Os acontecimentos me espreitam nas dobras destes dias longos. E com seus dedos compridos andam a fazer de marionetes os sentimentos meus.

Ontem o dia surgiu com a morte de um homem bom. Eu a vi de pé, bem presente, com seus olhos de coruja. Inflexível. Carregou sob seu manto o Padre Bruno. E meu coração gelou.

Tem-se nessas horas a impressão de que há mais silêncio, mais deserto. Como se o amor adormecesse.

Acompanho pela internet, com os olhos úmidos, o carro funerário passar pelas ruas de um bairro pobre de Belém. Cai uma chuva fina. Sob guarda-chuvas há soluços sentidos. É a humildade acenando, vestida de chinelos simples. É a gratidão vindo prestar homenagem ao homem gentil que se deu inteiro para que outros bem vivessem.

A câmera filma de longe a cerimônia modesta. A voz do bispo embarga, um padre canta emocionado, desafinado, dentro de um carro. Sozinho. Surgiram algumas sombrinhas, empunhadas pela gratidão que teima em se arriscar. Em poucos minutos, tudo está consumado. Um tapete de grama verde cobre o doce homem.

Recorro à tela mágica onde vivem agora tantos amigos, os meus filhos, os meus queridos distantes. Um amigo me manda o Réquiem de Fauré. Belo, mas agridoce. Foi postado por uma amiga que havia partido dois dias antes, sozinha. E essa lembrança me põe a pensar no quanto descuidamos uns dos outros; no descaso que nos impede de nos apoiarmos e amarmos de um jeito caloroso e bom.

A mesma caixa mágica – às vezes ela adivinha coisas – me socorre. Vem o lembrete de que haverá o lançamento do primeiro foguete da Space-X. A primeira missão espacial da iniciativa privada conta com a mão amiga da Nasa. Na coxa dos astronautas as notas imprescindíveis para o caso de a tecnologia falhar. Em papel? Creio que sim.

Ponho o link no Facebook. Os amigos chegam para conversar. Partilhamos a emoção e a expectativa. A decolagem acontece. O mau tempo não atrapalha. A velocidade aumenta, o contorno da terra surge, glorioso na tela. Ela, além de azul, é redonda. Tremem as convicções dos terraplanistas. Rimos felizes: amigos e desconhecidos, gente que nunca se viu pessoalmente. Por alguns momentos a ciência nos fez esquecer a dor imensa que toma o nosso mundinho a flutuar no breu do cosmos.

Mais algumas horas e as notícias se acumulam. Quase 30 mil mortos no Brasil. O padre, o maestro, o médico, a enfermeira, a grávida, o policial rodoviário, o irmão do amigo. Milhões infectados no planeta. Pulmões e corações que falham. Um homem morreu sem conseguir respirar, sob o joelho implacável de um policial. Incendiaram os carros da Polícia. Os helicópetros sobrevoam minha casa e decretam toque de recolher. Os gritos me alcançam. Pela TV, pelo celular, pelo notebook.

Algo dói, bem no centro do peito. Dói tanto que também eu começo a duvidar se sei respirar. Sim, eu sei. No YouTube eu o busco. Concerto número 21. Abro o pulmão e aspiro todas as notas de Mozart. Com elas vêm um mar azul, os mil desenhos da terra, o som irreproduzível do riso dos meus filhos e da voz do homem amado. O abismo ainda está à minha frente e o sol está forte, mas uso uma sombrinha vermelha, tenho companhia e vejo todas as cores do amor e da esperança se revelarem diante dos meus olhos famintos de paz. Algo delicado se reconstrói.

E o milagre se faz em mim.

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Promenade sur la falaise à Pourville, de Claude Monet