Diário de Montreal – The Black Watch

 

Sonia Zaghetto

Uma chuva gelada caía sobre Montreal e a temperatura estava abaixo de 4 graus. Um vento constante varria as ruas da cidade. Mas nada disso nos fez desistir de acordar cedo no domingo para assistir à parada dos Black Watch. O desfile do legendário Batalhão de Infantaria do Regimento Real Escocês (Royal Regiment of Scotland) no Canadá é um programa imperdível para quem se interessa pela história de outros países. Ao som das tradicionais gaitas de foles, usando kilts e o famoso gorro enfeitado com pompons de lã vermelha, eles atraem todos os olhares e evocam episódios emocionantes e trágicos da história canadense.… leia mais

Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte.… leia mais

Pandora

Pandora. Por John William Waterhouse

Às seis da manhã, em Montreal, ligo o computador para ver as notícias do Brasil. A primeira delas me afronta. Uma faixa carregada por torcedores proclama a extensão de nossa miséria: “Somos todos Bruno”. Refere-se ao goleiro acusado de matar e mandar atirar aos cães o corpo de Eliza Samudio. As demais notícias dão conta da monstruosa teia de corrupção que enreda o país.

Ponho a chaleira no fogo, vejo a neve que derrete lá fora e algo como uma dor lancinante vai tomando conta deste meu coração saudoso. Sinto que a aparentemente infinita caixa de tragédias ainda não se esgotou.… leia mais

Diário de Montreal – Via Crucis

Na Semana Santa eu me dediquei a observar de perto a movimentação em Montreal. A província do Quebec tem uma relação dificílima com a religião católica. Como um relacionamento familiar profundamente desgastado entre pais e filhos muito ressentidos, grande parte da província hoje rejeita a Igreja em vários aspectos, mas a influência católica sobrevive no DNA deste lugar tão singular. Ainda está lá, silenciosa, nas grandes catedrais e na tradição que se imiscui nas datas festivas, reiventando-se a cada dia.

Comecemos por um pouco de história. Um fato determinante no Quebec é a chamada Revolução Tranquila (La Révolution Tranquille), que ocorreu em meados dos anos 60 e se estendeu pela década seguinte.… leia mais

Sal na moleirinha

Mais de R$ 450 milhões foram distribuídos pela Odebrecht a políticos das três esferas do governo, aponta levantamento do jornal “O Estado de São Paulo”. Um número capaz de escandalizar qualquer cidadão decente. Não aqui, no país da superlativa corrupção, onde Marcelo Odebrecht fala de quantias assombrosas como se mencionasse troco de picolé. Não na terra em que muitos denunciados continuam a desfrutar do apoio incondicional de sua legião de fanáticos.

O conteúdo dos depoimentos de Marcelo Odebrecht e seu pai é igual à morte anunciada de um parente: intuímos o que vai ocorrer e acreditamos estar preparados, mas, na hora que acontece de verdade, sobrevém o baque doloroso.

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Diário de Montreal: Mozart, neve, poesia

April, April, der weiß nicht was er will. 
Mal Regen und mal Sonnenschein,
Dann schneit’s auch wieder zwischendrein.
April, April, der weiß nicht was er will

Nun seht, nun seht, wie es wieder stürmt und weht.
Und jetzt, oh weh, oh weh,
Da fällt auch dicker Schnee.
April, April, der weiß nicht was er will.”*

Abril chegou em Montreal. Com ele veio a primavera encharcada de chuva e, por vezes, plena de sol. Entre estes – como dizem os versos infantis alemães – há neve.

Há algo de profundamente poético na neve que cai. Começa com uns flocos finos, quase uma chuva branca, que o vento carrega e deposita, com mãozinhas invisíveis, na ponta dos galhos das árvores.… leia mais

Sergei Diaghilev: o gênio que revolucionou o ballet

Se há um nome capaz de traduzir a elegância da alta cultura que vicejou na Europa no começo do século 20 é o de Sergei Diaghilev. Empresário de sucesso, amigo e mecenas dos mais importantes artistas de sua época, durante vinte anos ele maravilhou o mundo com o esplendor da arte russa, revolucionou o ballet e revelou o talento de alguns dos  maiores nomes da arte contemporânea.

Serguei Pavlovich Diaghilev nasceu em Perm, na Rússia, em 31 de março de 1872 e consagrou-se como o mais famoso empresário artístico do início do século 20. Sua maior realização foi a criação dos Ballets Russes, a lendária companhia que lançou o primeiro bailarino de fama mundial: Vaslav Nijinsky.… leia mais

Todos os azuis da Florida

Chegamos à Florida no dia 21 de fevereiro, para buscar os últimos documentos e fotografias históricas que minha tia Celia havia guardado durante muitos anos. Viúva, aos 78 anos, Celia vai viver em uma casa de repouso para idosos na qual poderá receber os cuidados que sua saúde delicadíssima requer. Foi uma escolha dela. Acredito que é um último ato de independência de uma mulher que jamais se curvou a imposições ou tornou suas as escolhas alheias.  Vivendo há 41 anos nos Estados Unidos, ela incorporou o jeito americano de viver.

Diante do diagnóstico de uma doença degenerativa, visitou várias clínicas na cidade em que vive uma de suas irmãs.… leia mais

Ponte binacional: sucessão de vexames

Após 6 anos de sua conclusão, a ponte binacional sobre o rio Oiapoque – ligação terrestre entre os territórios brasileiro e francês – foi semi-inaugurada neste sábado, 18 de março. Foi mais um capítulo melancólico na história de um projeto que se arrasta há 20 anos, custou 70 milhões aos dois países e cujo atraso frustra quem conhece seu potencial para incrementar a economia de uma região historicamente carente de investimentos em saneamento básico, transporte, saúde, educação e segurança pública e de fronteiras.
A ministra francesa do Meio Ambiente, Ségolène Royal, até tinha confirmado presença na inauguração, mas não compareceu. Nenhum ministro brasileiro também prestigiou a inauguração da ponte anunciada em 1997 pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jacques Chirac, e que teve a pedra fundamental lançada por Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy em 2008.
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Despedida

 Para Wanda, que hoje dança nas estrelas

.

Nesta rua tem um bosque

Que se chama solidão,

Dentro dele mora um anjo

Que roubou meu coração.

 

Anjo querido, como são finos estes teus dedos que entrelaças nos meus.

Algemas de um veludo que pesa…

De um tempo que se perdeu.

Adeus, adeus rio de águas claras,

Adeus, perfumes da mata,

Comidas de domingo, canções de ninar

Casas de madeira, canoas e festas? Adeus.

Adeus risos de menina,

Histórias de infância,

Crianças arteiras e laços de fita

Mocinhas risonhas, soldados bonitos.

Adeus vestido de noiva,

Anel no dedo quebrado.

Adeus partos e lágrimas.leia mais