Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte.… leia mais

Diário de Montreal: Mozart, neve, poesia

April, April, der weiß nicht was er will. 
Mal Regen und mal Sonnenschein,
Dann schneit’s auch wieder zwischendrein.
April, April, der weiß nicht was er will

Nun seht, nun seht, wie es wieder stürmt und weht.
Und jetzt, oh weh, oh weh,
Da fällt auch dicker Schnee.
April, April, der weiß nicht was er will.”*

Abril chegou em Montreal. Com ele veio a primavera encharcada de chuva e, por vezes, plena de sol. Entre estes – como dizem os versos infantis alemães – há neve.

Há algo de profundamente poético na neve que cai. Começa com uns flocos finos, quase uma chuva branca, que o vento carrega e deposita, com mãozinhas invisíveis, na ponta dos galhos das árvores.… leia mais

Por uma vida menos ordinária

A experiência de viver em outro país exige que o olho se acostume a novas paisagens e a alma a outros hábitos. Ontem e hoje dediquei algumas horas a observar este novo mundo, a partir de minha janela.

Depois de uma nevasca de dois dias, os esquilos desapareceram completamente, assim como os carros dos vizinhos, que ficaram soterrados pela neve. Durante a manhã, pais levaram seus filhos normalmente à escola, todo mundo saiu para trabalhar, o carteiro passou entregando a correspondência e muita gente levou seus animais de estimação para caminhar. A vida segue normalmente, apesar da neve, do frio e do vento cortante. … leia mais

Arte, arte em toda parte!

Le temps de s’adorer
De se le dir’… Le temps
De s’fabriquer des souvenirs…
(Piaf. Mon Dieu)

Pour toi, mon fils adoré.

A música estava bem pertinho dos ouvidos e do coração. Na segunda fileira de bancos, ouvíamos a respiração dos músicos, acompanhávamos os sorrisos e olhares que trocavam, captávamos quando a melodia escapava dos instrumentos e estendia suas carícias até nós. As notas fluíam pela nave da catedral anglicana Christ Church, em Montreal, visitavam os santos e os escaninhos, salpicando bálsamos na alma da gente. De vez em quando, meu filho se voltava para mim, com os olhos brilhantes e um sorriso feliz e cúmplice.… leia mais

De neve e de sol

Fiz uma longa reflexão sobre a neve.

Rebeca, minha nora, me disse que, em geral, aqui em Montreal as pessoas ficam mais introspectivas nessa época do ano. É um tempo para ficar em casa, dar atenção à família e de refletir sobre si mesmo. No verão, quando as temperaturas são dignas de verão carioca, é uma efervescência: churrascos, festas na rua, todo mundo varando as noites.

Até os relacionamentos aqui seguem esse ritmo ditado pela temperatura dos dias. O verão é a época de conseguir um namorado ou namorada. No outono se cultiva esse relacionamento. No inverno, é a consolidação. Quase ninguém se separa no inverno – mesmo porque dá um trabalho enorme fazer mudança a uma temperatura de 20 graus negativos.… leia mais

E a vida segue calma em Montreal

Aqui no Quebec a vida segue calma. Acordo muito cedo, em torno de 5h30 da manhã. Leio, atualizo o blog, tomo o café da manhã e trabalho no livro até as 16 horas. Durante o dia inteiro, completa paz, silêncio e chá preto. No fim do dia, uma hora de yoga. Preparo o jantar e espero Alex chegar da Universidade, enquanto dou uma rápida olhada nas redes sociais e nos sites de notícias.

Ontem, a única alteração digna de nota foi a energia elétrica, que sumiu no meio da tarde. De imediato olhei para o casaco, anotei mentalmente onde estavam minhas botas e, dramaticamente, me imaginei sendo encontrada daqui a 800 mil anos sob um bloco de neve, abraçada a vários livros.… leia mais