“Uma nação pode sobreviver a seus tolos, e mesmo aos ambiciosos. Mas não pode sobreviver à traição interna. Um inimigo nos portões é menos formidável, porque é conhecido e carrega sua bandeira abertamente. Mas o traidor move-se livremente entre os que estão do lado de dentro, seus sussurros manhosos farfalham por todos os becos, ouvidos nos próprios corredores do governo. Pois o traidor não parece um traidor; ele fala em um tom familiar a suas vítimas, seu rosto se parece com o delas e usa os seus argumentos; ele apela para a baixeza que jaz no fundo do coração de todos os homens. Ele apodrece a alma de uma nação, trabalha secretamente e oculto na noite para minar os pilares da cidade; ele infecta o corpo político para que não possa mais resistir. Um assassino deve ser menos temido”

Marco Túlio Cícero

Gêmeos na queda, roubaram da Nação brasileira quase um ano de vida. 2016. Um precioso ano de vida em que a poeira cobriu tudo. Um ano sem colheitas, sem festas de primavera, sem mãos que arassem a terra. Onze meses em que uma paralisia impediu a vida de seguir seu ritmo. No compasso de uma espera que parecia infinita, alguns ciscavam em seus celulares, alimentando a guerra imensa.

Foram eleitos entre delírios comemorativos, viviam cercados de acólitos, servidos em bandejas de ouro. Cegos pelo brilho falso dos elogios, não viram o abismo bem à frente. Eram intocáveis, onipotentes. Podiam mentir, reescrever a história, fazer desmoronar até a reputação dos justos. E o faziam com segurança, enquanto puxavam as douradas correias que mantinham seus lacaios bem presos. À passagem de suas carruagens de  fantasia, atiravam moedas aos miseráveis e distribuíam a carne de sua gente aos cães raivosos que os serviam – tão fiéis.

Desnudados, açularam seus lobos e lançaram mão das teias que enredam a Justiça. E assim consumiram quase um ano de nossas curtas vidas. Foram tantos os recursos, gritos, ações e gestos que cansaram mortalmente quem já não os tolerava. Negaram todos os crimes, jamais se curvaram às evidências, nunca experimentaram a humildade.

Encerraram suas carreiras políticas de forma melancólica. O ostracismo é implacável. Sem poder, o que resta? O longo caminho que conduz de volta à mortalidade é duro.

Ela se foi no silêncio da noite. Embora seus amigos lhe atirassem flores um tanto murchas, havia amargor. E solidão. Prometeu guerra; seus amigos, vingança. Limpou as gavetas, levou os presentes, matou o cachorro. E se foi, com a arrogância de sempre, certa de que era vítima.

Ele se foi em meio ao desprezo de muitos. A voz embargada e os lábios trêmulos só comoveram aos que jamais deixaram de idolatrá-lo. Deixou a sala do trono como pária – ele que um dia foi rei. E se foi, com a arrogância de sempre, certo de que era vítima. Encarou a prisão, de onde puxava cordões a mover os fantoches.

Deixaram para trás uma nação despedaçada. Aquela terra tão farta e espoliada gemeu mais uma vez. Os dois decaídos eram somente as faces mais conhecidas da grande chusma que a consumia. Foram precedidos por dinastias inteiras que a exploraram. Gordos parasitas que há séculos lhe devoram as carnes. Insaciáveis.

A saída de ambos os caídos não foi o fim do calvário. Longe disso. Afinal, era um antigo sofrimento auto-imposto – pois que desde tempos imemoriais seus filhos insensatos cultivavam o hábito de trazer para casa, e nutrir, o inimigo interno.

É que a cara dos parasitas espelhava a alma dos infantes, suas vozes prometiam um mundo menos injusto e o sotaque soava familiar – tudo isso confundia os meninos da terra. Encantados e tolos, contentavam-se os filhos em comer os restos que as sanguessugas deixavam escapar das ávidas bocas. Não ouviam os sussurros do inimigo pelos becos e ruelas, nem suas tramas na escuridão da noite. Com o tempo, passaram mesmo a amar esses inimigos íntimos. Alegravam-se em adorá-los, defendê-los. Enxergavam-nos como ídolos em vez dos vermes que verdadeiramente eram. E, se alguém os alertava, conformavam-se: sempre foi assim. Livramo-nos desses? Outros virão.

Depois que os gêmeos decaídos se foram, a terra contemplou suas feridas. No azul das veias percebia o movimento dos parasitas – novos e antigos. Estavam lá. Quis lutar, mas não sabia muito bem por onde começar. Seus filhos impediam qualquer gesto em socorro próprio.

O inimigo interno – se não sábio, mas muito inteligente e versado nas artes da sobrevivência – já lhes haviam inoculado um novo vírus insidioso, que igualmente causava cegueira parcial.

