Para Miriam Murakami*

Disseram que minha mãe morreu. Tolos – não conheceram minha mãe. Não sabem de seus poderes e mistérios. Se a tivessem conhecido, saberiam que agora vive em outro país, lugar de sonhos que ela passou a vida inteira construindo e para onde me leva sempre que sinto saudades. Sem alarde, infiltrou esse lugar em todos os meus sentidos. Tomou-os, preenchendo-os com fina poeira de poesia. Agora, só os cegos de alma não me veem passeando em seu país, onde é rainha e bailarina, espalha conchas cheias de mar, põe flores nas portas, assa bolos de ilusão e sua voz é o som de um violino no Natal.

Ontem mesmo eu estava lendo um livro. A história falava de uma criança que escapava para o reino da fantasia por causa de um perfume. Foi o suficiente para que minha mãe surgisse, sem qualquer aviso. Estava esplêndida. Abriu os braços e sorrindo me arrastou para o seu mundo de maravilhas.

De repente eu me vi diante de uma cômoda. Eu a conhecia bem, ela existia na minha antiga casa. Era marrom, feita pelo meu avô. Minha mãe a pintou e preencheu as gavetas com coisas metodicamente arrumadas. A mais importante era a primeira, a dos perfumes. Chamava-se “A Gaveta da Felicidade”.

Bastava abri-la para escaparem mil aromas. Doces, cítricos, um universo de odores misturados. Havia algo de sagrado na gaveta. O salário de professora,  tão pequeno, mal dava para comida. Como poderia minha mãe comprar perfumes? O mistério máximo do amor ao próximo fazia surgiam moedas e trocados ao final do mês, quando chegava o pobre revendedor da Avon. Ele vinha, carregando seus livrinhos e sacolas cheias de encantamentos. Trazia uns olhos encharcados de esperança e o rosto marcado pelo cansaço. Minha mãe o esperava, com um café. “Hoje só posso ficar com um sabonete. Mês que vem vou tentar juntar o suficiente para comprar um perfume”.

Não usava os tesouros aromáticos. Guardava na gaveta, onde tudo impregnavam. “Quando você estiver triste, abra a gaveta da felicidade e sinta o perfume”, dizia. Era tão bom aquele cheiro de cura e conforto, que muitas vezes fingi que estava triste para sentir o aroma da felicidade.

Era uma artista a minha mãe, dessas que já nascem prontas e transformam em beleza tudo o que tocam. Fazia bolos mergulhada em quietude. Eu colava os olhos na massa bicolor. O som metálico do garfo na tigela era hipnótico: eu via na massa desenhos de castelos, casas, bichos e aves. Um bolo batido à mão, recheado de ilusão. Bolo de luz e sombra, dizia.

Com ela aprendi a ouvir a voz do coração alheio. Das suas delicadezas, minha preferida era quando punha uma flor na porta dos amigos. Em suas raras visitas a doentes ou aos compadres, gostava de levar “uma coisinha”, um agrado. Quando o dono da casa não estava, pendurava a flor no trinco da porta – e um sorriso lhe tomava o rosto, como criança fazendo travessura. Um dia perguntei a ela se a pessoa saberia quem estivera ali. Sorriu e me explicou que isso não era importante. A graça estava em encantar. Foi além: garantiu que as pessoas se divertiriam tentando adivinhar quem por ali passara e que um dia, num desses encontros casuais, descobririam e sacudiriam as cabeças, felizes com a lembrança.

Sentava na cadeira de balanço nas tardes de inverno, olhando para as árvores frutíferas. Sempre com os gatos no colo, esperava a época das flores e da colheita dos frutos, quando fazia seus doces em fogo lento e os punha em potes de vidro com um pequeno laço colorido. Em seguida, saía a entregar os mimos.Jamais os vendeu. Retribuía o amor recebido. Desde a primeira flor na árvore, ela já sabia pra quem seria o pote de doces. Entregava o presente e recebia o abraço em cenas se gravaram em mim. Ali estava o amor em forma de espera, paciência e trabalho.

O mundo das maravilhas de minha mãe é como a casa em que ela viveu aqui na Terra: um abrigo para os órfãos de afetos. Um deles, lembro-me sempre, era o Nato, um morador de rua que perambulava pela vila, carregando latas penduradas no pescoço, pedindo café.

Vinha todos os dias, bem cedinho. Mamãe mandava eu encher a lata dele com café quente, leite e bastante açúcar “pra esquentar e dar força”. Por vezes não tínhamos pão, ela então fazia farofa de ovos – para nós e para o Nato.

Minha mãe carregava na alma todos os poemas do mundo. E me dava. Como no dia em que perguntei como era o mar. “Filha, é tão lindo que chega a doer os olhos. É azul, com espuminha branca, e lá no fundo encontra o céu”. Devagar, colocou uma concha no meu ouvido e sussurrou com suavidade: isso é o barulho do mar.

“E tem cheiro, mãe?”

“Tem, filha, mas não consegui trazer”.

Durante muitos anos vi e ouvi o mar pelos sentidos dela. Exceto o perfume do oceano, que hoje também dorme na gaveta da felicidade.

Ela tinha a grande mania de encantar. Alice era o seu nome. E pôs em mim um país inteiro, feito de pequenas maravilhas. Nele, ela vive.

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* Este texto é baseado nas memórias e textos de Miriam Murakami sobre sua mãe, Alice.

Pintura: Gustav Klimt. As três idades da mulher.

Amélie-les-crayons – Le Linge de Nos Mères