Cry me a river

Joesley chorou ao ser preso.
Geddel chorou na cadeia.
Assim como choraram, na tribuna e nos palanques, Eduardo Cunha, Lula, Delcídio, Collor, Sergio Cabral.
Nós, os pagadores de impostos, não nos compadecemos perante lágrimas de criminosos disfarçados de empresários e políticos.
É que já choramos demais.
Choramos pela roubalheira desenfreada,
pelos hospitais públicos caindo aos pedaços,
pelos remédios que apodrecem sem uso,
pelos livros jogados em lixeiras,
pelas escolas sucateadas,
pela falta de apoio à ciência,
pelas universidades à míngua,
pelos fundos de pensão dizimados,
pela Petrobras loteada,
pela Amazônia devastada,
pela distribuição de cargos a apadrinhados tecnicamente incompetentes,
pelas estradas esburacadas,
pelos policiais mortos,pelas bibliotecas e teatros abandonados.
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O Brasil que espia e aguarda

“O Brasil é muito impopular no Brasil” – Nelson Rodrigues

A tarde, num parque de Montreal, estava adorável. O público se esticava no gramado, esperando a apresentação das três principais orquestras da cidade. Mais de 400 músicos e cantores no palco. O sol se punha, pincelando de rosa e laranja o céu clarinho. Vivaldi, Leonard Cohen e Orff enchiam o ar. De repente, o coração deu um salto, veio até a boca e sussurrou algo nos meus ouvidos: os primeiros acordes de uma cantilena. Carregava consigo uma voz de uirapuru, peixes coloridos e a lua surgindo sonhadora e bela em meio às árvores da Amazônia imensa.  … leia mais

A boa fé do cidadão

Já dizia o bom e velho Aristóteles: a virtude é uma disposição interna para agir corretamente e que o cidadão aprimora pelo hábito. Demorou alguns séculos para que os gregos antigos aperfeiçoassem o conceito de areté, que traduzia a noção de excelência no cumprimento do papel que cada indivíduo ou coisa tinha na sociedade. Os filósofos participaram dessa evolução.

Faltam filósofos no Brasil. Não os tivemos jamais. Nos dias atuais, então, em que filósofo de verdade é artigo raro no planeta todo, no máximo caminham entre nós uns aspirantes a guru, arremedos de pensadores, incapazes de ocultar a vaidade e a sede de curtidas no Facebook.… leia mais

Pandora

Pandora. Por John William Waterhouse

Às seis da manhã, em Montreal, ligo o computador para ver as notícias do Brasil. A primeira delas me afronta. Uma faixa carregada por torcedores proclama a extensão de nossa miséria: “Somos todos Bruno”. Refere-se ao goleiro acusado de matar e mandar atirar aos cães o corpo de Eliza Samudio. As demais notícias dão conta da monstruosa teia de corrupção que enreda o país.

Ponho a chaleira no fogo, vejo a neve que derrete lá fora e algo como uma dor lancinante vai tomando conta deste meu coração saudoso. Sinto que a aparentemente infinita caixa de tragédias ainda não se esgotou.… leia mais

Sal na moleirinha

Mais de R$ 450 milhões foram distribuídos pela Odebrecht a políticos das três esferas do governo, aponta levantamento do jornal “O Estado de São Paulo”. Um número capaz de escandalizar qualquer cidadão decente. Não aqui, no país da superlativa corrupção, onde Marcelo Odebrecht fala de quantias assombrosas como se mencionasse troco de picolé. Não na terra em que muitos denunciados continuam a desfrutar do apoio incondicional de sua legião de fanáticos.

O conteúdo dos depoimentos de Marcelo Odebrecht e seu pai é igual à morte anunciada de um parente: intuímos o que vai ocorrer e acreditamos estar preparados, mas, na hora que acontece de verdade, sobrevém o baque doloroso.

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