As armas e os Barões assinalados
Que da ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.

Luís de Camões. Os Lusíadas

Houve um tempo, meu Senhor, em que os homens se atiraram aos mares. Frágeis barcos, águas muitas, sonhos loucos. Navegar era preciso; viver, nem tanto.

Estava eu entre eles.

Além, muito além daquele mar, vimos a terra mui nova. Ingênua, desprotegida, trazia o corpo sem pelos, tosquiada parecia. Cabelos escuros bem lisos e pele morena de sol combinavam com uns olhos tão diferentes dos meus. Era forte pra mil coisas – chuva, sol, onça-pintada – mas caiu frente às doenças que, às ocultas, lhe entregamos.

Ao vê-la assim tão jovem, tão pura, tão inocente, nossos dentes chacoalharam – de febre, desejo, loucura -, mas seguimos sem temor: o destino estava à frente.

Além, muito além daquele mar, longe de vossa Sereníssima Pessoa, fartamos as brancas barrigas em doces frutos maduros. Mascamos todas as polpas, bebemos o vinho e o sumo. As sementes que cuspimos caíram no corpo da terra. Milagres de cada dia: tudo logo ali brotava.

Era uma festa essa gleba. Uns verdes que nem suspeitávamos, sabores, cheiros, ruídos. Macacos, tatus e araras. Topázio, safira, esmeralda.

Naquelas praias tão claras, de conchas, palmeiras e sal, comemos os peixes-boi e os mutuns, tartarugas e cotias  – bichos mansos deste mato, bichos tolos destas águas.

Como resistir, Bondoso Senhor, à abundância de especiarias, drogas do sertão, madeiras? Entramos nas matas fechadas e esprememos a seiva. Uma delas bem vermelha, a árvore do Brasil. Seu sangue tingiu nossas roupas, sua carne tornou-se chão, mesa, estante e prateleira.

Tão diferente era ela, que esquecemos outros amores. Ulisses modernos do Orbe, largamos berço e aldeia. Ficaram para trás mãe Lisboa, Douro, Minho e o belo Tejo; Camões, lirismo, cantigas – velho mundo de arpejos.

Quem pode esquecer finas rendas, bordados aparatosos, olhos negros, peles claras?  Nós, os inventores da saudade, os loucos das caravelas.

Nossa sina era o mar e aquelas terras tão moças. Éramos então os ousados, os que cruzavam o hemisfério. Feitos de ânsia e coragem, pisando sonho e mistério.

Heróis e aventureiros, sedentos de tantas coisas, fincamos pedras no chão, erguemos igrejas mui ricas, casario de eira e de beira, e nas noites mal dormidas, redes, pastéis de nata, ouro farto na algibeira.

É que naquelas terras tão ricas o ouro brotava do chão ou se escondia na curva do pescoço das montanhas de Minas. Por ele gemeram africanos, puniram poetas e mataram um certo Alferes, Marília jamais se casou e D. Barbara, do Norte Estrela, nunca mais secou os olhos. Morreu louca e desvairada, como uma nossa rainha.

Só não conseguimos –  lamento –  fazer a terra sorrir. Ao contrário, gemeu ela,  desde cedo agoniada. Debateu-se a pobrezinha, sob a nossa mão pesada. Arrancamos suas jóias, vestes, família, morada.  Mordeu-nos sem piedade, comeu uma parte de nós, atravessou-nos com suas flechas, deitou-se com os inimigos: que eram nossos e dela.

Tudo em vão, pobre terrinha. Sob a mira do arcabuz, engoliu sangue e saliva. Capitulou, afinal.

Sob o peso da espada verteu lágrimas de fado, um choro sentido e secreto.

Muitos anos se passaram, as caravelas partiram. Fizeram caminho de  volta, uns imersos na revolta, outros em franco delírio: estes batiam as sandálias e mal escondiam o riso. Alguns espichavam os olhos, mortos de medo e saudade. Foi assim com um certo Pedro, que em Queluz nasceu um dia. Para lá voltou, após lutas, o neto de D. Maria.

Na terra nova deixamos, Senhor, marcas de alma e de corpo. Lirismo, audácia, doçura. Nossas bocas se tocaram, partilhando uma só língua. Verbo, saliva e beijos de ressentimento e de amor. Chorava ela suas gentes, filhos há muito abatidos. Trazia a alma repleta de ais, tristeza e gemidos.

Para consolar suas muitas perdas plantamos um filho em seu ventre. Era simples e de alma nobre, mas foi em breve expurgado, rejeitado pelos seus. Tinha uns olhos de açúcar, sorriso franco e gentil, mas, ainda assim, bastardo. Recolheu-se em noite escura, num navio que o transportou. Carregou travesseirinhos, feitos de seda e de areia, onde pousava a cabeça na terra da mãe distante, mãe gentil.

Desde então, tal mãe sofrida, em brados de puro lamento, repete tremenda jura de pranto, morte e sofrimento. Se as maldições se cumprem, nada sei, meu bom Senhor. O que sei é que esta terra desde então só feneceu. Pouco brilho, muitos saques, nada a louvar no caminho. Seus próprios filhos azedaram o leite que ela lhes deu.

Ingratos, ingratos, ingratos – acusam alguns, revoltados. Tolos, queremos o ouro – riem-se os desalmados.

Naquela terra tão virgem, onde plantamos sementes, vivem ainda homens sábios, cujos suspiros escuto quando o mar se faz silente, quando os pássaros não piam, quando as tardes são dolentes.

Tristes somos, tristes somos.