Blue Jay

1920. Alberta, no atual Canadá.

Sete meses foi o tempo que a mãe de Pássaro Azul precisou para terminar o vestido. A neve chegou e se foi, as flores cobriram a planície e agora, somente com o sol de verão e as fortes chuvas, pôde concluir a roupa de lã vermelha, cor de sangue vivo, com duas fileiras de pequenos enfeites de porcelana em forma de gota. Quem olhasse de longe poderia confundi-las com fios de pérolas. Os olhos da mãe sorriram quando se demoraram sobre o peitilho do vestido bordado de miçangas brancas e canudinhos prateados. Quem, entre os Nakoda, teria vestido com tal beleza uma filha?… leia mais

Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte.… leia mais

A gente quer comida, diversão, ballet

Tenho trabalhado no livro. Vê-lo nascer é uma expectativa semelhante à de uma gravidez: entre a angústia e a felicidade, alguns temores e desejos.  Mas hoje vou fazer uma pausa. Pretendo desfrutar de uma apresentação de O Lago dos Cisnes. Já imagino a música de Tchaikovsky escapando dos instrumentos musicais, a leveza das bailarinas, a graça e a força da dança clássica, os cenários exuberantes e ricas vestimentas. E meu coração faz pas de deux com a felicidade antecipada.

Não há como evitar a sensação de que a arte resgata algo de espiritual e puro em mim. Tem a mágica de me transportar para um lugar inalcançável ao humano.… leia mais

Por uma vida menos ordinária

A experiência de viver em outro país exige que o olho se acostume a novas paisagens e a alma a outros hábitos. Ontem e hoje dediquei algumas horas a observar este novo mundo, a partir de minha janela.

Depois de uma nevasca de dois dias, os esquilos desapareceram completamente, assim como os carros dos vizinhos, que ficaram soterrados pela neve. Durante a manhã, pais levaram seus filhos normalmente à escola, todo mundo saiu para trabalhar, o carteiro passou entregando a correspondência e muita gente levou seus animais de estimação para caminhar. A vida segue normalmente, apesar da neve, do frio e do vento cortante. … leia mais

De neve e de sol

Fiz uma longa reflexão sobre a neve.

Rebeca, minha nora, me disse que, em geral, aqui em Montreal as pessoas ficam mais introspectivas nessa época do ano. É um tempo para ficar em casa, dar atenção à família e de refletir sobre si mesmo. No verão, quando as temperaturas são dignas de verão carioca, é uma efervescência: churrascos, festas na rua, todo mundo varando as noites.

Até os relacionamentos aqui seguem esse ritmo ditado pela temperatura dos dias. O verão é a época de conseguir um namorado ou namorada. No outono se cultiva esse relacionamento. No inverno, é a consolidação. Quase ninguém se separa no inverno – mesmo porque dá um trabalho enorme fazer mudança a uma temperatura de 20 graus negativos.… leia mais