Tempo de despertar

sereias
Ulisses e as sereias. John William Waterhouse.

A passeata seguia sem alterações: carro de som, camisas vermelhas, gritos de “Fora, Temer” – tudo dentro do padrão normal de manifestações pró-Dilma Rousseff. De repente, a vida deu uma daquelas reviravoltas inesperadas cuja instantaneidade desarma. Um homem subiu num poste para dar visibilidade e força à sua indignação. Queria marcar posição, ser o mais ativo, provar que não temia ir mais longe quando se tratava de defender sua musa política?  Alguém  filmava o feito à distância, algumas pessoas advertiram: “Você vai morrer!”. Não adiantou. Subiu ainda mais. Veio a descarga elétrica. Uma fração de segundo, a mão no lugar errado e a vida se foi. O homem que filmava se desesperou, gritos ecoaram. O militante estava morto.

Horas depois os comentários na Internet explodiram entre a compaixão risonha (coitado, morreu mas mereceu, né? Foi muito estúpido) e a crueldade atroz (um petista a menos no mundo). Assisti à cena certa de que chegamos ao fundo do poço. Estágio final alcançado: desumanização completa. Ali estava o cadáver de um homem, mas os brasileiros só o enxergaram sob o ângulo da política. Não aquela política que nasceu na antiga Grécia e que forjou as Nações, oferecendo figuras emblemáticas que – embora não sejam perfeitas, pois que humanas – souberam inspirar seus compatriotas em momentos críticos, liderá-los na direção de um objetivo mais nobre e conduzi-los à superação. Não, não. Diante do corpo morto do militante só restou a nossa velha política mesquinha, de sentimentos rasteiros, superficialidade e piadas de mau gosto.

O cadáver daquele homem deveria nos inspirar a mais profunda reflexão. Também ele é uma vítima dessa lavagem cerebral que atinge o Brasil há tantos anos. Foi submetido a um elaborado processo de manipulação que tem várias abordagens e camadas. Aqui volto aos clássicos gregos, muito conscientes da importância do discurso como instrumento de persuasão dos ouvintes. Nos governos petistas, quem não foi convencido pelo tilintar das moedas ou pela concessão de cargos e vantagens, foi alvo do poder extremado da persuasão. É a esses últimos que me refiro.

Bem verdade que o PT e seus aliados não inventaram a arte de convencer incautos, mas – reconheçamos – souberam usá-la como nunca antes na história desse país. Fizeram escola. Se aqui vivesse, o bom e velho Aristóteles teria belos exemplos práticos para adicionar a seu tratado sobre a retórica. Não porque nossos políticos sejam oradores excepcionais, longe disso; mas porque sabem manipular perfeitamente um dos aspectos do discurso – pathos, as emoções dos ouvintes. O resultado é esse ódio que nos divide. As paixões foram insufladas a tal ponto que esses senhores da política – tão indignos – se tornaram donos de nossa vida e morte. Para servi-los, abrimos mão de reflexão, bom-senso e até das regras mínimas de civilidade. Entregamos de mão beijada não apenas os votos, mas também alma e os sentimentos. Por eles rompemos com os amigos e cuspimos na família. É quase uma síndrome de Estocolmo coletiva: eles nos violentam, sequestram e extorquem, mas os defendemos incondicionalmente e fechamos os olhos para suas graves faltas ou seu péssimo caráter. Alguns se converteram em sumo-sacerdotes da seita fanática na qual os seguidores optaram pela cegueira voluntária: não há denúncia, prova, escândalo ou testemunho que os faça acreditar que seus ídolos tem pés de barro. Outros se tornaram os malvados favoritos, um triste eufemismo para consolar quem quer apenas evitar um mal que considera maior.

Falta a grande parte dos brasileiros a necessária maturidade para encarar de frente as opções equivocadas. Falta-lhes coragem para enxergar que têm dado voto (inclusive de confiança) para coronéis de cabelo pintado de acaju, sindicalistas malandros, gerentonas incompetentes, corruptos reincidentes e mal-educados que posam de porta-voz da moral e dos bons costumes. Falta, a muitos de nós, humildade para reconhecer que somos, sim, manipulados. Que amamos, odiamos e votamos de acordo com as emoções turbilhonadas e não sob o signo da reflexão desapaixonada e profunda.

