Judex ergo cum sedebit, Quidquid latet, apparebit:

Nil inultum remanebit. Quid sum miser tunc dicturus?*

Olha, vem aqui, já faz algum tempo que eu quero dizer uma coisa.

Calma, baixe a guarda, derrube a cerca, recolha as armas. É disso mesmo que quero falar. Já notou há quanto tempo você não conversa direito comigo?

Está tão encerrado nas suas verdades, nos seus amigos, nas suas mensagens de WhatsApp, que já não me vê.

Não, por favor não faça essa cara. Estou falando direito com você.

Sente-se aqui, deixe-me por os braços em torno de você. Quero falar de coisas sérias.

Quero falar sobre amor. Já não suporto lhe ver tão raivoso, com a revolta rugindo no seu peito como um búfalo.

Não, não é uma crítica. Apenas uma constatação. Ou um alerta amoroso. É que vejo o lobo aninhado em seu peito a rosnar cada vez mais alto.

Sabe, acho espetacular a sua inteligência, a maneira como entende coisas tão complexas. Gostaria de ter lido tanto quanto você, de ter entendido como funcionam as correntes da economia, da política, da sociologia. Você parece dominar tudo isso, pois fala com enorme propriedade.

Gostaria eu de ter as suas certezas.

Mas eu, há muito, escolhi calar quando muitos falam, mesmo que sejam mais tolos que eu. Talvez eu tenha pouco ânimo para ensinar lições a quem não as deseja. Ou talvez apenas goste de observar a roda do mundo a girar, girar, enquanto os homens se engalfinham em lutas que o tempo cobrirá de pó.

Escolhi ouvir.

Observar as coisas com calma é um exercício de autocontrole. Há muito tempo abandonei o caminho do julgamento primário e inconsequente – ele me trouxe dores.

Hoje eu vejo você embriagado por um pensamento que me agonia. Você é palmatória, dedo acusador, destruidor de reputações, desmascarador, engenheiro de teorias conspiratórias.

E ai de quem se lhe oponha. Recebe rótulos fáceis: covarde, tolo, ignorante. Neste momento mesmo você deve estar a dizer que estou aqui a escrever platitudes e tolices.

Olhe, eu já lhe disse que lá no céu, muito além das nuvens, há uma nebulosa? Ela se chama Hélix, a hélice. Quando os telescópios gigantes a capturam e os cientistas colorem as imagens, ela parece com um olho humano.

Gosto de pensar que é o universo a nos encarar. Os que creem certamente dirão que é um olhar divino. Eu não sei.

Talvez aquela íris feita de gás, estrelas e mundos que giram no concerto cósmico seja apenas um recado. Uma secreta mensagem sobre a brevidade da vida, sobre o que é de fato importante.

Um dia tudo silenciará. O seu rosto será máscara de cera. Seus olhos estarão fechados para a luz, os ouvidos cerrados, as mãos imóveis.

O capítulo seguinte é um mistério que atravessa os milênios. Ele não será desvendado agora por mim, mas valho-me de antigo mito, algo poético, para chegarmos ao ponto que desejo nesta conversa.

No dia em que o leve hálito da vida cessar, talvez alguém chegue. Nada dirá. Apenas o tomará pela mão e o conduzirá por caminhos subterrâneos. Ela estará de pé, enigmática, com a ank entre os dedos. Estenderá a mão em direção aos cabelos e dali vai retirar uma pena de avestruz. A pluma flutuará até um dos pratos da balança em um voo hipnótico. No outro prato estará o seu coração. Nu, desamparado.

Será ele mais leve que a pena?

Maat não desviará o olhar de você.

De seu silêncio, emergirão perguntas. Você, diante do espelho frio daqueles olhos, poderá dizer com segurança que não abraçou a mentira, nunca sentiu o inútil remorso, não divulgou falsidades, não caluniou, não sentiu raiva sem justíssima causa?

A verdade o encara. Você terá de dizer à deusa, sem titubear: eu não sou homem de arrogância ou violência. Eu não sou um fomentador de conflitos. Eu não agi ou julguei com pressa injustificada. Eu não fiz o mal.

Sua voz não poderá tremer quando disser: eu não me profanei.

Talvez pelo subterrâneo ecoem notas de um réquiem e você se pergunte, afinal, se tudo o que experimentou valeu o peso que trouxe ao coração.

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* Logo que o juiz se sentar, tudo o que está oculto, aparecerá: nada ficará impune. O que eu, miserável, poderei dizer? (Mozart, Requiem em ré menor (K. 626). Tuba Mirum.

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Imagem: Hélix, foto de Andrew Campbell (copyright e créditos). In: https://apod.nasa.gov/apod/ap190213.html