Enquanto Agonizo

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
Romance, Mário Faustino
 Levante a mão se, numa noite quente, você lentamente abriu os olhos e perguntou, baixinho: Você está aí? Se está, pode me dizer, por favor, por que razão estou aqui, qual o propósito disso tudo ou por que não posso vê-lo? Ou num dia chuvoso, olhando pela janela enquanto escondia o coração sufocado de saudade, ergueu os olhos para o céu encoberto e sussurrou para alguém: Pai, onde você está? Mãe, pode me ouvir? Filho, tudo se acabou ou algo de você vive ainda, em um lugar além das estrelas?

Na longa caminhada – especialmente nos dias em que tudo parece cinza e os homens me dão a impressão de que são muito irracionais e tolos – as perguntas me espreitam, como a tantos outros antes de mim. Qual a razão da aventura da vida? Onde e quando nasceram compaixão, ódio, amor, gratidão e o desejo de dizer não à morte iminente?

No planeta azul, cogito ultrapassar os limites do humano. Apuro os ouvidos, mas não busco os cânticos dos templos. Quero as notas perdidas da sinfonia celeste de Newton. Pelo olho mágico de um telescópio espio estrelas nascendo no berçário da Áquila; outras morrendo em supernovas espetaculares. Tudo tão minúsculo cá embaixo. Perante o majestoso cortejo dos astros, minha voz é baixa, meu corpo frágil. Meu grito? Mero sussurro.

Sem certezas metafísicas caminho, mas diante da mão pesada da morte não me encolho. Não, não, embora eu adorasse ter respostas. De preferência catalogadas cientificamente e ministradas por alguém com uma sabedoria mansa, olhos de lótus e um sorriso nos lábios.

É que minha morte e eu nos encaramos há muito tempo. Todos os dias ela faz o contorno do meu rosto com seus dedos longos. Flerta comigo e lhe sorrio. Fixo seus olhos amarelos e sussurro: viver para sempre é castigo que não mereço. Sei que agonizo e nisso há um quase prazer. Não gostaria de ser exceção ao grande ciclo que tudo renova. Minha hora está marcada em alguma ampulheta invisível e minhas respirações contadas, felizmente. Resta-me a mente calma a observar a contagem regressiva sem temor enquanto sorvo cada mínima gota da vida. Desarmada, silenciosa, aguardando.

Enquanto a natureza prossegue em seu giro calmo, ouço um lamento a percorrer as galáxias, mergulhar no profundo, buscar o inacessível. Integra um conjunto de joelhos feridos, cabeças cobertas de cinzas, ombros que carregam o mundo.

Soa familiar essa voz que insiste em se estender na direção do silêncio de abismos, águas e sóis. Pertence aos que ainda guardam no peito o temor da hora incerta. Homens que soluçam enquanto administram a vida, com suas dores e paixões, mesquinharias e grandezas, lamentando a dureza do gesto, a palavra áspera, o carinho guardado na mão e a hora que passou.

Vozes que ecoam pelos mundos. Roucas, ansiosas. Perder-se-ão para sempre ou lá, naquele exato local onde o perecível não domina, alguém escuta e sorri?


Pintura. Miranda. John William Waterhouse. 1875.

2 comentários em “Enquanto Agonizo

  • novembro 14, 2017 em 9:45 pm
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    Sem fôlego Sonia Zaghetto, dialogo com seu magnífico texto:

    ** EPITÁFIO PARA UM EXUMADO MORTO VIVO **
    [ III ]
    ( *** TÚMULO *** )

    E ter que aqui voltar agora nessa tardia hora
    Para rever os insepultos amorfos inertes restos
    Exumar da lembrança e da memória os pálidos
    Atormentados nefastos moribundos pensamentos
    Incinerar a saudade no pó de nebulosas cinzas
    Desmaiados alvos cravos perfumados jasmins
    Cremar em pira os beijos e abraços para sempre findos

    E, ainda mais uma, e outra vez mais, e mais
    Aqui retornar ao além por mais um dia
    Rezar pelos queridos talvez um Pai Nosso
    Quem sabe mais uma ou duas orações
    Um terço à Virgem Santa Ave Maria
    Também o Creio Em Deus Pai, amém

    Preparar enfim o solo úmido e carcomido
    Para os que ali também o sono final dormiriam
    A Eternidade, o Fim, o para sempre leito infinito
    Num berço esquecido e escuro túmulo lacrado
    Ora vazio, ora em flores murchas pranteado

    Outra vez, oxalá a última talvez, ter que aqui estar
    Não por mim, por minha vontade própria, por meu querer
    Mas por ter, enfim, chegado o meu dia, meu derradeiro momento
    A minha hora de deitar-me agora à sombra da celestial aurora
    E adormecer dos meus cinco sentidos ao gélido frio e solitário relento

    E, ternamente, e nessa hora mais intimamente ainda
    Reunir-me com a terra tão sagrada e bem mais querida
    O pó que para sempre guardará meu corpo já sem vida
    Meu coração, a alma, os ossos, as cores
    As dores da partida …

    E todos
    Todos os amores
    Idos

    E nunca
    Jamais
    Esquecidos

    Da minha vida.

    – Ricardo José Daiha Vieira – Rick –

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