Diário da Crise 29/04/2016

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A morte de Sócrates. Jacques-Louis David.

“O discurso é um grande soberano que, com o mais diminuto e invisível corpo, executa as mais divinas obras, pois ele pode cessar o medo, arrancar a tristeza, suscitar a alegria e intensificar a compaixão”.  Em um dos mais emblemáticos textos do primeiro movimento sofístico, O Elogio de Helena, o retórico grego Górgias buscou provar o imenso poder das palavras.

Demonstrou que o discurso direciona o pensamento dos homens que, por ele, são persuadidos; torna-os escravos de ideias alheias e os força a confiar no que é dito e a aprovar o que é feito. Palavras podem ser perigosas, dada sua capacidade de arrebatar, confundir e enganar. Um grande orador pode retirar a autonomia dos ouvintes incautos – especialmente os que se habituaram às superficialidades e se desacostumaram à reflexão, à checagem das informações ou ao questionamento do que lhes chega. Frágeis são os que se curvam, inconscientes e dóceis, aos que estão afoitos para lhes conduzir o destino e moldar o pensamento. 

É inescapável a lembrança de Górgias no atual momento brasileiro, em que oradores experientes e publicitários hábeis convencem multidões de que têm razão em seus argumentos. Ao bom observador, entretanto, não escapam a utilização de meias verdades ou de deslavadas mentiras, as repetições insistentes de frases de efeito e a divulgação de teorias com brilhante aparência, mas que não resistem a uma análise séria. Há quem afirme inverdades categoricamente sem ruborizar o rosto. E há quem sacrifique a si mesmo, por ter sido convencido por hábeis palavras.

No Brasil de hoje, torna-se indispensável agir como outro grego de 2.400 anos atrás: Sócrates, que, em um dos diálogos platônicos,  questionou Górgias à exaustão, até ver cair por terra cada uma de suas elaboradas argumentações. É que Sócrates estava escudado pela arguta observação da realidade à sua volta e pela firme convicção de que a retórica deve ser empregada, sempre, com o único propósito de apontar para o que é justo.

Tornou-se, assim, surdo às palavras douradas. Viu-as como eram: apenas palavras. Vãs.

Eis as notícias do dia, plenas de discursos e promessas: 

Às vésperas da votação do impeachment no plenário do Senado, que poderá afastá-la temporariamente do cargo, a presidente Dilma Rousseff chamou de “ridícula” a denúncia que embasa o pedido de seu afastamento e disse que o processo é uma tentativa de chegar ao poder de um grupo que não teve votos suficientes na última eleição presidencial. Leia.

Dilma também pretende anunciar um “pacote de bondades” no evento do Dia do Trabalhador promovido pela CUT, em São Paulo. Na lista estão o reajuste da tabela do Imposto de Renda na Fonte e aumentos tanto para os benefícios do Bolsa Família como para algumas categorias de servidores federais. A ideia é fazer um aceno efetivo à base social do PT e um contraponto ao vice-presidente Michel Temer, que pretende fazer um pente-fino programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida, a fim de identificar fraudes. Leia. 

O ministro da Justiça, Eugênio Aragão, afirmou hoje que a antecipação dos recursos de todo o ano de 2016 para a Polícia Federal até o próximo dia dia 11 é para que a corporação “funcione” mesmo se a presidente Dilma Rousseff for afastada por 180 dias do mandato em razão do processo de impeachment. Leia.

O advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, afirmou nesta sexta-feira (29), na comissão especial do impeachment no Senado, que para haver afastamento da presidente é necessário um “atentado” à Constituição, o que segundo o ministro, não aconteceu durante o governo Dilma Rousseff. Leia. A defesa da presidente durou mais de dez horas.

Cardozo anunciou, ainda, que entrará com requerimento pedindo a suspeição do senador Antônio Anastasia (PSDB-MG) como relator do impeachment no Senado. Leia mais.

Em apoio a Dilma, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, lançou mão de um questionamento hoje: ‘quem nunca atrasou conta?’. A ministra afirmou, na Comissão especial do impeachment do Senado Federal, que o atraso no pagamento de subsídios do Tesouro Nacional para os bancos públicos – processo que ficou conhecido como “pedaladas fiscais” – não representam operação de crédito. Saiba mais.

