As mãos de minha Mãe

Sonia Zaghetto

Tardezinha, hora do Ângelus, e minha mãe orava no quintal de nossa casa pobre. Mal soavam as seis horas da tarde e ela tudo deixava, cerrava os olhos devagar e fazia o sinal da cruz. Herança portuguesa a de minha mãezinha.

Diante de seus santos silenciosos, do terço e dos cadernos em que anotava os nomes dos sofridos, ela orava. E suas preces sopravam bálsamos de amor sobre mim e meus irmãos, meu pai, parentes distantes, afilhados, comadres e vizinhos. Como amava aquele coração.

Lembro de suas mãos, que pousavam na minha testa nos dias em que a asma me aniquilava. Mãos de mãe. Pele finíssima, veias azuladas. Mãos que receberam meus filhos tão logo eles deixaram meu ventre, pois não houve parto em que ela não estivesse presente, segurando minhas crianças e me pacificando. Mãos de confeito, de bolos, de crochê, de bordados, de desenhos e de letras.

Nem sempre a compreendi. Tolices de infância e arrogâncias da juventude. Ela perdoava, pois dela herdei o temperamento desafiador que só o tempo domou. Tive tempo de lhe dizer o quanto sentia. O longo tempo em que ela lentamente se despediu da vida e eu, em absoluto desespero, me dei conta de que a perdia, que seu sorriso travesso e sua voz firme jamais seriam ouvidos de novo. Fiz promessas, gemi alto, morta de pena de mim mesma.

Abandonei o trabalho e, por exatos treze dias, segurei suas mãos, enrolando os dedos na neve sedosa de seus cabelos. Madalena dos tempos modernos, lavei-as com minhas lágrimas e as enxuguei com meus beijos e sussurros de amor e de gratidão. Em vão. Foi sumindo em meio ao coma, desfazendo o sorriso. E seu silêncio doía.

No sábado, 6 de dezembro,  meu olhar se demorou na máquina de medir vida. Os batimentos cardíacos caíam. Minha mãe morria. Num átimo, pensei em deixá-la partir. Não pude. Meus dedos tocaram no botão de emergência. Acorreram gentes vestidas de branco. A eletricidade percorreu o corpo inerte e o trouxe de novo à quase-vida. Meu coração era um tambor.

Um bom médico pousou a mão no meu ombro e me disse suavemente: “A medicação vai prolongar a vida de sua mãe por poucas horas. Chame seus irmãos e os netinhos. Podem ficar aqui durante toda a noite despedindo-se dela. Chegara a hora da Grande Viagem, como ela mesma dizia.

O dia vinha surgindo quando toquei suas mãos tão frias. Encostei-as no meu rosto. “Estou aqui, mãe”. Um pequeno salto no aparelho de medir vida e os batimentos cardíacos começaram a cair de novo. Mão de ferro me comprimia o peito. Mas por algum mecanismo, divino ou cerebral, ouvi de novo a voz de minha mãe cantarolando uma velha canção de Roberto Carlos, que ela amava.

Já está chegando a hora de ir. Venho aqui me despedir e dizer que em qualquer lugar por onde eu andar, vou lembrar de você. Só me resta dizer agora dizer adeus e depois o meu caminho seguir. O meu coração aqui vou deixar. Não ligue se acaso eu chorar…

Correria, luzes se acendendo. Enquanto enfermeiras e médico se aproximavam, uma paz inexplicável tomou conta de mim. Mantive as mãos dela nas minhas e repeti docemente, tantas vezes que nem sei: Estou aqui. Não tenha medo, mãezinha. Sua filha está aqui. Eu te amo, mamãe. Eu te amo tanto. 

Na hora extrema, quando ruem tantas convicções, curvei-me às crenças dela e, lembrando daquele Jesus que ela tanto amou, disse, com a sincera humildade de quem nada sabe da vida e da morte: Nas tuas mãos entrego o espírito de minha mãe.

Ela me recebeu neste mundo. Eu a acompanhei quando ela o deixou. Como tem de ser.

