Sardinhas, filhós, cantigas, vinho verde, risoles, danças da ilha da Madeira sob o sol da Califórnia. As línguas se tocam no Dia de Portugal. Vem cá, ó Maria. My boss speaks Portuguese! This is licor de ginja.

Tento escapar de um Portugal que desabotoa na minha garganta todas as sílabas de uma palavra só nossa: saudade. Eu a reconheço na água salgada que embaça meus óculos de sol.

Não, não me fale em Camões, moça, pois que minh’alma se toma de um lirismo antigo, capaz de dissolver a realidade em mil referências literárias e afetivas. Portugal, saiba, nunca vem sozinho ao meu encontro. Traz consigo poetas, livros, voz de mãe e um lugar em outro hemisfério, banhado por um oceano que não este, tão pacífico. Um lugar de azuis intensos, de amarelos cegantes e de uma colcha de retalhos feitas de mil tonalidades de verde – de árvore, de grama, de arbusto e de bandeira.

Passam no desfile as moças vestidas de princesas, com seus mantos de veludo bordado, púrpuras e azuis. Elas me lembram das histórias de fadas contadas por minha mãe, com mouras tortas, donzelas encantadas, rosas da rainha Isabel florindo no inverno, D. Sebastião desaparecido e Bocage a rir-se do mundo inteiro.

Passam homens e mulheres vestidos de camponeses. Lenços na cabeça, suspensórios e chapéus, ancinhos carregados nos ombros. Portugal é uma pintura de Jean-François Millet se movendo na montanha de Miguel Torga. Cantam velhas canções das ilhas e do continente. Dançam estalando dedos e fazendo coreografias que me lembram as festas juninas de um lugar onde o abraço parece mais longo, mais caloroso.

Passo eu entre barraquinhas de quinquilharias. Brazil, lê-se em alguns produtos. Meus olhos procuram com ansiedade um “s” perdido em meio à palavra. Em vão. Devaneio pensando em Caetano Veloso e Elza Soares no dueto em Língua. A língua é minha pátria e eu não tenho pátria, tenho mátria. E quero frátria. Cantarolo baixinho, distraída, até me dar conta de que as pontas dos dedos acariciam docemente as letras da palavra amada gravada em um tecido verde-escuro.

Lá, as flores são tão belas, os Fernandos são tantas pessoas, as Amálias caiam paredes, mastigam uvas doiradas, louvam o povo que lava no rio. Lá os bichos dormem a sesta enquanto me esperam, os cabelos de minha filha aguardam pelos meus dedos e uns olhos feitos de açúcar sorriem para mim. Todos me põem um rosário de penas no peito. Delicadamente, como convém aos amantes.

Ao voltar para casa, contemplo em silêncio a perfeição do lugar que habito. Nos jardins bem cuidados do condomínio há rosas exuberantes, jasmins delicados e lírios amarelos e roxos. Perfumam as casas, as gentes, a piscina cercada de guarda-sóis e os caminhos onde não se vê uma folha caída. Pena que flores não deem bom dia.

Vivo sem medo de assalto e sem tropeçar em sujeira nas calçadas. Aprecio o capricho dos vizinhos, cujas casas parecem ter saído de um cenário de filme, com gramados verdes, vasos de flores coloridas, janelas por onde se avista a (suposta) felicidade alheia.

Algo me tira das divagações. Um ruído que conheço bem. Viro o rosto devagar até meus olhos encararem de frente a agonia silenciosa dos dias. Ela me pisca um olho e tenta se ocultar. Mas sei que está lá, brincando de gato e rato comigo. Conheço seu nome completo, seu endereço, seu DNA. Queres uma taça de vinho do Porto, insidiosa?

No gramado sempre verde do meu condomínio espio sombra e o sol disputando espaço. Bem na divisão nasceu um dente-de-leão. Flor frágil, cujos filamentos qualquer sopro desmonta. Flor persistente, que renasce após longos invernos e se espalha pela terra, a tudo ocupando.

Quem de nós, eu me pergunto, é essa flor? Serei eu mesma ou o Brasil que vive em mim?