Assim, cada um via o mal apenas nos mascotes alheios. Engalfinhavam-se por isso. Rosnavam, despedaçavam-se.

Uma lágrima brotou do chão quando a velha pátria cansada notou um efeito colateral: muitos de seus filhos, já anêmicos de boas novas, jaziam enojados de tudo, abatidos pela depressão, roídos pela descrença.

Foi quando a encontrei.

Ela apenas me contemplou, identificando também na minha alma as marcas da doença emocional que consumia os meus irmãos. Demorou os olhos sobre minhas malas prontas e soube que eu partiria em breve. Nada disse, mas, ao baixar os olhos, cansada, quase patética, despertou uma dor lancinante neste meu peito que sofre.

_ Velha amiga que me viste nascer…

Com um gesto, ela interrompeu a frase. Os dedos da pátria nos meus cabelos escuros fez derramar o pote de mágoas longamente guardado.

– Onde estão os heróis desta terra? Em que buraco se esconderam os Ulisses e os Aquiles? Para onde migraram os livros, os filósofos e as canções? Há tanto lixo nas ruas, tanto horror nas esquinas. Teu corpo conspurcado me fere os olhos. Não consigo viver mais neste lugar onde os vermes fizeram morada. E nada os afasta, pois o organismo está viciado. Libera-me, por caridade. Deixa-me ir agora.

Ela sorriu com os olhos, lembrando-me que heróis – mesmo os de ficção – são imperfeitos e dispensáveis.

_ Ulisses se valia de ardis demais, filha. E Aquiles tinha aquele calcanhar que era seu ponto fraco. Melhor buscar algo factível, palpável.

Teimosa, fiz-me de surda. Prossegui.

_ Esse inimigo oculto, de que fala Cícero… como sabemos, está aqui, agora mesmo. Como um novo Iago, envenenando ouvidos, confundindo os tolos, rindo-se dos seguidores. É como um predador: identifica nossas fragilidades emocionais e as usa. Estimula a baixeza que repousa no fundo dos nossos corações e nos converte em monstros de ódio ou de corrupção. Ele nos injeta o veneno que paralisa. Ou o lança perfume das tolices que distraem.

Respirei fundo e prossegui. A voz saía em borbotões. Ela me olhava, compreensiva.

Ah, pátria-mãe, vejo que ele apodreceu a nossa alma e minou os pilares que nos sustentam. Tudo está infectado, como profetizou o velho romano. Onde estão os políticos de bem? Os oradores? Aquela gente que pega as palavras e as doma como se fossem pequenas feras? Deveríamos ter aqui homens capazes de erguer uma nação com a força de suas palavras e atos. Onde se ocultam os inspiradores? Quanto bem nos faria um Cícero… 

Finalmente, ela me interrompeu.

_ Cícero, disseste? Ah, filha, Cícero tinha lá suas falhas (todos temos). E foi morto. A esposa de Marco Antônio arrancou a língua do cadáver e a espetou várias vezes com um alfinete de cabelo. Ela se vingava pelas palavras que expuseram as mazelas da atuação política de Antonio. Como vês, a doença é antiga. E combatê-la, perigoso.

Tens razão, sábia pátria adoentada. Queremos expulsar os parasitas, mas falta-nos força e método, além de alternativas verdadeiramente sérias. Há lotes de medicamentos falsificados, vermífugos de araque e inimigos estreantes camuflados de heróis.

A desconstrução das reputações prossegue, agora sob nova direção. Os métodos vis dos antecessores servem aos atuais mandatários. Reciclagem de indignidades.

Estamos tão envolvidos pelo ópio de uma mentalidade torta que se torna difícil até cultivar o sonho. Desconfiamos de tudo, procuramos chifres em cabeça de cavalo, tornamo-nos escravos do maniqueísmo mais rasteiro e cultivamos um ódio mortal a quem nos contradiz as convicções.

Sem mencionar que o ato de dizer a verdade nesta terra é, sim, risco alto. De imediato cola-se à testa do autor uns rótulos grudentos. Ou aciona-se o exército virtual, cujo comportamento de matilha deixa a terra arrasada.

Temo pelos líderes do futuro, já que a ascensão de novos personagens nos desperta instintiva desconfiança: estarão também estes prontos a nos beber o sangue? Estamos escaldados – alguns de nós já descobriram que o sebastianismo impregnado no ethos local faz os incautos louvarem gente indigna. Populismo é moda que nunca passa, desde a chegada das caravelas.

E assim seguimos, equilibrados entre a frágil esperança e o peso do temor. A rigor, perante os abutres da causa pública, tememos escolher entre o abraço do inimigo e o alfinete na língua.

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Imagem: Fulvia with the head of Cicero, de Pavel Svedomsky .