Tardezinha, hora do Ângelus, e minha mãe orava no quintal de nossa casa pobre. Mal soavam as seis horas da tarde e ela tudo deixava, cerrava os olhos devagar e fazia o sinal da cruz. Herança portuguesa a da minha mãezinha.

Diante de seus santos silenciosos, do terço e dos cadernos em que anotava os nomes dos sofridos, ela orava. E suas preces sopravam bálsamos de amor sobre mim e meus irmãos, meu pai, parentes distantes, afilhados, comadres e vizinhos. Como amava aquele coração.

Lembro de suas mãos, que pousavam na minha testa nos dias em que a asma me aniquilava. Mãos de mãe. Pele finíssima, veias azuladas. Mãos que receberam meus filhos tão logo eles deixaram meu ventre, pois não houve parto em que ela não estivesse presente, segurando minhas crianças e me pacificando. Mãos de confeito, de bolos, de crochê, de bordados, de desenhos e de letras.

Nem sempre a compreendi. Tolices de infância e arrogâncias da adolescência. Ela perdoava, pois dela herdei o temperamento desafiador que só o tempo domou. Tive tempo de retribuir e cuidar. E tempo de lhe dizer o quanto sentia pelas bobagens que se diz na juventude. Também tive o longo tempo da despedida, em que ela devagar deixou da vida e eu, em absoluto desespero, me dei conta de que a perdia, que seu sorriso travesso e sua voz firme jamais seriam ouvidos de novo. Fiz promessas, gemi alto, morta de pena de mim mesma.

Abandonei o trabalho e, por exatos treze dias, segurei suas mãos, enrolando os dedos na neve sedosa de seus cabelos. Madalena dos tempos modernos, lavei-as com minhas lágrimas e as enxuguei com meus beijos e sussurros de amor e de gratidão. Em vão. Foi sumindo em meio ao coma, desfazendo o sorriso. E seu silêncio doía.

No sábado, 6 de dezembro,  meu olhar se demorou na máquina de medir vida. Os batimentos cardíacos caíam. Minha mãe morria. Num átimo, pensei em deixá-la partir. Não pude. Meus dedos tocaram no botão de emergência. Acorreram gentes vestidas de branco. A eletricidade percorreu o corpo inerte e o trouxe de novo à quase-vida. Meu coração era um tambor.

Um bom médico pousou a mão no meu ombro e me disse suavemente: “A medicação vai prolongar a vida de sua mãe por poucas horas. Chame seus irmãos e os netinhos. Podem ficar aqui durante toda a noite despedindo-se dela. Chegara a hora da Grande Viagem, como ela dizia.

O dia vinha surgindo quando toquei suas mãos tão frias. Encostei-as no meu rosto. “Estou aqui, mãe”. Um pequeno salto no aparelho de medir vida e os batimentos cardíacos começaram a cair de novo. Mão de ferro me comprimia o peito. Mas por algum mecanismo, divino ou cerebral, ouvi de novo a voz de minha mãe cantarolando uma velha canção de Roberto Carlos, que ela amava.

Já está chegando a hora de ir. Venho aqui me despedir e dizer que em qualquer lugar por onde eu andar, vou lembrar de você. Só me resta dizer agora dizer adeus e depois o meu caminho seguir. O meu coração aqui vou deixar. Não ligue se acaso eu chorar…

Correria, luzes se acendendo. Enquanto enfermeiras e médico se aproximavam, uma paz inexplicável tomou conta de mim. Mantive as mãos dela nas minhas e repeti docemente, tantas vezes que nem sei: Estou aqui. Não tenha medo, mãezinha. Sua filha está aqui. Eu te amo, mamãe. Eu te amo tanto. 

Na hora extrema, quando ruem tantas convicções, curvei-me às crenças dela e, lembrando daquele Jesus que ela tanto amou, disse, com a sincera humildade de quem nada sabe da vida e da morte: Nas tuas mãos entrego o espírito de minha mãe.

Ela me recebeu neste mundo. Eu a acompanhei quando ela o deixou. Como tem de ser.

Minha mãe se foi exatamente como havia desejado, com o sol surgindo em um dia de verão. Despedi-me de seu corpo ao som de passarinhos que cantavam e dos netos que brincavam.

Ao depositar uma flor no túmulo que se fechava, um pedaço do meu coração escapou do peito e se escondeu no lugar em que meus pais repousam.  Não teve coragem de deixá-los sozinhos.

Tantos anos se passaram, e hoje, aqui nesse país distante, há uma igreja cujos sinos tocam todo dia na hora ângelus. E meu coração desfalcado sorri. Um riso triste, de saudade que nunca passa.

Eu te amo, mamãe. Eu te amo tanto.