Para preencher a ausência de uma figura digna para conduzir o país, adotamos falsos ídolos. Gente bem torta, mas altamente idealizada por nossa fértil imaginação. A publicidade nos apresenta tais pessoas em belas embalagens e com slogans emocionantes. Pretendem ser como comfort food, aquela comida que vai lá dentro do coração e desperta doces memórias. É assim que surgem os fãs-clubes de corações valentes, dos heróis  do povo, dos operários analfabetos que venceram na vida e dos defensores da família ameaçada. Nós os associamos a pais que cuidam da prole, a destemidos cavaleiros andantes ou ao herói que nasce pobre e, por sua bondade e caráter, consegue ser aceito entre a nobreza. O problema é que, nesse caso, o que nos é oferecido não é um alimento nutritivo e saboroso, mas junk food, a comida ruim que compromete a saúde embora pareça deliciosa. Manipulados por marqueteiros, não nos damos conta de que consumimos batata gordurosa como se fosse a madeleine de Proust. Nem que enxergamos o manto da pobreza sobre os ombros dos que vivem como fidalgos.

Quando flagrados num passo em falso, em escândalos e ladroagens, os ídolos fabricados fazem ares compungidos. Nada sabem, nada viram. São perseguidos, caluniados e vítimas. Basta um gingado matreiro, uma frase de efeito, uma lágrima de crocodilo pingando na gravata de seda, e seu público esquece a realidade palpável. Mergulham todos novamente no grande e fantasioso mundo dos apaixonados, que se creem únicos embora vivam num harém. Passado aquele breve momento de dúvida, apagam da memória a farta lista de crimes de seus amados e voltam a acreditar no grande guerreiro vencedor das desigualdades, na mãe dos desvalidos, no salvador, no autoproclamado defensor das minorias, na inexistência de contas na Suíça.

A pergunta que me faço é: como escapar dos que nos atiram uns contra os outros? Recorrerei a outro grego famoso, Homero, e a uma das mais emblemáticas passagens de sua Odisséia. No trecho, o herói de mil ardis, Ulisses, é advertido de que atravessará o território das sereias. Estas são enganadoras e seu belo canto arrasta os homens para abismos de morte. Como escapar desse cantilena que está em toda parte? Tapando os ouvidos com cera! Mas Ulisses não se conforma em ser surdo – tapar os ouvidos é solução que ele reserva aos subordinados, gente fraca, nascida para obedecer. Ele é um herói e quer mais: deseja ouvir e, mesmo assim, escapar da armadilha. Ata-se, então, a um mastro do navio. E ordena a seus homens que, quando tentasse escapar dos grilhões, eles remassem mais rápido. E assim ocorreu.

Se é para termos um modelo, que seja Ulisses. As sereias estão por aí, em nosso caminho. Bem orientadas por especialistas, seu canto é sedutor, pois dizem exatamente o que seu público deseja ouvir. Afivelam no rosto belas máscaras – e elas são tudo o que se vê. Não se pode fingir surdez, mas se pode resistir a seu canto, desde que bem atados às colunas do raciocínio claro e da mente que tudo examina. E se a sedução da cantiga nos tentar, com seus argumentos sofistas, surgirão velhos amigos – homens, livros, questionamentos, debates – para nos arrancar do território perigoso. Só assim escaparemos a esse encantamento odioso que nos faz rir diante do cadáver de uma vítima das sereias. Sim, rir da vítima nos mostra que a manipulação não se restringe aos seguidores cegos do petismo, mas atinge também seus adversários, que acabam por perder o controle sobre si mesmos. Com a mão esquerda, as modernas sereias mantêm subjugados seus fiéis; enquanto, com a direita, transformam seus inimigos em insanos, que chegam a apoiar corruptos apenas com o fito de combater o que consideram um mal maior. De qualquer forma, elas estão no comando e claramente se nutrem da milenar estratégia: dividir para conquistar.

O horror dessa nossa época é que há sempre um guru de plantão, pronto a abocanhar as almas desavisadas e apresentar a elas um novo deus. Os raros sábios do futuro serão os que imitarem Ulisses. Estes abrirão mão de gaiolas douradas, porta-vozes, mães da Nação e pais dos pobres. Tomarão para si o posto do herói que tudo examina à luz da razão e não faz concessões a criminosos. Reservarão aos políticos o cargo administrativo que lhes cabe e não o papel de ídolos. Sem firulas e projeções emocionais, tomando nas mãos as rédeas do próprio destino, abandonando visões românticas e recusando as ofertas do populismo barato. O problema é que isso dá um bruto trabalho e, como todos sabem, na Terra Brasilis a prioridade é relaxar, divertir-se, apreciar o carnaval, os feriados e os fins de semana. Quem sabe iniciaremos a tarefa em 2017? Ou 2018 – após a Páscoa, é claro.

Um comentário em “Tempo de despertar

  • agosto 9, 2016 em 3:24 pm
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    A Rainha das Metáforas !
    Soberbo Sonia Zagueto, desnecessário é qualquer comentário mais !
    RicK

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