Simplicidade

Silence tells me secretly everything (Let the sunshine in). 

Sinto um prazer imenso quando os domingos nascem mergulhados em silêncio. É como se as coisas simples da vida acordassem junto com a gente.

Brasília é pródiga em passarinhos piando ao amanhecer. Ouvi-los, uma delícia reservada a ouvidos onde o amor fez morada.

Se há vento para agitar as folhas das árvores, tenho-o como lucro na contabilidade da vida. E se o ruído de algum carro quebra o encanto das horas, cogito seriamente liderar uma cruzada nacional para que só se saia de carro aos domingos em casos muito urgentes, como parto iminente, perna quebrada, caso de doença grave ou vontade de cantar “Good morning starshine” num conversível.… leia mais

Copo de passarinho

A casa era de madeira e a mesa havia sido feita por meu pai, marceneiro amador. Sobre ela, a toalha de motivos natalinos, bordada em ponto-cruz por minha mãe.

No canto da sala estava a árvore de Natal. Um pinheiro de galhos fininhos que, no dia 1 de dezembro, a mãe decorava com flocos de algodão e delicadas bolas de vidro colorido que ela guardava em uma caixa, no alto do guarda-roupa.  Os enfeites de vidro eram muito frágeis. Uma distração e eles escorregavam das mãos, espatifando-se em mil pedaços. Era uma honra subida receber a tarefa de colocar uma das mini jóias no pinheirinho.… leia mais

As mãos de minha Mãe

Sonia Zaghetto

Tardezinha, hora do Ângelus, e minha mãe orava no quintal de nossa casa pobre. Mal soavam as seis horas da tarde e ela tudo deixava, cerrava os olhos devagar e fazia o sinal da cruz. Herança portuguesa a de minha mãezinha.

Diante de seus santos silenciosos, do terço e dos cadernos em que anotava os nomes dos sofridos, ela orava. E suas preces sopravam bálsamos de amor sobre mim e meus irmãos, meu pai, parentes distantes, afilhados, comadres e vizinhos. Como amava aquele coração.

Lembro de suas mãos, que pousavam na minha testa nos dias em que a asma me aniquilava.… leia mais