionado ao longo do dia, Aécio capitulou: anunciou que o PSDB vai dar apoio institucional mas não vai exigir cargos. O partido também vai condicionar o apoio ao cumprimento de uma série de itens que serão apresentados a Temer. Da lista constam combate à corrupção, apoio à Operação Lava Jato, estímulo à meritocracia e implementação das reformas tributária e política. Leia mais.

A equipe Temer

O vice-presidente Michel Temer desistiu da nomeação do advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira para o Ministério da Justiça de seu eventual governo. Desde que revelou ao GLOBO a preferência pelo nome do criminalista paulista, Temer foi desaconselhado da indicação por vários aliados.  Ontem, ao saber o teor de declarações do advogado, que é seu amigo, o vice desistiu da indicação. Segundo interlocutores de Temer, a preocupação central do vice-presidente é não deixar dúvidas quanto ao seu compromisso com a liberdade da Operação Lava-Jato. Mariz deu entrevistas com críticas à operação e, especialmente, ao uso que vem sendo feito da delação premiada. Leia aqui.

Em entrevista hoje à revista Época, Temer reiterou que o ministro da Justiça de seu provável governo “não se imiscuirá” na Lava Jato ou no trabalho da Polícia Federal. O vice-presidente ainda não definiu um nome para o cargo, mas considera entre as possibilidades vários ex-ministros do STF, como Cezar Peluso, Sepúlveda Pertence, Carlos Velloso e Carlos Ayres Britto. Leia.

Temer, segundo o Estadão, “deverá rever os critérios da publicidade online do governo”. Em resumo, tomará medidas para cessar o repasse de recursos aos blogs que seriam pagos para apoiar o atual governo. O jornal também informa que a PF vai atacar a área de marketing da Petrobras, “tida como feudo do PT” e de onde teriam saído recursos para patrocínio de eventos a pedido de parlamentares. A área era controlada por Wilson Santarosa, que se reportava diretamente ao ex-presidente Lula. Leia aqui. 

Impeachment

Na segunda reunião da comissão especial do impeachment no Senado, hoje, os senadores aprovaram os nomes de quem fará a acusação e a defesa da presidente Dilma Rousseff nos próximos dias. Serão ouvidos os advogados autores da denúncia que deu origem ao processo de impeachment, Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior. Na sexta-feira (29), serão ouvidos o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, responsável pela defesa da presidente;  os ministros Nelson Barbosa (Fazenda) e Kátia Abreu (Agricultura), além de um representante do Banco do Brasil.  Na próxima segunda-feira (2), serão ouvidos, também pela acusação, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Velloso, e o procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), Júlio Marcelo de Oliveira, que identificou o atraso no repasse de recursos para bancos públicos para o pagamento de benefícios sociais, as chamadas pedaladas fiscais. Também está na lista o professor do Departamento de Direito Econômico-Financeiro e Tributário da Universidade de São Paulo (USP), Maurício Conti. Na terça-feira (3), o professor de direito processual penal da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Geraldo Prado; o diretor da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ricardo Lodi Ribeiro, além de Marcelo Lavenère, ex-presidente do Conselho Federal da OAB, que vão falar pela defesa. Leia.

O ministro da Saúde, Marcelo Castro, decidiu entregar sua carta de demissão para a presidente Dilma Rousseff. Ainda não está definido quem ficará no lugar do ministro. Leia aqui.

Dilma

A presidente Dilma Rousseff admitiu a aliados que seu afastamento temporário da Presidência se tornou “inevitável” e decidiu traçar uma agenda para “defender seu mandato” e impedir que o vice Michel Temer “se aproprie” de projetos e medidas de seu governo. Leia.

Numa reunião coordenada pelo ministro Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) e pelo presidente do PT, Rui Falcão, a bancada federal do partido descartou apoiar a convocação de novas eleições para presidente e para vice-presidente (Leia). A idéia de apresentar uma emenda à Constituição para garantir novas eleições é do ex-presidente Lula, mas não agradou aos movimentos sociais e foi considerada “meio inatingível” pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (Leia aqui)
Na reunião de hoje com Berzoini, os deputados petistas traçaram uma estratégia de reação a uma eventual gestão de Michel Temer e decidiram que não farão qualquer tipo de transição de governo. A ordem do Palácio do Planalto é deixar o vice-presidente “à míngua”, sem informações sobre a gestão, e acelerar os programas em andamento pela presidente Dilma Rousseff. Leia aqui.

A presidente concedeu entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN. O programa vai ao ar manhã, mas uma amostra divulgada no Twitter de Amanpour mostra que Dilma enfrentou momentos difíceis. “Não há jeito fácil de fazer a pergunta: a senhora foi considerada uma das piores líderes do mundo, sua popularidade hoje está abaixo de 10% – e isso é muito, muito baixo –, o impeachment passou no Congresso por uma maioria esmagadora que surpreendeu até mesmo seus apoiadores, e a senhora parece não ter muitos amigos no Congresso. A senhora acha que vai sobreviver ao impeachment no Senado?” A presidente tergiversa, afirmando que popularidade não é razão para impeachment. A jornalista da CNN a interrompe: “Eu entendo o que a senhora está dizendo, mas a senhora acha que vai sobreviver?”. Dilma responde que vai lutar para sobreviver. Assista aqui o trecho.

TSE

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou com ressalvas, nesta terça-feira, a prestação de contas referentes a 2010 de oito partidos, entre os quais o PSDB e PMDB. A Corte determinou a devolução de quantias que somam, ao todo, R$ 2,7 milhões aos cofres públicos. Três legendas, o PRTB, o PMN e o PDT, tiveram suas contas desaprovadas. Leia.

 

Um comentário em “Diário da Crise 27/04/2016

  • abril 28, 2016 em 1:05 pm
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    É impressionante, como ela mesmo costuma dizer : ” de estarrecer ” a falta de brio, grandeza, por que não dizer de real patriotismo, noção da realidade e de caráter dessa senhora (?) que um dia, por meios – hoje se sabe com toda a certeza o que antes se desconfiava – fraudulentos, ‘tornou-se’ presidente do nosso País.
    Não é de se esperar nada de louvável vindo dela – é uma representante legal, e verdadeiramente representativa de seu partidinho, o PT, um reflexo deste – a não ser, depois de destruir o Brasil, sua economia, sua reputação, seu progresso e principalmente nível de felicidade, – retirar-se à sua pequenez na História, bem como a de seu partido PT e seu “ídolo” Lula, também a ser legado ao ostracismo.
    Não é, repito, surpresa a atitude vil.

    – Ricardo Daiha –

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