Há dezesseis anos morreu o meu pai, Manoel, botafoguense de boa cepa.

Com meu velho aprendi que ser botafoguense é um estado de espírito. É um não precisar se envolver com as miudezas da patuleia.

Botafoguense não anda: paira. Estamos cada vez mais etéreos. Os adversários hão de dizer que andamos minguados e minguantes. Eu discordo. Somos raros mesmo. Aliás, raríssimos. Torcer para o Botafogo é como pertencer à família real britânica ou ao grupo dos que leem sânscrito: um círculo restrito e qualificado, hoje um tanto vintage mas ostentando um passado histórico inigualável.

Ser botafoguense é como tornar-se expert em chá. Você faz bonito até se for convidado por Elizabeth II para debater a expansão do esporte bretão nos trópicos. Note que não estou falando dessas tisanas que o brasileiro apelida de chá. Boldo, camomila e hortelã? Não mesmo. Refiro-me a nobre domínio dos chás pretos, verdes, oolongs e brancos. Servidos sem açúcar, com cerimônia e porcelana chinesa, temperatura certa e tempo de infusão cronometrado. Um luxo.

Somos uns apolíticos em preto e branco. General, para nós, somente o Severiano. Heleno? Só o de Freitas. E vamos ficar por aqui, pois eu me recuso a fazer trocadilhos com o santo nome do Jairzinho. Se você ouvir falar de botafoguenses envolvidos em confusão, saiba que são infiltrados: flamenguistas, vascaínos e torcedores do Fluminense são os black-blocks do futebol carioca. Não passarão!

A paixão de meu pai pelo Botafogo iniciou na juventude dele num Rio de Janeiro hoje quase desaparecido, o Rio dos anos 50, que encantou Walt Disney e Hollywood. Um Rio cuja fama resiste aos percalços e aos maus governantes.
Papai morava em São Cristóvão e cultivava duas paixões: música e futebol.

Se na música era polígamo, no futebol sempre foi monogâmico. Até hoje guardo a canequinha alvinegra em que tomava a cerveja geladíssima. Está descascada, mas firme.

Às vezes imagino que ele talvez alimentasse secretamente algum desejo de imitar seus ídolos. Quem sabe sonhasse em ser o Heleno, rei das mulheres, dos campos e da cocada preta. Ou dividir a invenção da folha seca com o Didi. Ou talvez quisesse apenas ser Amarildo, Zagallo, Manga, Paulo Cezar Caju e Gerson, ou vestir a camisa 7 para absorver a irreverência do Túlio Maravilha. Jamais saberei.

O que sei é que, para mim, meu velho sempre foi Garrincha, gênio humilde de pernas tortas e um talento imenso para o encantamento coletivo. Hipnótico.

Filha apaixonada é um problema. Raramente supera o amor pelo pai. E o meu velho – saibam todos – era o meu xodó. Por ele fiz a maior loucura da minha carreira jornalística: me candidatei a fazer uma entrevista de página inteira para a editoria de Esportes. A razão do desafio? O entrevistado era o Nilton Santos! Em Brasília, tremi nas bases ao me ver diante da Enciclopédia. Um monumento! Não resisti. Foi a primeira e única vez que pedi foto com um entrevistado. Para tudo tem limite, até para a minha timidez. Papai ficou tão nervoso que não conseguiu me acompanhar à gravação. Eu deveria tê-lo obrigado.

Por isso, quando penso no Botafogo, solto a imaginação e tudo misturo: meu pai, suas paixões e o cenário em que viveu. Assim, às vezes, o meu botafoguense particular assume a forma de um playboy com bigode à Clark Gable, cabelo gomalinado e óculos escuros, que desce de um conversível na frente do Copacabana Palace. Carrega como um troféu seu charme e dignidade. Uma beleza antiga, que abre portas de carros para as damas.

Eu, se exagerada fosse, diria que nós, os botafoguenses, somos a nata, a fina flor do Rio de Janeiro. No samba, seríamos mistura de Noel, Ataulfo, Cartola e Paulinho da Viola. Já entre os bossanovistas, João Gilberto e Tom Jobim, por certo. Dos cronistas, João do Rio e Carlos Eduardo Novaes. Entre as escritoras, Hilda Hilst, incompreendida e louvada. E se for nos comparar a mulheres apaixonantes, somos estrela de cinema com doutorado em astrofísica.

Mas não sou exagerada. Por isso termino esta crônica dizendo que o meu Botafogo idealizado é o Glorioso de tantas histórias e tradições, mas também é o meu velho pai, de mil saudades.

Ninguém cala esse amor por ele(s). Nem o chororô que persiste em mim há dezesseis longos anos. Porque naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele sempre vai doer em mim.

Brilha aí no céu, meu velho, solitária estrela.

E, em meu nome e no do Eduardo Affonso, dá um abraço apertado no Garrincha e no Nilton Santos.