Michel Temer

O documento que servirá de base a um eventual governo Michel Temer, e que deve ser divulgado na próxima semana, afirma que, na infraestrutura, “tudo” o que for possível deve ser concedido ou privatizado: “O Estado deve transferir para o setor privado tudo o que for possível em matéria de infraestrutura. Quanto às competências que reservará para si, é indispensável que suas relações com contratantes privados sejam reguladas por uma legislação nova, inclusive por uma nova lei de licitações. É necessário um novo começo das relações do Estado com as empresas privadas que lhe prestam serviços”, diz trecho do documento. Leia mais.

Após se reunir por cerca de uma hora com Temer, Henrique Meirelles – que é cotado para o Ministério da Fazenda –  defendeu que a saída para a crise econômica que o Brasil enfrenta depende de investimentos do governo federal em infraestrutura e empréstimos para empresas privadas. Embora continue negando ter sido convidado formalmente para participar de um eventual governo Temer, Meirelles é cotado para assumir o cargo. Leia mais.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou ao vice-presidente um pacote de propostas com 36 medidas a serem implementadas no país, tão logo que crise política seja solucionada. O documento contém, entre outras reivindicações, a aceleração no processo de concessões em infraestrutura, a melhora das condições de crédito às empresas, o ajuste fiscal, a priorização das exportações como motor do crescimento e a realização de reformas tributária, previdenciária e trabalhista. Leia.

O dólar comercial atingiu a sua menor cotação em nove mesma nesta sexta-feira, mesmo com a atuação do Banco Central (BC) no mercado de câmbio. A moeda americana fechou cotada a R$ 3,438 para a compra e a R$ 3,44 na venda, um recuo de 1,68%. No acumulado do mês, a queda chega a 4,4%, refletindo um ambiente de menor aversão ao risco no exterior e expectativa de mudança no cenário político. Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu 0,74%, aos 53.910 pontos, mas no mês acumula ganhos de 7,7%. Leia aqui.

Na contabilidade dos articuladores políticos do PMDB, o impeachment já teria o apoio de 61 senadores, podendo conquistar mais três. Se isso ocorrer, Temer poderá sentar-se à mesa de negociação com os aliados sem ter que se submeter a barganhas. Leia aqui. 

Segundo o jornalista Gerson Camarotti, de forma reservada, diplomatas estão comemorado a possibilidade de o senador José Serra comandar o Ministério de Relações Exteriores num eventual governo Michel Temer. A constatação interna é de que Serra tem capital político para recuperar o prestígio do Itamaraty, que foi extremamente esvaziado durante o governo Dilma Rousseff. Os diplomatas brasileiros estão passando por episódios humilhantes no exterior, com atraso no repasse do auxílio-moradi, e risco de ser despejados de suas residências em várias cidades do mundo, inclusive Nova York. A expectativa é que um Itamaraty turbinado com a Apex e toda a área de comércio exterior possa dar um novo dinamismo ao Ministério de Relações Exteriores. Leia aqui.

Lava Jato

O juiz federal Sérgio Moro abriu ação penal, hoje, contra o marqueteiro do PT João Santana e sua mulher, Mônica Moura, e mais dez pessoas, entre elas o maior empreiteiro do País, Marcelo Odebrecht, e o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, no âmbito da Operação Xepa, 26ª fase da Operação Lava Jato. Eles são acusados por organização criminosa, lavagem de dinheiro e organização criminosa no esquema de cartel e corrupção na Petrobrás. Leia.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir que a Polícia Federal seja proibida de firmar acordos de colaboração premiada. Para Janot, os trechos da Lei das Organizações Criminosas que permitem à PF celebrar esse tipo de acordo com investigados são inconstitucionais, porque violam o devido processo legal e o sistema acusatório. Leia.

TSE

O Partido dos Trabalhadores deve devolver R$ 7 milhões aos cofres públicos por irregularidades das contas do partido de 2010. A decisão é do ministro Luiz Fux do Tribunal Superior Eleitoral, desta quinta-feira (28/4). A Corte não analisou os gastos de campanha da presidente Dilma Rousseff,  somente os recursos recebidos do Fundo Partidário para a manutenção do partido. Leia.

2 comentários em “Diário da Crise 29/04/2016

  • abril 30, 2016 em 9:14 am
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    Essa do Janot, afinal, visa a quê?

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    • abril 30, 2016 em 4:06 pm
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      Bem, ele alega que negociar as colaborações premiadas é uma atribuição do Ministério Público, prevista na Constituição.

      Resposta

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