A China encena, ao vivo e em cores, “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. É algo que já se percebia, mas agora a coisa ficou despudorada e com transmissão em tempo real para o planeta inteiro.

O mais recente capítulo ocorreu hoje: uma alteração da Constituição do país permite ao atual presidente, Xi Jinping, ficar no cargo por tempo ilimitado.

Ou seja: está reinstaurada a vitaliciedade na China. Xi Jinping é o novo imperador: com poderes quase divinos e autorizado a ficar no cargo pela vida inteira.

Pena que o último imperador – Pu Yi – não esteja vivo para testemunhar. Cercado de eunucos que o adulavam e desfrutavam de privilégios imensos, tratado como divindade e com direito a permanecer no cargo até a morte, foi “reeducado” pelos comunistas chineses, obrigado a aprender a amarrar os sapatos e a trabalhar como jardineiro. Não que seja ruim aprender a trabalhar e cuidar de si mesmo. Dramático é notar que, na China atual, os eunucos foram substituídos pelos homens do Partido Comunista. Restauraram-se os apanágios e abusos. Nos salões dourados, continua a haver luxo e chá da melhor qualidade, servido em fina porcelana.

Quanto ao povo chinês – falo daquele camponês que suava pelo pão de cada dia – continua a suar, mas desta vez nas fábricas, em cujo chão dorme, extenuado após jornadas desumanas. Continua pobre, desassistido, ganhando remunerações vergonhosas, longe da família. E, assim como na china imperial antiga, não ousa falar mal do novo imperador. Hoje até corre um risco a mais: deixar o custo da bala de execução como herança para a família.

O último imperador da velha China, Pu Yi, talvez não se surpreendesse com o atual cenário. Se não viu seu país sair da situação de sociedade agrária para se tornar potência mundial, teve tempo de testemunhar o terror das torturas, humilhações públicas e outros atos de violência que caracterizaram a gestão de Mao Tse Tung.

O chamado “Grande Timoneiro” plantou as sementes da nova e poderosa China, é bem verdade, mas regou a terra com o sangue do povo que afirmava defender. Sem mencionar a Revolução Cultural que liderou: a destruição da arte, da tradição e da riqueza cultural chinesas por um grupo de jovens revolucionários que acreditavam reinventar a roda de um mundo melhor e novo. Uma época para esquecer: de amigos que traíam e pais delatados pelos filhos. 

Voltemos a Xi Jinping. Desde Mao Tse Tung um líder comunista não acumulava tanto poder. Fora dos limites da China é adorado: adota posições moderadas em política internacional e abre a economia chinesa. Um verdadeiro ícone daquilo que um comunista old school chamava de capitalismo selvagem.

Do lado de dentro, a coisa é bem diferente: Xi controla com mão de ferro a imprensa e a internet. Na mídia, a Xinhua – agência de notícias oficial – domina a cena.

Na internet,  um exército de mais de dois milhões de pessoas fiscaliza o conteúdo. Postagens contrárias ao líder são rapidamente apagadas da rede social chinesa, quase 10 milhões de perfis já foram cancelados, milhares de sites foram derrubados e a lista de palavras e expressões bloqueadas nas redes sociais não pára de crescer.A cereja do bolo foi quando passaram a ser suprimidas quaisquer referências ao ursinho Pooh. Xi Jinping costumava ser associado ao personagem fofo. Pareciam-se fisicamente. Mas, à medida que o poder do presidente aumentava, os chineses passaram a divulgar um meme do ursinho se lambuzando num pote de mel. O imperador não curtiu.Em se tratando de política, opositores são perseguidos e ameaçados. Exemplo mais ostensivo foi o caso de Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz em 2010 e acusado pelo governo chinês de incitar a subversão. Liu morreu no ano passado, vítima de um câncer no fígado. O governo só lhe concedeu liberdade condicional poucos dias antes de morrer.Em termos de cultivo de ego, o novo imperador chinês não deixa a desejar. Suas fotografias substituem até as imagens de Jesus Cristo nos altares domésticos dos camponeses cristãos. O zeloso Partido Comunista Chinês quer que a plebe ignara saiba que os benefícios que lhe chegam nascem das mãos físicas do presidente e não da graça divina. 

Com tal perfil, não espanta que somente dois entre os 2.964 delegados do Congresso Nacional do Povo (sic)  tenham votado “não” à proposta de Xi Jinping tornar-se o novo imperador.  O destino de um bilhão de pessoas foi selado pelo medo.

No livro de George Orwell, revoltam-se os animais contra o fazendeiro que os explora. Logo, os porcos revolucionários (que prometiam mudar tudo e estabelecer um regime de igualdade) dominam tudo e repetem os mesmos abusos do fazendeiro. Têm a seu serviço jovens cães doutrinados, adestrados para defender os líderes da revolução; as ovelhinhas tontas, que repetem as frases dos líderes; e uma grande parcela de ingênuos que tarde demais se dão conta de que apenas mudaram de dono.

Orwell era um visionário. Lê-lo, uma vacina.