Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte.… leia mais

Diário de Montreal – Via Crucis

Na Semana Santa eu me dediquei a observar de perto a movimentação em Montreal. A província do Quebec tem uma relação dificílima com a religião católica. Como um relacionamento familiar profundamente desgastado entre pais e filhos muito ressentidos, grande parte da província hoje rejeita a Igreja em vários aspectos, mas a influência católica sobrevive no DNA deste lugar tão singular. Ainda está lá, silenciosa, nas grandes catedrais e na tradição que se imiscui nas datas festivas, reiventando-se a cada dia.

Comecemos por um pouco de história. Um fato determinante no Quebec é a chamada Revolução Tranquila (La Révolution Tranquille), que ocorreu em meados dos anos 60 e se estendeu pela década seguinte.… leia mais

Diário de Montreal: Mozart, neve, poesia

April, April, der weiß nicht was er will. 
Mal Regen und mal Sonnenschein,
Dann schneit’s auch wieder zwischendrein.
April, April, der weiß nicht was er will

Nun seht, nun seht, wie es wieder stürmt und weht.
Und jetzt, oh weh, oh weh,
Da fällt auch dicker Schnee.
April, April, der weiß nicht was er will.”*

Abril chegou em Montreal. Com ele veio a primavera encharcada de chuva e, por vezes, plena de sol. Entre estes – como dizem os versos infantis alemães – há neve.

Há algo de profundamente poético na neve que cai. Começa com uns flocos finos, quase uma chuva branca, que o vento carrega e deposita, com mãozinhas invisíveis, na ponta dos galhos das árvores.… leia mais

Um violinista sem fronteiras

-Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu  ansiava por sentir a alma judaica-russa transbordando nas telas.

Passeamos pela vizinhança do museu, admirando as amplas avenidas, os hotéis de luxo, galerias e lojas de grife. Meio Nova York, meio Paris. … leia mais

A gente quer comida, diversão, ballet

Tenho trabalhado no livro. Vê-lo nascer é uma expectativa semelhante à de uma gravidez: entre a angústia e a felicidade, alguns temores e desejos.  Mas hoje vou fazer uma pausa. Pretendo desfrutar de uma apresentação de O Lago dos Cisnes. Já imagino a música de Tchaikovsky escapando dos instrumentos musicais, a leveza das bailarinas, a graça e a força da dança clássica, os cenários exuberantes e ricas vestimentas. E meu coração faz pas de deux com a felicidade antecipada.

Não há como evitar a sensação de que a arte resgata algo de espiritual e puro em mim. Tem a mágica de me transportar para um lugar inalcançável ao humano.… leia mais

Uma biblioteca de bairro

Em Montreal o carnaval é um eco distante que chega pelo Facebook. A vida segue sem feriados, sem dias de folia e também sem a pancadaria que vi alguns amigos denunciando. O ano de trabalho e estudo já começou: por volta do dia 10 de janeiro.

Meu filho me convidou para conhecer a Biblioteca do bairro em que moramos, Rosemont-La Petite Patrie. Era um domingo à tarde e a casa estava cheia. Há um saudável hábito de ler nas bibliotecas públicas, que também servem como espaço de lazer e diversão. Observei neste universo paralelo um intenso calendário de atividades, oportunidade de integração cultural em família e com a vizinhança, além de clube de leitura.… leia mais

E chegou o sol

Se há algo que Montreal está me ensinando é como aproveitar cada momento da vida, tirando o melhor de situações potencialmente adversas. É um povo que não curva ao inverno, que não deixa de fazer coisa alguma por causa da baixa temperatura, das calçadas escorregadias, dos montes de neve acumulados por toda parte.

Depois de três dias e 30 centímetros de neve, eis que o sol chegou. Derreteu uma parte da neve, o vento gelado deu um alívio, os esquilos reapareceram e todo mundo foi patinar e brincar com os filhos no parque. Temperatura de “apenas” -5 graus.

É muito mais agradável caminhar na rua sem aquele vento cortante fustigando o rosto.… leia mais

Por uma vida menos ordinária

A experiência de viver em outro país exige que o olho se acostume a novas paisagens e a alma a outros hábitos. Ontem e hoje dediquei algumas horas a observar este novo mundo, a partir de minha janela.

Depois de uma nevasca de dois dias, os esquilos desapareceram completamente, assim como os carros dos vizinhos, que ficaram soterrados pela neve. Durante a manhã, pais levaram seus filhos normalmente à escola, todo mundo saiu para trabalhar, o carteiro passou entregando a correspondência e muita gente levou seus animais de estimação para caminhar. A vida segue normalmente, apesar da neve, do frio e do vento cortante. … leia mais

Arte, arte em toda parte!

Le temps de s’adorer
De se le dir’… Le temps
De s’fabriquer des souvenirs…
(Piaf. Mon Dieu)

Pour toi, mon fils adoré.

A música estava bem pertinho dos ouvidos e do coração. Na segunda fileira de bancos, ouvíamos a respiração dos músicos, acompanhávamos os sorrisos e olhares que trocavam, captávamos quando a melodia escapava dos instrumentos e estendia suas carícias até nós. As notas fluíam pela nave da catedral anglicana Christ Church, em Montreal, visitavam os santos e os escaninhos, salpicando bálsamos na alma da gente. De vez em quando, meu filho se voltava para mim, com os olhos brilhantes e um sorriso feliz e cúmplice.… leia mais

E a vida segue calma em Montreal

Aqui no Quebec a vida segue calma. Acordo muito cedo, em torno de 5h30 da manhã. Leio, atualizo o blog, tomo o café da manhã e trabalho no livro até as 16 horas. Durante o dia inteiro, completa paz, silêncio e chá preto. No fim do dia, uma hora de yoga. Preparo o jantar e espero Alex chegar da Universidade, enquanto dou uma rápida olhada nas redes sociais e nos sites de notícias.

Ontem, a única alteração digna de nota foi a energia elétrica, que sumiu no meio da tarde. De imediato olhei para o casaco, anotei mentalmente onde estavam minhas botas e, dramaticamente, me imaginei sendo encontrada daqui a 800 mil anos sob um bloco de neve, abraçada a vários livros.… leia mais