Jairo José da Silva

Eu cheguei a Berkeley numa bela manhã de outono para ficar por quatro anos, cursando meu doutorado (PhD) em matemática. O ar translúcido permitia ver nitidamente o perfil das montanhas recortado contra o céu e, no horizonte, a Golden Gate desenhada contra um fundo de violento azul. Berkeley se oferecia como um sonho e uma promessa. Uma cidade de jovens, raras crianças e idosos, já que é essencialmente uma cidade universitária, ela irradiava energia.

Com à época (1980-1984) mais prêmios Nobel que a URSS – tinha até estacionamento reservado para os detentores do galardão! – Berkeley era um verdadeiro supermercado do saber. Havia de tudo para todos. Mas engana-se quem acha que a vida acadêmica acontecia apenas dentro dos edifícios do campus, Dwinelle, Evans e todos os outros.

Não, acontecia também, e acredito majoritariamente, nos cafés ao redor do campus. Cada um deles com a sua personalidade, seus habitués, suas especialidades. Havia o Café Espresso do lado norte, preferido pelos deprimidos e que por isso recebeu a alcunha de Café Depresso. Havia o meu predileto, o mítico café Roma (hoje Strada) na esquina da Bancroft com College, com seu espaço ao ar livre onde matemáticos demonstravam teoremas ao lado de grupos de belas, loiras e ruidosas sorority girls. Havia o Café Mediterraneo, na Telegraph, em frente à livraria Moe’s, não longe do People’s Park, o centro nevrálgico da história política de Berkeley, onde até hoje Dustin Hoffman espera por Katharine Ross no filme The Graduate (A primeira noite de um homem). Havia o austero The Musical Offering na Bancroft, junto à livraria de mesmo nome, que também vendia discos de música clássica, de ambiente respeitoso e recolhido.

Estudava-se nos cafés, mas também socializava-se, fazia-se amigos, paquerava-se. Os cafés eram o centro da vida de Berkeley. Havia um, ainda ativo hoje, que era uma instituição, o Au Coquelet, na University Ave., ao lado do maior cinema da cidade, o UC Theather, onde nos reuníamos à noite, em geral depois do cinema. Eu, Jacques, Catherine, onde o inglês se misturava com o português e o francês, em conversas sobre o filme recém visto, a política, o mundo e a vida.

Em minha visita mais recente a Berkeley, sentei-me ali e senti meu coração afundar. O lugar era o mesmo, até a mesma deliciosa tarte aux fraises, mas eu sabia que nenhum daqueles amigos entraria por aquela porta. Me senti só, como se tivesse sido abandonado. Où sont les neiges d’antan?*

Berkeley será sempre, para mim, um paraíso, porque, como diz Proust «les vrais paradis sont le paradis qu’on a perdus»**.

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* Onde estão as neves do passado?.

** “os verdadeiros paraísos são o paraíso perdido”.