Minha mãe se foi exatamente como havia desejado, com o sol surgindo em um dia de verão. Despedi-me de seu corpo ao som de passarinhos que cantavam e dos netos que brincavam.

Ao depositar uma flor no túmulo que se fechava, um pedaço do meu coração escapou do peito e se escondeu no lugar em que meus pais repousam.  Não teve coragem de deixá-los sozinhos.

Tantos anos se passaram, e hoje, aqui nesse país distante, há uma igreja cujos sinos tocam todo dia na hora ângelus. E meu coração desfalcado sorri. Um riso triste, de saudade que nunca passa.

Eu te amo, mamãe. Eu te amo tanto.

5 comentários em “As mãos de minha Mãe

  • novembro 25, 2017 em 3:51 pm
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    Sonia, ultimamente nada tem me emocionado tanto e poucas vezes tenho chorado o tanto que chorei hoje com seu belíssimo texto de hoje sobre a sua mãe.
    Ficou a saudade, sei bem.
    Hoje dedico esse poema, que fiz para Minha Mãe, à Sua Mãe.
    Beijos, RicK

    * DOER, NÃO DÓI, SÓ DÁ SAUDADE *

    Doer não dói.
    Dá saudade …
    A dor é reta, objetiva, penetra a fundo, machuca o corpo e a mente.
    A saudade é insinuante, íntima, fere a alma, aperta o coração, rasga as entranhas, infiltra-se na gente, se apodera do pensamento como se seu fosse sómente.
    A dor, imediata, causa e efeito, ação e reação, tudo ou nada.
    A saudade, essa surge nos mais inesperados momentos, insidiosa, sorrateira, sem motivo aparente, mas com toda a razão e a plenitude de ser uma saudade urgente.
    A saudade aninha-se no ar que você respira, simplesmente sonha os sonhos que você sonha, toma posse dos seus dias, reina absoluta, silenciosamente.

    Não dói.
    Só dá saudade …
    A dor um dia passa, o tempo cura, cicatriza, a memória esquece, os anos atenuam, a idade apascenta.
    A saudade é para sempre, para toda a eternidade, intrínseca e atemporal.
    E é tão grande que por vezes é assim difícil mensurar , e até acreditar na sua raiz, sua nata origem, seu berço.
    O quanto a saudade é imensa.

    Mas, mesmo assim, e ainda assim, não dói.
    Dá saudade …
    Só saudade …
    Muita saudade.
    Não dor.
    Só uma saudade intensa.

    A menos que essas lágrimas saudosas, que me correm a face, que me saltam aos olhos, que turvam o meu mundo ao redor, e que me teimam em rolar o rosto como torrencial gotas intermináveis de lembranças da alma, sejam de pura dor em sua forma líquida e densa.

    – Ricardo José Daiha Vieira – RicK –

    * … à minha Mãe.

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  • novembro 25, 2017 em 8:57 pm
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    Sonia querida, uno-me a sua dor. Ao ler sua crônica, não contive as lágrimas pois, insistentes, rolaram, em meu rosto, ao lembrar os tempos de convívio que tive com ela e lembrando dos cuidados com nosso amado Tarcísio. Um beijo e um carinhoso Abraço . Saudades de vocês!

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  • novembro 26, 2017 em 10:24 pm
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    Não pude conter as lágrimas, lembrando-me também da despedida de minha mãe… Que saudade doída…
    Apesar de não conhecê-la pessoalmente, aceite um abraço bem forte, minha amiga.

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  • novembro 29, 2017 em 4:09 pm
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    Muito bonito esse texto, até eu que não sou tão chegado a esse tipo de coisa nao consegui parar de ler até o fim…

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  • novembro 30, 2017 em 10:45 pm
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    Você é uma pessoa maravilhosa! Que texto doce e sensível, mesmo que triste… Não pude deixar de lembrar de minha querida mãe que também partiu em um 6 de Dezembro, já há quase dezessete anos! Também teve um caminho parecido mas um pouco mais prolongado no seu epílogo e não tive a oportunidade e o privilégio de estar ao lado dela nos derradeiros momentos. Obrigado mais uma vez por nos presentear com um texto tão íntimo e tão lindo!

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