Vira-lata

“Das criaturas, entre o céu e a terra, foi dado a uma tornar-se especial. É o cachorro vira-lata.

É o rei dos bichos de nome composto, com seu verbo, seu hífen e seu substantivo”.

Alessandro Martins. Ode ao Vira-Lata

 

Estava eu posta em sossego quando surgiu a Maria de Lourdes. Devota de um condenado, robô ou perfil falso? Não sei. O certo é que revirou o dicionário e sacou um comentário: “Sua vira-lata!” Que elogio, Dona Maria! Ah, era para ofender? Desculpe. Pensei que era aplauso.

É que vira-lata é o nome que se dá a um bicho muito bacana, da honorável família canina. Vários deles fizeram parte da minha vida: a Belle Femme, a Gabriela, o Veludinho, a Lobinha e a Deedee.

Aprendi com eles que vira-lata é saudável. Nunca se ouviu falar de um deles contaminado por esses vírus e bactérias que comem cérebro de gente. Não há notícias de vira-lata idolatrando políticos corruptos. Anote aí, Dona Maria!

São também uns animaizinhos bem livres. Só fazem o que bem entendem. Deixam o comportamento acanhado para outros bichos, os adestrados e os sem personalidade, que adoram seguir um líder. Vira-lata não tem dono. Mesmo quando adotado, dá um jeito de fugir, de se esgueirar às convenções. Uma porta entreaberta e lá vai ele descobrir o mundo.

Se em vez daqueles cãezinhos alvos como neve e de pelos impecáveis houvesse um vira-lata em Buckingham, Elizabeth II teria um professor notável: um amigo jamais amedrontado, que une fidelidade e docilidade no trato a um espírito independente. Mistura rara, especialmente perante o poder temporal.

Vira-lata é um cãozinho adaptado, um sobrevivente em meio ao caos. Ao contrário dos cães de apartamento, ele mesmo vai atrás de sua comida, dorme onde dá vontade e não reclama de nada. Talvez ache – como ocorre comigo – que tanto no luxo como no lixo há experiências que fortalecem o caráter, enriquecem a vida e sensibilizam os espíritos. Mais ou menos como Toulouse-Lautrec, que era aristocrata e tinha sobrenome duplo mas ficava mais à vontade no Chat Noir, no Moulin Rouge e no Au Lapin Agile.

Sem pedigree, o vira-lata está livre das mazelas que vitimam as raças ditas muy nobres. A ausência de sangue azul pode ser bênção, especialmente nesses tempos modernos. Uma amarra a menos para quem só se rende à liberdade. Nos consultórios veterinários se lê nas fichas: SRD, sem-raça-definida. É a maravilha suprema: oficialmente não pertencer a qualquer das “raças” puras que olham atravessado e cravam os dentes em quem é diferente.

Por isso discordo do Nelson, o Rodrigues. Andou a falar por aí que brasileiro tem complexo de vira-lata por se achar  inferior. A imagem é boa e forte, mas faltou o Nelson observar melhor os vira-latas. Veria que estes não tem complexo algum. Não lançam olhos de inveja a schnauzers, spaniels e shih-tzus; não se comparam. Quem os considera inferiores são – ora, veja – os humanos!

Perambulando pelas vias que escolhe, o vira-lata toma pedradas aqui, envenamentos ali, água quente na moleira acolá, atropelamentos mais adiante. Esgueira-se quando pode. Foge dos cruéis, esquiva-se aos maníacos, mas nem sempre consegue evitá-los. É do jogo. Segue.

Identifico-me com isso. Vivo vagabundeando por aí, atravessando a rua sem medo, esmolando comida literária. Abano a cauda apenas para o pessoal que me alimenta: Anton, Ivan, Cecília, William, Joaquim, Virginia, George, Truman, Ernest, Oscar, Clarice, François, Émile. São tantos! Chamo-os pelo primeiro nome, pois somos íntimos. Oferecem comida de boa qualidade. Bendigo sempre as mãos deles. Mãos de gente que amava as letras e me ensinou a pensar. Dizem que morreram há muito tempo, mas meu coração canino ainda conversa com cada um deles nas noites de solidão ou de chuva.

Minha saúde anda muito bem. Coisa de vira-lata. O único problema é uma coceira nas orelhas,  que me ataca quando vejo gente fanática. É péssimo: dá vontade de sair correndo. Mas não mordo ninguém por isso. No máximo uns latidos para demarcar meu território. Deixo que sigam, pois a cada um a sua sarna. Que se cocem, pois então.

Nas vias reais e virtuais já fui atropelada e tomei pedradas. Fazer o quê? É da essência de um vira-lata passar por isso. Basta que toda essa gente tão nobre descubra que não somos da “raça” a que pertencem.

A boa notícia é que, na internet ou na vida fora dela, nós, os vira-latas, sempre encontramos umas pessoas com coração de São Francisco, tipo a Martha Felizatti, que faz um carinho na gente, dá uma comidinha cozida em afeto e nos deixa seguir por aí, livres como sempre fomos.

Compensam os que nos escorraçam porque nada compreendem da nossa natureza.

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