A divulgação das conversas entre o então juiz federal Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol é um daqueles momentos em que deveria ser obrigatório refletir sobre alguns pontos fundamentais desta guerra ideológica que paralisa o Brasil.

Não conheço Moro e Deltan pessoalmente, mas nada na conduta deles aponta para a calhordice. Parecem-me, ao contrário, idealistas demais. E esta talvez seja a raiz da questão. Movidos pelo fogo da vocação heróica, sentido de justiça ou por um sentimento de amor à pátria, é comum os seres humanos ultrapassarem a sutil linha do comportamento estritamente legal. Suponho que seja o caso do juiz e do procurador que se depararam com um dos maiores escândalos de corrupção da história brasileira.

É uma armadilha e um dilema moral a tentação de encarcerar criminosos poderosos impunes. Ainda mais os lisos, difíceis de flagrar e espertos demais para deixar traços de suas atividades ilícitas. Contudo, convém não esquecer que se paga tributos pessoais altos quando, em nome da ética, opta-se por desta se afastar, mesmo que levemente, mesmo que em nome de um bem maior. Melhor ter paciência, redobrar a luta, manter-se ferreamente dentro da esfera legal, sem dela se apartar um milímetro.

Não basta ser um homem bom ou se enxergar como tal. Há de se refrear o chamado da emoção e, rejeitando o canto de sereia de dar uma forcinha à sonhada justiça, se manter na fria letra da lei. Soa algo utópico, bem sei, mas aqui vai uma gota de praticidade para ajudar os cavaleiros andantes: no front de guerra é erro grave subestimar adversários que não hesitam em se valer de armas sujas. O preço que se paga é ver rematados criminosos se beneficiarem e rirem por último. Não vale o risco. Moro e Deltan acabam de descobrir isso.

A Lava-Jato é um marco no combate à corrupção. Quebrou barreiras que antes pareciam intransponíveis e expôs as entranhas dos esquemas que sempre corroeram os cofres da nossa República e – no dizer de Paulo Roberto Costa, o primeiro delator – tornou-se política de estado na era Lula-Dilma. Justamente por isso, seus condutores e o juiz do caso deveriam se preservar ao máximo. Arranhões em sua credibilidade podem vir a comprometer o fruto de um trabalho que, se não foi impecável e pode ter falhas pontuais, certamente é histórico e valoroso.

Ainda dentro da guerra que vivemos, a notícia do vazamento foi recepcionada entre os delírios festivos de uma esquerda brasileira cada vez mais irresponsável e a defesa cega da neo direita nutrida nas redes sociais. Alguns destes últimos minimizam o que ocorreu, ignorando o que diz a lei sobre suspeição de um juiz. É uma escolha arriscada, que, se hoje serve aos seus interesses, amanhã pode se voltar contra eles.

Outros preferem relativizar. Falam que enquanto Lula e Dilma tramavam contra o país, Moro e Deltan tentavam salvá-lo. Sim, as conversas de Deltan e Moro não são destinadas a planejar crimes ou salvar esquemas, mas não vamos nos valer de sofismas para justificar o escorregão, certo? A estes recomendo voltar três casas e reler o parágrafo quatro.

Já a euforia dos que festejam não me surpreende, dada a recorrente postura de ignorar provas robustas contra corruptos e manter a defesa cega de criminosos como o ex-presidente Lula. Fecham os olhos para o loteamento da Petrobras, para o monstruoso esquema que saqueou a máquina pública federal, para as confissões, as devoluções de dinheiro, as confirmações das decisões de Sergio Moro. Igualmente não se dão ao trabalho de examinar a trajetória jornalística e política recente de Glenn Greenwald e fingem ignorar a forma como as conversas pessoais foram obtidas. A propósito, antecede a tudo a investigação sobre o hackeamento dos aparelhos de autoridades da República. É crime grave demais.

Finalmente, há os que apelam para o “aqui se faz aqui se paga”, referindo-se aos vazamentos de gravações de Lula e Dilma. Esquecem que estas se deram autorizadas pela Justiça. Ainda que se questione sua divulgação e evidente utilização política (e se deve questioná-la), não foram obtidas à revelia da lei.

Dói muito em mim ver a que miséria chegamos como povo. Uns fratricidas que não se envergonham de divulgar falsas transcrições dos diálogos entre Moro e Deltan, que comemoram em delírio o fechamento de teatros por causa de opiniões políticas divergentes, que se alegram quando o escândalo toma como tsunami as nossas vidas, deixando atrás de si um rastro de desesperança nos homens e de atraso no país.

Essa guerra insana de narrativas, de boataria e de cegueira generalizada diz muito sobre o momento em que vivemos. Um instante de agonia que se prolonga no tempo e pode ser perfeitamente traduzido na palavra insanidade.
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Ilustração: Salvador Dalí, Soft Construction with Boiled Beans (Premonition of Civil War), 1936