Conta a tradição cristã a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém. Sentado sobre um burrinho, foi saudado pela multidão em delírio. Os quatro evangelistas narram a mesma história: foi recebido por gente que estendia as suas vestes sobre o chão poeirento. As patas do burrinho pisavam os ramos das árvores espalhados para enfeitar seu caminho. Adiante dele, os devotos clamavam, entre delírio e brados de amor e fé: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! 

Menos de uma semana depois, o mesmo Jesus Cristo estava morto. Após humilhações públicas e torturas, foi crucificado – a mais degradante morte que o Império Romano destinava aos que infringiam a Lex Julia Majestatis. Horas antes fora traído, negado e abandonado pelos amigos mais próximos; vira o governador Pilatos lavar as mãos em público e a multidão preferir salvar um conhecido criminoso. Dos que o saudaram dias antes, nem sinal. Na hora decisiva, amargou plena e profunda solidão, a beber vinagre quando estava sedento, a ver suas roupas serem sorteadas entre desconhecidos. Aos pés da cruz, apenas sua mãe e alguns raríssimos amigos.

Jesus não é caso isolado na história da humanidade. Antes e depois dele, oradores, filósofos, poetas, astrônomos, imperadores e modernos cientistas desabaram da glória ao subsolo. De Julio Cesar a Bonaparte; de Hipatia de Alexandria e Alan Turing; de Sócrates a Oscar Wilde.

É do temperamento coletivo a frivolidade. As multidões mudam de opinião ao sabor das circunstâncias. Hoje, herói aplaudido; amanhã pária, candidato à negação pública. Basta uma palavra mal posta, um gesto impensado, uma contrariedade a um tirano.

Em tempo de redes sociais, o fenômeno é ainda mais rápido. Instantâneo, por vezes. É um constante perseguir de popularidade, uma permanente fixação pela ideia de ter milhares de amigos. Ilusão. Modas passam, gostos mudam, os queridinhos da vez cedem lugar aos novos e – já disse o poeta – a mão que afaga também apedreja. Ai de quem se apega.

Mais que isso. Nossas vidas, a virtual e a real, são ruidosas. Pouco permitem que desfrutemos de nossa própria companhia. Estamos sempre a nos reunir, festejar, visitar, numa sucessão de compromissos. Em todos os intervalos, celular à mão, inclusive na cama, antes de dormir. Ao acordar, lá está ele, bem ao lado, na cabeceira, com sua vertiginosa espiral de novidades e emoções. Curtir, comentar, reagir, replicar, comprar brigas, bloquear, adicionar e começar tudo outra vez. As horas escorrem rápidas e nunca estamos sós.

A quarentena veio nos impor uma solidão nova, um obrigatório estar consigo mesmo. Mudança grande. Sem as demais atividades, restou-nos horas demais para a vida virtual. E ela cansa, consome. Por isso estranhamos. Mesmo os que estão acostumados a viver sós se inquietam.

É que farejamos o perigo. Neste terreno pantanoso do olhar para si mesmo, não há certeza da pisada. O que vemos no espelho é mistério e, vá lá, um certo medo da descoberta.

A questão que pulsa nos subterrâneos do espírito humano não é dita em voz alta: e se faltassem, em meio a tudo isso, as muletas que carregamos? Se não houvesse filmes, séries, energia elétrica, livros, parentes, amigos? Qual seria a nossa reação? Haveria algo em nós capaz de sobreviver a tal paisagem desolada sem enlouquecer de tédio, sem amargar revolta?

A resposta a essa pergunta é reveladora – e cabe a cada um, óbvio. O saber estar consigo mesmo – arte algo esquecida em meio às modernidades tão sedutoras – é essencial quando se pensa em meditação, tranquilidade da alma. A propalada mente calma nada mais é do que adaptação às circunstâncias, autocontrole, resiliência. Ela não se curva ao desespero, mesmo em meio à adversidade. Sabe que cólera, medo e paixões desenfreadas são péssimas conselheiras.

Alcançar este estado de graça é um árduo e longo caminho. Exige treinamento, perseverança, disposição. E, se há de começá-lo, que seja agora, pois, creia-me, será necessário uma hora ou outra.

Neste exato instante, em hospitais do mundo inteiro, há gente isolada. Sem televisão, sem celular, sem viva alma para conversar. Nas UTIs dos mesmos hospitais, muitos morrerão sem que a mão de um ser amado se despeça ou traga conforto. Sozinhos.

Estes não escolheram a solidão. Outros a desejaram.

Sócrates morreu cercado de discípulos, mas, a rigor, estava só. Não havia ali quem estivesse em comunhão com a sua serenidade. Os discípulos estavam aflitos e ele teve de lhes dar exemplo de fidelidade às próprias ideias. Suas horas finais foram usadas para demonstrar o valor de suas teses. Não queria choro ou descontrole. Bebeu a cicuta até a última gota, sem que a mão tremesse. Na hora final, pediu que lhe cobrissem o rosto. Queria a solidão de si mesmo. Não se consegue isso de uma hora para outra.

Na história narrada nos evangelhos ocorre exatamente o mesmo. O Jesus que morre é ainda o homem que ensina, perdoa e exemplifica, apesar do corpo que se finda entre dores. Uma de suas últimas frases é emblemática: Eli, Eli, lamá sabactani (Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?). Não é um pedido de ajuda, nem reclamação. Estava apenas recitando antigo Salmo, o 22, que inicia com esta exata frase.

O poema de Davi fala de um homem desprezado, cujas vestes foram repartidas e as forças secaram. Um homem que morre sozinho e faz da finitude um instante de poética contemplação: “Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas.(…) Mas tu, Senhor, não te afastes de mim. Força minha, apressa-te em socorrer-me“.

Os instantes finais de Jesus são voltados inteiramente para si; a divindade e companhia que evoca estão nele mesmo.

O que fez não é impossível para nenhum outro ser humano. Preparar-se para isto é o desafio que hoje se põe à mesa.

Coragem, pois. Ao olhar no universo de si mesmo, pode-se descobrir galáxias e nebulosas, planetas que giram docemente, estrelas de alta magnitude. Talvez seja assim que o homem aprende a se amar e a estar feliz consigo.

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Ilustração. Edward Hopper. Morning sun