Fevereiro, noite quente, abafada. O público descia escadas curvilíneas até chegar ao palco do pequeno teatro. Sem o brilho do luxo e da popularidade frívola que seduz incautos, apenas os iniciados ali estavam. E os amigos.
Sorte deles. Foi somente esse grupo de privilegiados que viu a grande mágica se desvelar diante dos olhos. No princípio era o breu. Logo fez-se luz. E música. Só então surgiu o medo. Da chuva, da dor e da morte.
Sob as gotas de uma tempestade emocional, a mulher-elefante tremia, dentes se chocando de pavor enquanto trovões ressoavam cada vez mais intensos. Gritava, guinchava, contorcia-se. O medo a consumia na cela mental onde solidão e desespero devoram as almas.

Mas ela – que guardava no peito a centelha da esperança – soprou corajosamente uma boia, dessas de plástico, e agarrou-se ao objeto, tão frágil, fazendo-se a salvo, mesmo que por breves instantes. Poderia agora vir a chuva, soprarem os ventos, brilharem coriscos no céu: ela tinha uma boia. Minúscula, quase um nada, mas inflada pelos ares de um desejo imenso de viver. Não era ainda hora de se afogar nas grandes águas. Ela viveria.

Logo, surgiu em cena um homem que não se curvava perante a adversidade. Ignorava o cansaço, gritava de dor, mas prosseguia. Agarrava-se à luta com joelhos em sangue e a exaustão sequestrando as últimas forças. Gritava, quase extenuado, o corpo trêmulo e moído, as pernas bambas, mas vivo, pelejando, indomável. Viver ainda era preciso.

O espetáculo seguia, expondo as feridas e desassossegos com um corpo  que se tornara adversário das fantasias e refém das convenções. É preciso vencer seus limites, domá-los, triturá-los, reduzi-los a um nada perante a grandiosidade dos sonhos.

Por fim vieram fantasias de amor desfeitas. Risos artificiais, fugazes balões de sentimentos perdidos. Distância, saudade, beijos em quem não estava presente, boca e dentes se chocando contra imagens fugidias em vez da pele amada. O desespero era palpável, bruto. A mão picava cebolas e as lágrimas vinham – se das cebolas ou daqueles corações em tumulto, ninguém jamais saberia.

Somente no fim do espetáculo, algumas luzes brilharam – velas pequeninas a apaziguar as tormentas que tomaram aquele palco num subsolo perdido de Brasília.

Enquanto os aplausos soavam, nas sombras uma jovem mulher tudo espiava. Quem a visse, jamais suspeitaria que era tão grande. Anônima em meio aos espectadores, foi realmente uma pena que quase nenhum deles tenha notado seus olhos a falar sobre as penas e os amores que carregava.

Autora de toda aquela mágica, era bela, mas quem lhe notaria a beleza imensa, oculta por véus de carne? Nem ela, por certo. Mal sabiam os que ali estavam que era uma deusa, doadora de vida e de sonhos. Por quase uma hora espiara, atormentada, sua alma exposta, seus medos materializados no rosto e no corpo alheios, sua catarse particular. Não sabia se era hora de sorrir de alívio ou chorar como a criança assustada que era. Por isso optou por espiar, sem dar um pio, ao desnudamento que ocorria no palco enquanto seu espírito pairava entre o som e a fúria.

Somente outra deusa, a arte, sua amiga mais que íntima, comprendeu-lhe a solidão. Devagar, aproximou-se daquela que se ocultava nas sombras e depositou-lhe um beijo nos lábios. Cálido, compreensivo, confortador. Um beijo de amor.