Num dia azul de verão, sinto o vento
E há folhas no meu coração, é o tempo
Recordo um amor que perdi
Ele ri.

Aldir Blanc

Caro Aldir,

todos os lírios floriram ao mesmo tempo no jardim aqui de casa. Não entendi o porquê. Nunca entendo quando a paisagem decide fazer festa de cor nos dias que a alma da gente se veste de cinza. Talvez seja um sinal neste dia da tua partida: a natureza, que anda rebelde, decidiu contrariar a consternação geral e se enfeitar para te receber de volta no seu colo.

Só isso explica o azul impecável do céu de hoje. E esse colar de plumas de nuvem que eu acabei de ver.

Não haverá despedida tradicional para ti. Então floriram não só os lírios, mas também as magnólias, as rosas, as papoulas e até os dentes-de-leão. Escreveram juntos mensagem silenciosa de adeus para quem extraiu poesia até das pedras pisadas do cais.

Neste teu sono calmo já não ouves, mas temos chorado. Todos nós. A pátria, mãe gentil, as Marias, as Clarices, a tua Mary, o João Bosco. Choram não só os teus. Há um uivo na noite e é preciso ter ouvido bom para escutar o lamento coletivo por mais de sete mil mortos.

No solo do Brasil as covas são insuficientes para tanta gente que partiu neste rabo de foguete. Vem uma escavadeira e abre imensas valas onde se colocam, lado a lado, os caixões dos brasileiros.

A gente engole em seco. Dentro de casa, os dentes chacoalham. Tornou-se um hábito sonhar com a volta do irmão, do pai, da mãe, dos sobrinhos, dos amigos.

Que sufoco.

E, para aumentar as nossas dores, a confusão política não dá trégua. Uns ranços, umas indignidades que espantam. Sem falar de quem tem nostalgia do horror. Há tantos tipos de doença hoje em dia…

Trazemos um nó na garganta, um sentimento de abandono e um ponto de interrogação. Enorme. Dizem que surgiu desde que descobrimos um falso brilhante no dedo. Ou será que foi um torturante band-aid no calcanhar?

Por causa de disso, não conseguimos ver a esperança dançando de sombrinha. Está bem escuro nestes tempos estranhos, de solidão e medo.

Escondidos nas casas, pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados e bóias-frias sonhamos com as mesmas coisas. Você bem sabe: bife a cavalo, batata frita e goiabada cascão de sobremesa. Com muito queijo.

Depois? Café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor. Ou Dagmar. Dagmar, que rima com amar. Parece boa ideia tocar as línguas rubras dos amantes, mas estamos devagar (rimou de novo), sem vontade de chamar a patroa e sussurrar no pé do ouvido “são dois pra lá dois pra cá”.

Já não temos rádio de pilha, só televisão e celular para preencher as muitas horas vazias. Não usamos marmita, pois o trabalho é em casa. Nem sabemos mais a diferença entre o domingo e a segunda.

Lembra do bar, onde tantos iguais se reuniam contando mentiras para poder suportar? Tiraram isso também.

Bem quietos, tomamos umas biritas para espantar a tristeza. Quem não está desempregado, vai de uísque com guaraná.

Depois dormimos, de olhos abertos, à sombra da alegoria de faraós embalsamados. Que tempos! Nesta vida estranha da qual agora tu escapas, tudo parece conjugado no pretérito perfeito.

Paciência. Melhor ficarmos em casa. Para quem escreve, resta a tua fórmula: colocar no mesmo barco realidade e poesia. Para quem tem as redes sociais, sobra outro conselho teu: rir da própria agonia, seja em memes ou em piadas sem graça que a gente insiste em compartilhar.

Encerro esta carta agora.

Penso no teu corpo estendido. Sem velório, violão e roda de samba emocionada nos botecos da Vila Isabel.
Em vez de reza, uns amigos desfiam teus tesouros nas janelas.

Um silêncio servirá de amém.

Depois que tudo isso passar, a tua voz virá nos lembrar que os sonhos, sempre incandescentes, recomeçam no exato instante em que os julgamos mais ausentes.

Vamos, portanto, recomeçar, como as canções e as epidemias.

Queria ter escrito outras coisas, sobre risos, sambinhas, terreiros, pôr de sol, águas da Guanabara. Escritas leves, como se seguisse na chuva, de mão no bolso e sorrindo, mas a verdade é que choro sob este céu de um azul puríssimo.

Oh, manhã entre manhãs.

***

P.S. Beija o Noel por mim e, se possível, manda de novo a equilibrista mostrar para gente que o show de todo artista tem de continuar. Nem que seja nas memórias e nas canções sussurradas na noite do Brasil.